O começo instável do Real Madrid na temporada indicava que eram necessárias mudanças para se alcançar novamente o patamar estabelecido por Zinédine Zidane em sua primeira passagem como técnico merengue. O bom mercado de transferências já apontava que isso passaria por uma renovação da equipe. Neste processo ainda em andamento, jogadores com idade avançada perderão seu lugar, mas Benzema tem feito de tudo para não ser um deles.

Chegando aos seus 32 anos, que completará em 19 de dezembro, o atacante vive justamente agora o seu auge técnico, mesmo depois de dez anos de serviços prestados ao Real Madrid e diversos títulos no currículo.

A partida desta terça-feira (26), contra o PSG, pela Champions League, foi o grande palco para se solidificar esta impressão. Benzema fez de tudo. Não apenas os dois gols do Real no jogo, mas também a marcação sem a bola, a movimentação entre as linhas, a flutuação por todas as partes do terço final de campo. O empate amargo concedido em questão de minutos já na reta final do jogo não pode apagar a atuação gigantesca de Benzema – na imprensa francesa, não apagou mesmo.

Destaque em matérias de L’Équipe e RMC Sport, o atacante viu também nas palavras de ex-jogadores e exaltação de seu desempenho na terça. Dominique Bathenay, que defendeu por sete anos o PSG e a seleção francesa, entre as décadas de 1970 e 1980, falou em “partida completa” do camisa 9 contra os parisienses. “Não estou surpreso de vê-lo neste nível. Ele é completamente calmo e eficaz no campo. É preciso realmente louvar sua grande partida”, avaliou.

Vikash Dhorasoo, ex-Lyon, PSG e Milan, além da seleção francesa, foi além e provocou Noël Le Graet, presidente da Federação Francesa e que, há dez dias, fechou de vez as portas a um possível retorno de Benzema aos Bleus.

“Eu gostaria de saber qual a opinião do Noël le Graët (sobre a partida contra o PSG), isso seria o mais interessante. Quando você vê o jogo do Benzema contra o PSG, foi pura classe. Dois gols, domínios de bola incríveis, ele defendeu, é útil aos companheiros em todas as zonas do campo e em todos os momentos do jogo”, elogiou Dhorasoo.

Perguntado sobre seu jogador, Zidane respondeu jubilante na TV francesa: “Para mim, é o melhor atacante do mundo”. Uma afirmação ousada de se fazer momentos após Lewandowski marcar quatro gols em um intervalo de menos de 15 minutos. Mas é justamente na comparação com o matador do Bayern de Munique que podemos entender toda a empolgação com Benzema neste momento.

Um “camisa 9 com alma de camisa 10”, como ele mesmo definiu no começo do ano, Benzema transformou seu jogo ao longo dos anos. Contratado como um centroavante goleador, o francês desenvolveu outras facetas de seu jogo ao jogar em função de Cristiano Ronaldo. Enquanto o português se transformou em uma máquina de fazer gols, o francês aprendeu a se doar à equipe.

O que se vê hoje, e que ficou tão acentuado na partida contra o PSG, é que, mais que um goleador, Benzema é um jogador que faz seus companheiros jogarem. Virou um grande facilitador de jogadas, que usa sua movimentação e disponibilidade para passes para fazer girar a engrenagem madridista.

Por diversas vezes nesta terça, atravessou linhas para oferecer linhas de passe a Marcelo e Toni Kroos, entre outros companheiros, quando estes se viam pressionados pela marcação. Gerou muitos problemas a Meunier ao cair pela esquerda para atrair a marcação e alimentar a troca de posições entre Hazard, Kroos e Marcelo por aquele flanco. Soube os momentos certos em que deveria se lançar em velocidade pela esquerda para receber uma bola longa, nas costas do lateral. Em tudo isso, demonstrou sua leitura de jogo acurada.

Se à sombra de Cristiano Ronaldo jogou muito em função do camisa sete, desenvolveu neste período esses atributos de movimentação, posicionamento e passe que lhe permitem hoje ter a influência que tem no jogo ofensivo do Real Madrid. Qualidades que hoje associa a seus gols, sendo mais procurado pelos companheiros para o toque final.

Na atual temporada, Benzema é o grande destaque não só de desempenho, mas também de números do Real Madrid. Participou diretamente de 20 gols em 17 partidas (anotando 14 e dando seis assistências). Recentemente, tornou-se o único jogador além de Messi a marcar em 15 temporadas seguidas da Liga dos Campeões. Aliás, no ranking de artilheiros históricos da competição, soma 63 tentos e fica atrás apenas de Cristiano Ronaldo (127), Messi (113) e Raúl (71).

Vivendo a forma de sua vida, não é surpresa que o debate sobre sua ausência da seleção francesa tenha se reacendido nesta temporada, mesmo com a França tendo conquistado a Copa do Mundo do ano passado.

É difícil que Benzema retorne para a seleção francesa, e mesmo isso está bem para ambos. Tanto os Bleus, com seu título mundial, e o camisa 9, com suas seguidas Champions e a década de prestação de serviço de altíssima qualidade, escreveram suas próprias belas histórias.

No caso de Karim, seja por sua personalidade fora de campo, suas polêmicas paralelas ou pela distorção de expectativas geradas pela era de duopólio de Messi e Ronaldo, essa história recebe muitas vezes um tratamento menos carinhoso do que mereceria. Benzema já é um dos grandes de sua geração – e mesmo a essa altura vai demonstrando que pode ter ainda mais a oferecer. Ao futebol, mas também ao novo Real Madrid que lentamente se desenha.