Kiko, herói de Barcelona: na Olimpíada de 1992, o atacante viveu o auge pela seleção espanhola

Na Olimpíada de 1992, em Barcelona, Kiko viveu o seu auge pela seleção espanhola e foi decisivo para o ouro da Roja

Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast Olimpicast. 

Os Jogos de 1992 simbolizaram o renascimento de Barcelona como uma cidade turística, com ampliação da capacidade hoteleira e revitalização de bairros degradados, num raro processo real de positivo legado olímpico para a cidade e sua população – expressão muito usada e poucas vezes repetida com sucesso nas edições posteriores. Mas, para o centroavante Kiko Narvaez, a Olimpíada realizada na capital catalã ficou marcada como seu auge com a camisa da seleção, uma experiência de unanimidade nacional que ele jamais repetiria na sequência de sua carreira.

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Francisco Miguel Narváez Machón tinha 20 anos quando figurou na lista do técnico Vicente Viera para defender a Roja na Olimpíada que enterrou de vez a farsa do amadorismo – foi quando o basquete permitiu a presença dos atletas da NBA e teve a honra de receber o Dream Team liderado por Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird. No futebol, aquela edição marcava uma nova mudança de regulamento: o torneio olímpico se tornava a partir dali uma competição sub-23, permitindo naquela ocasião apenas atletas nascidos a partir de 1º de janeiro de 1969.

Revelado pelo Cadiz, Kiko não era um mero novato: em sua temporada de estreia pelo clube, aos 19 anos, já tinha sido fundamental para ajudar o time a escapar do rebaixamento. Alto e corajoso, embora aparentemente franzino para o contato direto, não tinha medo de trombar com os adversários, agradava à torcida e despertava o interesse dos grandes clubes. O atacante também já tinha rodagem nas seleções de base da Espanha, e, para os Jogos de Barcelona, juntou-se a um time que se tornaria bem estrelado, com nomes como Santiago Cañizares, Albert Ferrer, Abelardo Fernández, Pep Guardiola e Luis Enrique.

A estreia já foi boa: 4 a 0 na Colômbia, uma das responsáveis pela eliminação do Brasil no Pré-Olímpico disputado no começo do ano no Paraguai. Kiko fez o segundo – Guardiola, Berges e Luis Enrique marcaram os outros. O grandalhão com a camisa 19 passou em banco no jogo seguinte, 2 a 0 sobre o Egito, e fechou o 2 a 0 sobre o Catar.

Nas quartas de final, o adversário foi a Itália, que tinha Demetrio Albertini e Dino Baggio, e fez um jogo tenso diante de 28 mil pessoas no Estadio Mestalla, em Valencia, uma das subsedes do futebol naquela Olimpíada. A retranca italiana só foi vencida num passe de Luis Henrique nas costas da defesa que encontrou Kiko livre para tocar na saída do goleiro. Na semifinal, vitória tranquila por 2 a 0 sobre Gana, que vinha como uma das grandes zebras – havia passado em primeiro num grupo com Austrália, México e Dinamarca, e superado o Paraguai por 4 a 2 numa eletrizante prorrogação.

Chegava a final, no sábado, 8 de agosto, contra a Polônia, num Camp Nou com 95 mil espectadores– entre eles, uma família real ainda querida pelo povo. Os poloneses vinham embalados por um 6 a 1 sobre a Austrália na semifinal, truncaram o jogo e abriram o placar quase nos acréscimos do primeiro tempo, após uma bobeada da defesa que resultou em Kowalczyk livre para fuzilar o goleiro.

O empate saiu apenas aos 20 minutos da etapa final, numa cabeçada certeira de Abelardo. Após lindo passe de Luis Enrique, Kiko colocou a Roja na frente, aos 7 minutos, incendiando o estádio – mas, aos 32, em outra falha da defesa local, Staniek empatou. O cansaço das duas equipes parecia deixar inevitável a prorrogação e uma disputa de pênaltis. Numa última tentativa, Luis Henrique cruzou para Kiko, que, na entrada da área, tentou a devolução de cabeça, mas a defesa cortou para escanteio.

Ferrer bateu aberto, Kiko tentou alcançar e não conseguiu e a bola sobrou para Guardiola na entrada da área. O futuro maior treinador do mundo, ainda um rapaz de 21 anos e muito cabelo, bateu de esquerda, mas a bola bateu num polonês e sobrou limpa para Kiko, que teve tempo de ajeitar para o pé direito e fuzilar, já quase 30 segundos depois de estourar o tempo regulamentar. Numa Olimpíada ainda sem a regra do gol de ouro, aquele foi o gol do ouro, um dos 13 que deixou a Espanha em sexto no quadro de medalhas.

No ano seguinte, após mais uma boa temporada no Cadiz, Kiko enfim transferiu-se para o Atletico, onde virou ídolo e foi figura fundamental para o doblete de 1996, quando o time quebrou um jejum de 19 anos sem o título de La Liga e ainda faturou a Copa do Rei em cima do Barcelona. O amor da torcida resistiu até mesmo ao rebaixamento, em 2000 – jogou a Segunda Divisão e, missão cumprida com o acesso, despediu-se. Jogar um ano no Extremadura e se aposentou cedo, aos 32 anos. Hoje, comenta jogos numa rádio espanhola e recebe até hoje o carinho e a admiração dos fãs.

É verdade que, na seleção principal, Kiko nunca se firmou. Ficou de fora da Copa de 1994 e jogou a Euro de 1996 e a Copa de 1998 apenas como opção no banco. Despediu-se da Roja com 26 jogos e quatro gols, o último deles na inútil goleada por 6 a 1 sobre a Bulgária que selou a eliminação da Roja ainda na primeira fase no Mundial da França. Mas a Espanha jamais se esquecerá do gol de ouro no Camp Nou.

Veja os melhores momentos da final do futebol em Barcelona 1992 entre Espanha x Polônia:

Se você tiver a curiosidade de ver o jogo inteiro, o canal da Olimpíada também colocou o jogo na íntegra:

Ouça o podcast do Olimpcast. Muito mais histórias dos Jogos Olímpicos ao longo da história: