Tudo começou bem. Em 2011, quando Jürgen Klinsmann assumiu o comando técnico da seleção americana após dois anos inativo, tudo parecia caminhar para o lado certo. E até que foi. Classificação para a Copa do Mundo de 2014. Duas finais de Copa Ouro. Um título desta competição. Tudo até que razoável. Mas não era o suficiente. E o insuficiente foi o suficiente para que o alemão permanecesse no cargo até que uma das principais forças da América do Norte chegasse a um ponto insustentável. Depois de duas derrotas nos dois primeiros jogos do hexagonal final das Eliminatórias da Concacaf, algo inédito na história da seleção, Klinsmann foi destituído da função de treinador dos Estados Unidos na última segunda-feira. E a sensação que deixa é que nunca conseguiu entregar aquilo que se esperava dele.

VEJA MAIS: EUA são amassados pela Costa Rica e sofrem maior derrota nas Eliminatórias desde 1957

Precisou chegar no estágio de uma das duas principais seleções da Concacaf correr o risco de não conseguir a qualificação para a próxima Copa do Mundo para que a federação tomasse uma atitude. Um risco, aliás, de 46%, de acordo com dados do Soccer Power Index. Número alarmante quando lembramos de todos os recursos que os Estados Unidos têm para fortalecer o esporte em seu território, e que na parte do mundo em que eles se localizam, ainda são um dos melhores times.

Mais do que estar engasgado com Klinsmann, o americano já não suportava mais a falta de pulso de Sunil Gulati, presidente da U.S. Soccer, em relação ao que prometia o treinador. O alemão falava sobre tempo e fase de transição depois de cinco anos no cargo para se provar. E Gulati acatava o discurso. A incerteza de mudar algo que já era para ter sido alterado há meses ou há mais um de um ano fazia com que o prazo de validade do cumprimento das promessas feitas pelo treinador fosse passando ainda mais. Além da confiança em excesso do presidente da federação em Klinsmann, quem sempre recebeu muitos elogios da U.S. Soccer por ser, de acordo com a entidade, “um técnico que trouxe novas ideias para os Estados Unidos”.

Depois de ter feito a seleção americana ter terminado em quarto lugar na Copa Ouro de 2015, o que foi o pior resultado do time desde 2000 e, consequentemente, fez com que os americanos passassem longe de se classificar para a Copa das Confederações de 2017, Klinsmann ainda foi mantido em seu ofício. A crença que o treinador poderia fazer outro bom trabalho em Eliminatórias falou mais alto. Uma crença que poucos, entre torcedores e críticos, ainda tinham. E isso mesmo após o nó tático e a goleada tomados na semifinal da Copa América Centenário, contra a Argentina, quando ficou escancarada a necessidade de mudanças imediatas.

Contra o México, em Columbus, Gulati decidiu dar seu último voto de confiança ao alemão. Mas Klinsmann não fez por onde para que ele valesse. Mandou a seleção americana à campo com uma formação totalmente diferente do que vinha jogabdi, com jogadores como o jovem Christian Pulisic em posições que não estão habituados a jogar (não na seleção, ao menos). Como se o problema estivesse no posicionamento dos jogadores, e não na maneira como ele as orientava.

No final das contas, os americanos tomaram a virada dos mexicanos aos 44 minutos do segundo tempo. E quem levou a culpa foram os veteranos Michael Bradley e Jermaine Jones, que pediram para ser substituídos durante o intervalo e foram apontados pelo técnico, junto com John Brooks, como o mote da quebra de uma invencibilidade de 30 anos diante do México, em casa, pelas Eliminatórias. Pior do que isso, Klinsmann ainda individualizou a má atuação em jogadores como Jermaine Jones e Michael Bradley – que foram mal, de fato, mas são experientes e certamente não pegou bem com o grupo.

Quatro dias depois, antes mesmo dos Estados Unidos entrarem em campo contra a Costa Rica, tudo já havia ido embora. Confiança, crença, paciência. Restava a Klinsmann, no entanto, um jogo para tentar se manter no cargo, ainda que não firmemente. E não era uma partida qualquer. Era diante da terceira força da América do Norte. A força emergente, e que no caso daquele duelo em específico, foi a única força. Quatro a zero. Dessa vez não era a Argentina, era a Costa Rica. O time que desde 2014 tem tentado conquistar seu espaço no continente, mas que ainda não superou Estados Unidos e México nos atributos e na história. A situação, que já era insustentável, virou impossível de ser tolerada.

Klinsmann foi contratado em 2011 para fazer mais do que ganhar jogos. Vencer, principalmente em torneios continentais, era o mínimo que se esperava dele. Mas muito além disso, se esperava que ele ajudasse a seleção americana a evoluir, tática e tecnicamente. E ele conseguiu dar aos americanos resultados negativos, com saldos bem desfavoráveis.

Quando a U.S. Soccer o fez treinador da seleção, lhe foi pedido mais do que classificações. Foi pedido para definir o futebol dos Estados Unidos em uma nova direção de mudança e melhorar a forma como os jogadores nativos são desenvolvidos, além de mudar a maneira como eles pensam e vêem o jogo e como abordam suas carreiras. O que ele fez foi entrar em conflito com a MLS, com alguns jogadores e prometer melhoras a longo prazo que, passados os anos, não chegavam.

Nada disso foi feito, e o colapso dentro de campo serviu para mostrar que caso Klinsmann fosse mantido como treinador, nada continuaria sendo feito. Passados os dois vexames diante do México e da Costa Rica, a federação dos Estados Unidos teria um tempo para pensar sobre suas prioridades e quem está apto para cumprir seus requisitos, já que o próximo jogo das Eliminatórias da Concacaf é só em março do próximo ano.

A U.S. Soccer, porém, preferiu já apostar em dar à seleção americana sangue americano ao anunciar, nesta terça-feira, a volta de Bruce Arena ao comando do time nacional após dez anos (comandou a seleção americana de 1998 a 2006). Talvez com o receio de promessas vindas do outro lado do oceano para desenvolver o futebol do país.