Gábor Király faz parte do folclore do futebol europeu. O goleiro sempre teve os seus predicados, é claro. Não fosse assim, não teria alcançado 108 jogos com a seleção húngara, nem passado por clubes tradicionais da Europa. Porém, a figura do tiozão de calça de moletom diz muito mais sobre a simpatia provocada pelo veterano, além de seus milagres. A Euro 2016 foi seu ápice internacional, assim como o grand finale de sua carreira em alto nível. Pela primeira vez defendeu a Hungria em um torneio de seleções e teve lá o seu destaque na caminhada até as oitavas de final. Após a despedida dos magiares, o quarentão seguiu em atividade. E aposentou-se nesta semana, aos 43 anos, defendendo o time de sua cidade. Emblematicamente, confirmou o adeus em um vídeo no qual pendura o seu moletom.

Király nasceu em Szombathely, na fronteira com a Áustria. Embora seja a décima maior cidade da Hungria, a população local não passa dos 140 mil habitantes. E foi por lá que o goleiro começou sua carreira profissional, no Haladás. O clube, acostumado a transitar entre as duas primeiras divisões do Campeonato Húngaro, viveu uma temporada histórica em 1992/93. Conquistou o acesso na segundona e disputou a final da Copa da Hungria, derrotado nos pênaltis pelo Ferencváros. Aquele também foi o primeiro ano do goleiro na equipe profissional.

Não demorou para que Király se tornasse titular do Haladás na elite do Campeonato Húngaro. E o prodígio logo começou a fazer sucesso também nas seleções de base, o que abriu portas em outros cantos do continente. Em 1997, aos 21 anos, assinou com o Hertha Berlim e se mudou à Alemanha. Teria uma consistente passagem pelo clube, permanecendo sete anos no Estádio Olímpico. Conquistou duas vezes a Copa da Alemanha e encabeçou ótimas campanhas na Bundesliga, com direito a aparição até na Champions League. Já em 1998, ganhou as primeiras chances na meta da seleção principal. Seriam 18 anos com os magiares, nem sempre como titular absoluto, mas sim como uma referência.

Após transferir-se ao Crystal Palace em 2004, onde fez uma ótima temporada de estreia na Premier League, Király começou a rodar mais. Rebaixado com as Águias, defendeu também West Ham, Aston Villa, Burnley e Bayer Leverkusen. A estabilidade viria no Munique 1860, virando um ídolo do tradicional clube na segunda divisão alemã. O acesso não se concretizou, mas o veterano era uma segurança na meta e também um exemplo à fornada de talentos que surgia nos bávaros. A boa forma na Allianz Arena levou o húngaro de volta à titularidade na seleção. E o capítulo final começou a ser escrito em 2015. Após uma rápida passagem como reserva do Fulham, o veterano retornou ao Haladás. Ao mesmo tempo, viveria o momento mais reluzente de sua carreira.

Király foi brilhante na campanha das eliminatórias para a Euro 2016. Durante a competição, tornou-se o jogador com mais partidas na equipe nacional e fechou o gol contra a Noruega na repescagem. Pôde receber o reconhecimento na fase final do torneio, com outras boas aparições. Fez algumas gracinhas, como um bom tiozão do churrasco, ainda que suas defesas tenham permitido aos magiares avançarem às oitavas de final. E, apesar da goleada da Bélgica por 4 a 0 no mata-mata, o velho ídolo realizou seus milagres, mesmo jogando por 55 minutos com um dedo fraturado. A intervenção que provocou a lesão, aliás, em uma falta potente cobrada por Kevin de Bruyne, valeu o prêmio de Defesa do Ano oferecido pela Uefa.

Invariavelmente, o moletom seguiu na moda durante o auge de sua trajetória. “Eu sou um goleiro, não um modelo. É essencialmente uma questão de conforto. Eu jogo sobre a terra ou a grama, que costumam estar congeladas no inverno. Isso machuca as pernas quando você cai, então usar calças me parece óbvio. Eu sempre escolho tamanhos para facilitar o movimento. Tentei usar bermudas durante minhas passagens pela Alemanha e pela Inglaterra, mas não me agradou. O resultado final é mais importante que sua aparência”, afirmou em 2015, ao húngaro Lo Journal Francophone.

Király preferiu se despedir da seleção após a Eurocopa, saindo de cena em alta, mas continuou na ativa. Seguiu com os seus conterrâneos, apesar das perspectivas mais contidas do Haladás. Neste intervalo, ajudou o clube a alcançar a quinta colocação no Campeonato Húngaro, a segunda melhor de sua história. O nível não se manteve e, ao final da atual temporada, os alviverdes terminaram rebaixados à segunda divisão. Puderam ao menos aplaudir o ídolo, de 43 anos, agora aposentado. A imagem do arqueiro pendurando a calça de moletom no vestiário é uma metáfora fantástica.

“Obrigado, futebol, por me ensinar a ser um homem melhor. Eu me senti honrado a cada dia, sempre tentando dar meu máximo e sendo humilde para me adaptar a cada desafio. Obrigado à minha família e meus amigos, por seguirem ao meu lado e me apoiarem. Sem eles, esta jornada maravilhosa que durou 26 anos não seria possível”, declarou Király, em carta publicada no seu site oficial. Ao todo, foram 882 partidas como profissional.

“Obrigado aos meus antigos clubes, por me deixarem fazer parte de sua história e por me permitirem jogar em seus maravilhosos estádios; aos meus ex-companheiros, que me ajudaram a florescer profissional e pessoalmente; aos meus antigos técnicos, que me ajudaram a desenvolver minhas habilidades e me deram chances de jogar; aos torcedores, que me deram um tremendo apoio emocional; e aos meus antigos adversários, por tornarem meu trabalho duro, porque através disso eu pude aprender muito”, complementou, apontando que deve assumir um cargo nos bastidores durante os próximos meses.

Király fez por merecer a enorme carreira que construiu. Ela já valeu para que continue lembrado por décadas – seja pela continuidade na seleção, seja pelos brilhos nos clubes, seja pelo estilo inconfundível e pela calça de moletom. Prevalecerá como um símbolo do futebol húngaro, em tempos mais modestos. Será parte da memória afetiva que muita gente tem pelo esporte.