Liverpool e Tottenham chegam à final da Champions League capitaneados por trabalhos de tirar o chapéu de seus técnicos. Jürgen Klopp, pelo lado dos Reds, melhorou consistentemente a equipe desde sua chegada, em outubro de 2015, contratando jogadores pontuais para pôr em prática seu famoso Gegenpressing, refinando primeiro o ataque e então aprimorando a defesa, enquanto Mauricio Pochettino, pelos Spurs, mostrou que não precisava do orçamento dos gigantes para bater de frente com eles. Promoveu a entrada de um grupo de jovens esfomeados por sucesso, foi também atrás de peças específicas e, mesmo na temporada em que não pôde gastar um centavo em contratações, alcançou a histórica decisão europeia para seu clube.

O trabalho impressionante de ambos pode ser visto nas mais variadas facetas, e uma de suas principais é como tiram de cada jogador a última gota de talento e contribuição que podem dar. Neste sentido, as contratações de Wijnaldum, pelo Liverpool, e Lucas Moura, pelo Tottenham, são um capítulo à parte. Klopp e Pochettino fizeram dois jogadores já bastante conhecidos parecerem um achado.

Falamos normalmente em “achados” ao descrever jogadores desconhecidos do grande público e que, contratados por algum time de expressão ou bastante falado na mídia, se mostram grandes reforços e fazem todos imaginar como que ficaram tanto tempo longe do radar. Wijnaldum e Lucas Moura não se encaixam exatamente nesta categoria porque ambos já acumulavam passagens por suas seleções nacionais.

Wijnaldum, especificamente, fizera uma primeira e única temporada pelo Newcastle em que havia sido uma das poucas boas notícias de uma campanha que terminara em rebaixamento para o clube de Tyne-Wear. Já Lucas Moura, ainda que vivesse fase de pouco brilho e espaço no PSG, já havia feito o suficiente ao longo dos anos para ao menos ser conhecido mundialmente. Porém, com o chamado aos dois, Klopp e Pochettino inauguraram novos momentos na trajetória desses jogadores. Trouxeram ao grande público lados ainda não vistos de Gini e Lucas.

Wijnaldum chegou ao futebol inglês em 2015, depois de oito anos de carreira na Holanda, passando por PSV e Feyenoord. Pisou na Premier League já com alguma fama, tendo defendido a Oranje. No Newcastle, pouquíssimo atuou na posição que hoje exerce com mais frequência no Liverpool. Sua principal contribuição era ofensiva, seja jogando pelas pontas ou mais próximo ao gol. Isso lhe conferiu a possibilidade de anotar 11 tentos em sua temporada de estreia na Inglaterra, marca boa para um meio-campista – embora mesmo esse número tenha sido questionado no momento de sua contratação pelos Reds (Gini havia marcado apenas no St. James’ Park, e quatro dos 11 gols haviam acontecido em um só jogo).

Pelo Newcastle, Wijnaldum fez apenas duas partidas como volante e uma como meia central de um total de 36 jogos na Premier League pelos Toons. O restante havia sido pelas pontas ou como meia-atacante, logo atrás do centroavante. Na seleção holandesa, no entanto, já havia atuado em um meio de campo de três homens. Ao trazê-lo, Klopp destacou que ele podia jogar em “cinco ou seis posições diferentes. Esta é uma das coisas que eu gosto sobre ele”.

Wijnaldum, do Liverpool (Foto: Getty Images)

Jürgen Klopp foi além dos atributos óbvios de Wijnaldum e o transformou em um outro jogador, muito mais constante do que aquele que se destacou ofensivamente no time do nordeste da Inglaterra. A ênfase do holandês passou da chegada perigosa ao ataque para um trabalho mais de formiguinha em um sistema marcado pela pressão logo após perder a bola. Na atual temporada, Gini Wijnaldum parece ter dominado a nova função à qual teve dificuldades de se adaptar inicialmente. Virou um dos principais nomes da equipe mesmo em um papel que muitas vezes passa despercebido – e se permite momentos de brilho e protagonismo, como em sua atuação de dois gols contra o Barcelona que classificou os Reds à final da Champions League.

Lucas Moura é um caso ainda mais especial e também uma oportunidade de refletirmos nossas análises. Ao fim de sua passagem pelo PSG, todos pareciam ter descartado o jogador. Não no sentido de considerá-lo sem qualidade, mas, sim, de pensar que já havíamos visto tudo que havia para ver em seu futebol. Aos 26 anos, ele mostrou que, por enquanto, apenas parte de sua história foi contada.

Lucas surgiu prometendo muito no São Paulo. Foi destaque na seleção sub-20 de 2011, que tinha também Neymar, e era projetado para ter uma carreira tão brilhante quanto a do santista – ou pelo menos muito próxima disso. Quis o destino que fosse justamente a transferência de Neymar para o PSG o episódio responsável por inaugurar um novo capítulo na carreira do são-paulino.

Em seus anos em Paris, Lucas havia se transformado em um jogador importante, mas nunca no protagonista que esperávamos no início de sua carreira. Sua última temporada pelo PSG foi muito boa, com um recorde pessoal de 19 gols em 53 jogos. Mas não suficiente para manter seu espaço diante da chegada de duas estrelas mundiais contratadas para o projeto grandioso do clube controlado pelo Catar. Chegaram Neymar e Mbappé, e o primeiro semestre da temporada 2017/18 para Lucas Moura deixava claro que ele precisaria de novos ares, tendo acumulado apenas 80 minutos em campo com Unai Emery na segunda metade de 2017, todos eles jogados entrando como substituto em seis partidas.

Ao longo de toda sua carreira até aquele ponto, Lucas era visto principalmente como um jogador de velocidade, correria, de colocar a defesa adversária em apuros com sua arrancada, tentando recompor sua linha. Isso na melhor das hipóteses. Na pior delas, Lucas era criticado por “ter só isso” em seu futebol. Os seis primeiros meses na Inglaterra não foram os mais simples para o brasileiro, que, sem ritmo de jogo e chegando a uma nova equipe, com um novo jeito de jogar, teve dificuldades para achar seu espaço. Sua primeira partida como titular naquela temporada veio já muito perto do fim, no meio de abril, contra o Brighton, fora de casa. Seu único gol, contra o Rochdale, pela Copa da Inglaterra. Uma pré-temporada era tudo de que o jogador precisava para terminar sua adaptação e mostrar a Pochettino tudo que poderia oferecer ao time. E o treinador argentino soube muito bem enxergar essas qualidades.

Lucas Moura comemora com a bola do jogo depois dos seus três gols pelo Tottenham contra o Ajax em Amsterdã (Foto: Getty Images)

Lucas Moura foi, ao longo da atual temporada, peça importante para os Spurs em sua histórica campanha finalista de Champions League – que teve ainda o quarto lugar na Premier League. Um jogador de elenco que teve diversas chances de mostrar trabalho e correspondeu, anotando 15 gols. Mais do que isso, ampliou significativamente sua gama de facetas.

Pochettino nos apresentou, além do Lucas ponta, o Lucas mais centralizado, próximo do centroavante ou ele mesmo na posição avançada. Um Lucas também muito inteligente taticamente e que se adapta às mais diversas alternativas de jogo do técnico argentino. Um Lucas que, por fim, como ficou claro na partida contra o Ajax – mas também lá no começo da temporada, no 3 a 0 contra o Manchester United em Old Trafford –, pode ser goleador e decisivo na ausência de Harry Kane e durante alguma atuação mais apagada de Son.

O Georginio Wijnaldum que chegou ao Liverpool em 2016 e o Lucas Moura que se juntou ao Tottenham em janeiro de 2018 são jogadores do passado, transformados por treinadores que, ao longo de suas trajetórias em seus atuais clubes, se caracterizaram por, em sua maioria, melhorar significativamente seus comandados.

Treinadores capazes de enxergar qualidades que as narrativas empurradas por imprensa e profissionais do futebol ofuscavam até então. No fim das contas, Pochettino e Klopp não inventaram grande parte das características que o holandês e o brasileiro têm demonstrado em sua temporada de brilho. Eles apenas souberam o que pedir e onde no sistema encaixar os jogadores, essenciais para definir as equipes protagonistas da final em Madri neste sábado (1).