Depois de apenas dez semanas como técnico do Hertha Berlim, Jürgen Klinsmann pediu demissão do cargo. A decisão é tratada publicamente como surpresa até mesmo para a diretoria do clube, que afirma não ter sequer observado sinais de que algo nesta linha pudesse acontecer. A saída do técnico coloca um grande ponto de interrogação sobre o projeto que o Hertha vinha delineando.

Klinsmann anunciou sua saída em publicação no Facebook. Tendo assumido o comando técnico do Hertha no fim de novembro, o ex-jogador alemão tinha acordo para ser o interino até o fim da temporada. Segundo o Bild, o principal motivo por trás da demissão seria a falta de garantias de que continuaria o trabalho para além da atual campanha.

Lendo a declaração de Klinsmann, não é nem preciso depender muito da afirmação do veículo alemão. O técnico deixou tão claro quanto poderia que é este o caso. Assim ele explica: “Como treinador principal, eu preciso também da confiança das pessoas envolvidas nesta tarefa, que ainda não está completa. A união, a coesão e a concentração sobre o que é essencial são os elementos mais importantes, especialmente na batalha para se manter na elite. Se não são garantidas, não posso explorar meu potencial como treinador e, portanto, não posso estar à altura da minha responsabilidade”.

“Consequentemente, depois de longas deliberações, cheguei a esta conclusão: deixo meu cargo de treinador do Hertha e desejo retornar a meu papel original de longo prazo como membro do conselho gestor”, completou.

Fica também uma pergunta sobre a influência da última semana agitada na decisão de Klinsmann. Na terça-feira, 4 de fevereiro, o time caiu na Copa da Alemanha depois de abrir 2 a 0 sobre o Schalke, em jogo que ainda teve episódio de racismo contra Jordan Torunarigha, do time berlinense. Na sequência, no sábado, 8, o Hertha perdeu por 3 a 1 para o Mainz, em casa, pela Bundesliga, e o técnico atribuiu o péssimo resultado ao desgaste gerado pelo jogo com prorrogação no meio da semana e também ao abalo psicológico com o incidente do qual Torunarigha foi vítima.

Independentemente dos bastidores, publicamente a versão de Klinsmann foi a citada acima. O Hertha Berlim, por sua vez, divulgou seu próprio comunicado, dizendo-se surpreso pela decisão, “sobretudo depois da colaboração confiante e intensa durante a janela de transferências de inverno”. “Não havia sinais de alerta”, escreveu o clube.

De fato, o apoio por meio de contratações havia sido significativo. O Hertha Berlim foi um dos clubes com maior movimentação na última janela, contratando quatro jogadores por um valor total de quase € 80 milhões: Lucas Tousart (que chega ao fim da temporada), Matheus Cunha, Santiago Ascacíbar e Krzysztof Piatek.

As transferências foram o primeiro passo de um projeto iniciado em junho de 2019. Lars Windhorst, empresário alemão, gastou € 125 milhões para comprar 37,5% das ações do Hertha. Em novembro, acrescentou mais € 99 milhões para chegar a 49,9% das ações, o máximo permitido pelas regras da Bundesliga. Com essa fatia, teve direito a duas cadeiras no conselho do clube e deu uma a Klinsmann.

O ex-jogador da seleção alemã havia sido o nome escolhido por Windhorst para dar uma face ao projeto do clube, para além de seu envolvimento administrativo. Um rosto importante, de uma lenda do futebol nacional e que deve ter tido seu papel para atrair os contratados do mês passado.

A decisão de Klinsmann torna este princípio de projeto uma incógnita. Por ora, quem assume o comando técnico é o assistente Alexander Nouri, que havia chegado com o técnico interino em novembro. Como escreveu Klinsmann, seu desejo é ficar apenas como membro do conselho, mas é preciso ver como ficará a relação do alemão com a diretoria.

“Estávamos em um ótimo caminho em um período de tempo relativamente curto e, graças ao apoio de diversas pessoas, temos agora seis pontos de vantagem sobre o primeiro rebaixado, apesar de jogos em sua maioria difíceis. Estou firmemente convencido de que o Hertha atingirá o objetivo de permanecer na elite”, comentou Klinsmann em seu comunicado.

Caberá agora a Nouri – ou a um possível novo contratado – garantir a realização do objetivo.