Por Renato Müller

 

Existem jogadores que se tornam símbolos de um clube. Kenny Dalglish é uma lenda viva e um semideus para a metade vermelha de Liverpool. Considerado o melhor jogador da Escócia em todos os tempos e, para os torcedores dos Reds, o melhor jogador britânico da história, Dalglish foi multicampeão como jogador e treinador, liderando o Liverpool no período mais vitorioso da história do clube. Por isso, sua volta como treinador no final do ano passado foi vista pelos mais fanáticos como a redenção dos Reds e o retorno às glórias.

Melhor jogador do Campeonato Inglês na temporada 1982/83, jogador com maior número de partidas pela seleção da Escócia (102) e maior artilheiro (30, ao lado de Denis Law), disputou duas Copas do Mundo (1978 e 1982) e foi peça importante de alguns dos momentos de mais brilho dos times britânicos na Europa.

Dalglish nasceu em 4 de março de 1961 em Glasgow, Escócia. Logo seu talento chamou a atenção de clubes profissionais. Depois de testes no West Ham e no Liverpool, assinou contrato aos 16 anos com o Celtic. Sean Fallon, lendário ex-jogador do clube e na época assistente técnico, foi visitar Kenny e sua família em casa. Ao saber que Sean batia à porta, Dalglish correu para o quarto e rasgou os pôsteres do Rangers que decoravam o ambiente.

Os anos verdes

Dalglish chegou ao lado verde e branco de Glasgow em 1967 e foi emprestado ao Cumbernauld United, marcando 37 gols na temporada 1967/68. No ano seguinte, tornou-se profissional e foi presença constante no time reserva dos Bhoys. Estreou com a camisa do Celtic em um empate com o Hamilton Academical, nas quartas de final da Copa da Liga da Escócia, mas somente três anos depois firmou-se como titular. E em grande estilo: em um amistoso contra o Kilmarnock, marcou seis dos sete gols do time na vitória por 7 a 2.

Em 1971/72, fez 23 gols em 49 partidas e, na temporada seguinte, marcou 41 vezes. Dalglish tornou-se capitão do Celtic em 1975/1976 e, em 1977, depois de 269 jogos e 167 gols, assinou contrato com o Liverpool pelo então recorde de 440 mil libras com a responsabilidade de substituir o ídolo Kevin Keegan, que havia se transferido para o Hamburgo, da Alemanha.

Entre os melhores da Europa

As dúvidas sobre a contratação foram por água abaixo na goleada sobre o Hamburgo de Keegan no jogo de volta da Super Copa da UEFA de 1977: 6 a 0, com um gol de Dalglish. Em sua primeira temporada pelos Reds, o escocês jogou 62 partidas, marcando 31 gols, incluindo o do título da Copa dos Campeões da Europa, contra o Bruges, da Bélgica.

O melhor ainda estava por vir: Dalglish foi tricampeão inglês em 1981/1982, 1982/1983 e 1983/1984. O domínio na Inglaterra se refletiu na Europa, com a conquista da Copa dos Campeões em 1980/1981 e 1983/1984. Premiado como o melhor jogador do campeonato inglês na temporada 1982/1983, esteve entre os melhores da Europa na época, comparado a Zico, Platini, Maradona e Rummenigge.

Em 1985, Dalglish tornou-se técnico do time, com a aposentadoria de Joe Fagan após a tragédia de Heysel. Acumulando as funções de técnico e jogador, Dalglish conquistou a primeira dobradinha do Liverpool na história, com o título da FA Cup sobre o arqui-rival Everton e o 16º troféu do Campeonato Inglês: no jogo decisivo, vitória de 1 a 0 sobre o Chelsea, gol de Dalglish.

Glória como técnico

Aos poucos, a carreira do jogador-treinador foi migrando para o banco de reservas. Dalglish entrou em campo apenas duas vezes no campeonato inglês de 1987/1988, mas saiu campeão novamente. Em 1988/1989, não jogou nenhuma partida. Em 05 de maio de 1990, aos 39 anos, fez sua última aparição como jogador, em um jogo contra o Derby County.

Neste ano, o Liverpool conquistou seu terceiro campeonato inglês em cinco anos de Dalglish como treinador, recebendo também o terceiro troféu de Técnico do Ano. Em 1991, deixou o cargo com a equipe ainda disputando os títulos do campeonato inglês e da FA Cup. Sua aposentadoria, porém, durou pouco tempo.

No final daquele ano, surpreendentemente Dalglish assinou com o Blackburn Rovers, da segunda divisão inglesa, e levou o time à Premier League pela primeira vez em 25 anos. Financiado pelo magnata do aço Jack Walker, o Blackburn pôde competir de igual para igual com as maiores forças do país e montou um time respeitável, que alcançou o quarto lugar logo em sua primeira temporada entre os grandes. No ano seguinte, o vice-campeonato. Em 1994/1995, com uma equipe que tinha Alan Shearer, Tim Flowers, David Batty e Chris Sutton, o Blackburn foi campeão inglês. Esse foi o nono campeonato nacional de Dalglish, apenas o terceiro treinador a vencer em dois clubes diferentes.

Na temporada seguinte, Dalglish tornou-se diretor de futebol do clube e o desempenho do Blackburn nas quatro linhas deixou a desejar: sétimo na Premier League, eliminado na primeira fase da Champions League. Em maio de 1996, Dalglish deixou o time. Seu novo destino foi o Newcastle, que montava uma equipe para ser campeã. Depois de um segundo lugar no campeonato inglês, o ano seguinte viu o time ficar apenas em 13º lugar. Apesar do vice-campeonato da FA Cup, Dalglish foi dispensado no início da temporada 1998/1999.

Em junho de 1999, voltou ao Celtic como diretor de futebol, assumindo também o banco de reservas do time no ano seguinte com a saída de John Barnes (que tinha sido uma aposta sua). Foi campeão da Liga da Escócia com uma vitória de 2 a 0 sobre o Aberdeen, mas deixou o clube ao final da temporada. Nos dez anos seguintes, Dalglish deixaria o futebol de lado, cuidando da fundação The Marina Dalglish Appeal, que levanta recursos para o combate ao câncer.

De volta aos Reds

Em abril de 2009, o então técnico do Liverpool, Rafa Benitez, ofereceu a Dalglish um cargo de direção das categorias de base dos Reds. Em 2010, com a saída de Benitez, cresceram as pressões para que Dalglish assumisse o cargo. Em vez disso, Roy Hodgson foi trazido do Fulham. Uma decisão ruim: com um começo de temporada fraco, Hodgson foi demitido e Dalglish voltou a ser técnico do time, como interino até o fim do campeonato.

Com a recuperação da equipe na Premier League ao longo da temporada, Dalglish assinou em maio de 2011 um contrato de mais três anos. Apesar de uma história brilhante como jogador e treinador, Dalglish parece disposto a escrever novos capítulos e gravar seu nome mais uma vez na galeria de ídolos do Liverpool.


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