Depois de quatro anos longe da Champions League, o Liverpool classificou-se para o torneio de 2014/15. Ganhou a estreia, contra o Ludogorets, com um pênalti nos acréscimos, e perdeu do Basel e do Real Madrid. Brendan Rodgers decidiu levar uma equipe praticamente reserva para o Santiago Bernabéu, poupando seus principais jogadores para enfrentar o Chelsea, pela Premier League. Na prática, o que fez foi abrir mão da rodada fora de casa contra os espanhóis. Reconheceu que um resultado positivo era tão pouco provável naquele momento que o melhor a fazer era focar todas as forças na 11ª rodada do Campeonato Inglês. Perdeu do Real Madrid por 1 a 0, e do Chelsea, por 2 a 1. 

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Ainda que do ponto de vista pragmático a estratégia de Rodgers fizesse algum sentido, um clube com a história do Liverpool em competições europeias não podia simplesmente desistir de um jogo tão significativo quanto o Real Madrid no Bernabéu. Era um sinal claro de que o clube ainda não estava pronto para retornar à elite da Europa. Três anos e alguns quebrados depois, o Liverpool passou com mais emoção do que o necessário contra a Roma, nas semifinais, e alcançou a decisão do torneio pela oitava vez. Prepara-se para a grande decisão de Kiev. Contra o mesmo Real Madrid. 

A distância entre as duas únicas participações do Liverpool na Champions League desde a saída de Rafa Benítez ilustram a diferença entre os dois momentos. Rodgers teve grandes méritos durante a sua passagem, chegou mais perto do que qualquer outro de levar o primeiro título da Premier League a Anfield, mas não foi capaz de elevar os Reds de patamar. Jurgen Klopp sucedeu-o e, com todas as suas idiossincrasias e teimosias, comanda um projeto sólido de médio prazo. Uma evolução sustentável. E o primeiro grande produto desse processo é a vaga na decisão da Champions. 

Junto com Luis Suárez, Rodgers perdeu o rumo. Mal esboçou uma briga pelo quarto lugar na temporada seguinte e foi demitido em outubro, com três vitórias em oito rodadas, depois de um empate no clássico contra o Everton, em que o time deixou claro que não conseguiria brigar pelas primeiras posições. Não deixou de pesar na equação a disponibilidade de Jurgen Klopp, renomado pelo seu trabalho na Alemanha. O que ele precisava fazer em Anfield era parecido com o que havia feito no Borussia Dortmund: pegar um clube de tradição próximo do fundo do poço, embora os pontos de partida fossem distintos, e recuperá-lo. Tanto que o novo treinador foi anunciado apenas quatro dias depois da demissão de Rodgers. 

Klopp chegou pedindo paciência. Não conseguiria reverter tantos anos de decisões ruins, planejamentos capengas e resultados fracos da noite para o dia. Disse que acreditava ser possível conquistar um título em quatro anos, se não fosse demitido antes disso. E deixou uma mensagem à torcida: “Temos que mudar quem duvida para quem acredita”. A primeira coisa que ele introduziu ao time foi entretenimento, com duelos malucos como o 5 x 4 contra o Norwich, o 3 x 3 contra o Arsenal e o 4 x 3 contra o Dortmund, e uma nova capacidade de enfrentar os primeiros colocados da tabela de igual para igual, muitas vezes vencendo-os. Sem contratar ninguém em janeiro, ficou em oitavo lugar, a seis pontos do quarto lugar – Rodgers, em sua última temporada cheia, havia ficado em sexto, mas a oito pontos da Champions. Chegou à final da Liga Europa, na qual perdeu do Sevilla. 

Com uma avaliação mais profunda do que tinha em mãos, Klopp revolucionou o elenco no seu primeiro mercado de verão. Mandou um monte de gente embora: Benteke, Allen, Ibe, Skrtel, Sakho (também por problema disciplinares), Balotelli, Kolo Touré, Luis Alberto e Markovic. Não quebrou a banca em reforços, trazendo apenas Sadio Mané, Wijnaldum, Karius, Klavan e Matip, cujo contrato com o Schalke 04 havia terminado. Deu até lucro no balanço geral da temporada. Ainda havia lacunas a serem preenchidas, mas o alemão já tinha um time mais próximo do seu estilo. 

Sem competições europeias para disputar, o elenco curto não foi um problema. O Liverpool foi mais consistente. Teve o melhor retrospecto da Inglaterra contra os outros cinco times mais ricos e chegou a esboçar a briga pelo título. Ao fim de dezembro, estava a seis pontos do líder Chelsea. Mas um mês de janeiro terrível o fez se afastar da ponta e também abrigou eliminações na Copa da Liga e na Copa da Inglaterra. Mas o objetivo principal era a vaga na Champions League, essencial para o seguimento do projeto, para continuar a evolução e ajudar a atrair jogadores melhores. Conseguiu, em quarto lugar na Premier League. 

O elenco foi encorpado com Salah, Oxlade-Chamberlain e Andy Robertson, e o primeiro semestre foi interessante. Mas a grande virada veio na janela de inverno. Klopp finalmente abriu a carteira para contratar o zagueiro que a equipe tanto precisava. Virgil Van Dijk conseguiu limitar os erros de uma defesa que sempre se mostrou muito frágil. E veio a saída de Philippe Coutinho para o Barcelona, um golpe considerável do ponto de vista simbólico. No entanto, segundo diversos relatos, Klopp tentou manter Coutinho em Anfield, mas não quis comprar guerra com o jogador. O brasileiro era considerado um corpo estranho ao estilo de jogo de pressão incessante e transições rápidas que ele tanto admira. Embora fosse uma alternativa importante para certas partidas, quando o adversário se fechava demais na defesa, Coutinho não encaixava no planejamento como outros fariam. 

Com a saída do brasileiro, a equipe se acertou e deu um passo à frente. Não havia mais indefinição, se Coutinho seria meia ou atacante. O trio ofensivo fechou-se em Salah, Firmino e Mané. O meio-campo com Emre Can, Henderson e Milner ou Oxlade-Chamberlain e o apoio inestimável de Wijnaldum. A defesa melhorou com Van Dijk, e o Liverpool cresceu no mata-mata: atropelou o Porto, passou com mais facilidade do que se esperava pelo Manchester City e chegou a abrir 5 a 0 contra a Roma no jogo de ida das semifinais. 

O processo ainda não chegou ao fim. A defesa segue precisando de reforços e ajustes. Erros individuais e lapsos coletivos são menos frequentes, mas continuam existindo. Falta controle para esfriar momentos específicos da partida, principalmente quando o time está em vantagem, e evitar tantos duelos malucos que, por mais que sejam emocionantes e divertidos de assistir, impedem que exista a consistência necessária para uma campeonato de pontos corridos, como a Premier League. Por fim, o Liverpool precisa de uma alternativa para enfrentar defesas fechadas, o que foi um problema nesta temporada.

Mas a evolução nesses quase três anos de trabalho é notável. O ponto mais importante é o Liverpool estar próximo de disputar a Champions League pela segunda temporada consecutiva, o que é mais indicativo de um crescimento consistente do que uma ou outra campanha isolada em mata-matas. A final da Champions League é a cereja no bolo de um projeto que faz o Liverpool renascer. Relembra que, uma vez na principal competição europeia de clubes, é uma força a ser reconhecida, diferente da breve visita de 2014 sob o comando de Rodgers.

Os principais méritos vão para Klopp, o arquiteto desta equipe e, consequentemente, desta campanha. Idealizou um time e trabalhou para colocá-lo em campo. Fez contratações certeiras e desenvolveu jogadores dos quais pouco se esperava, como Robertson e Oxlade-Chamberlain. Nem precisamos mencionar aspectos motivacionais e de espírito de grupo. Seu estilo tem falhas, nem sempre funciona, e a resistência a acelerar o processo com mais contratações às vezes irrita a torcida. Mas tem seu valor. E funciona. Tanto que ele chega à decisão da Champions pela segunda vez na sua carreira. Na última década, apenas Zidane o supera nessa estatística. E ele também é apenas o quarto homem a levar o Liverpool a uma partida da grande glória europeia.