N’Golo Kanté não é um cara de muitas entrevistas, e é por isso que é tão interessante ver uma tão longa quanto a publicada pelo L’Équipe nesta terça-feira (12). Nela, o jogador da seleção francesa falou das lesões que sofreu neste início de temporada, sobre a impotência de ter que acompanhar seu time de fora do gramado, mas o mais legal mesmo foi saber como o tímido meio-campista do Chelsea lida com a fama e o status de queridinho do público francês (o que ele educada e modestamente nega ser).

“Ah não, eu não sou o queridinho dos franceses! É verdade que a Copa do Mundo foi um momento maravilhoso. Penso que todos puderam medir a qualidade do nosso grupo. Vimos também a simpatia expressa pelos meus colegas de equipe, especialmente com esta música”, contou o volante, citando a canção criada por seus companheiros durante o Mundial na Rússia.

“Foi uma grande aventura, a de um grupo. Colocou-me um pouco mais em evidência, em relação a quem sou, ao meu futebol. Mas, no fundo, não me sinto como um queridinho dos franceses. Sigo em frente com a minha vida e dou tudo pelos Bleus para alçar as cores da França lá no alto”, completou Kanté ao falar sobre ser percebido como o favorito dos torcedores.

O jogador entrou em evidência pela primeira vez com a bela campanha do título do Leicester na Premier League 2015/16. Mas reconhece que a Copa do Mundo levou isso a um outro patamar. Ele entende que precisa lidar com os lados bons e ruins da fama e mostra equilíbrio ao falar da relação com os fãs.

“É algo que temos que aceitar. Sabemos que alegramos algumas pessoas. Às vezes, pode ser um pouco incômodo. Mas, na maioria das vezes, quando expressado corretamente, com respeito, é sempre bom ver o carinho dos torcedores franceses. As reações, às vezes, podem ser extrovertidas demais. Mas, muitas vezes, os pedidos são expressos de uma forma bonita, e sabemos que fazemos as pessoas felizes. Então é ótimo vivenciar isso.”

Questionado sobre seu trato com os fãs e a sua carreira, Kanté deu a (simples) fórmula do sucesso: “Antes de ser profissional, eu tinha uma vida em que eu era como quase todas as pessoas. Admirava o futebol e os jogadores como espectador. Hoje, com as pessoas me vendo como uma estrela, eu sei o que é estar do outro lado. E alegrar as pessoas é sempre bom”.

No entanto, essa idolatria, diferentemente do caso de muitos de seus colegas de profissão, vem quase que puramente de seus feitos em campo, e não de uma imagem de celebridade construída pelo jogador fora dele. É algo que Kanté, ele próprio, nunca quis alimentar.

“Eu sempre quis viver o futebol como um prazer. Mesmo que seja também uma profissão, é onde me sinto à vontade. Eu posso me expor midiaticamente ou publicamente às vezes, mas não gosto de fazer isso muito frequentemente”, explica.

A serenidade de Kanté transparece até na maneira como lida com as adversidades da vida de um profissional. Ao falar das lesões, diz que “são coisas que precisamos aceitar como elas vêm”. “Eu sabia que não podia estar no campo e que tinha que aceitar isso”, comenta.

O jogador reconhece que é estranho ver os jogos da arquibancada ou pela televisão: “É mais estressante, enfrentamos maior incerteza, porque não temos controle sobre os acontecimentos”. Mas o desempenho dos jovens Mount, Abraham, Tomori e companhia, sob o comando de Frank Lampard, certamente facilitaram tudo.

“Meus companheiros de equipe fizeram tudo muito bem, com um início de temporada muito bom.”

O período afastado foi também de introspecção – e também de busca por melhorias, ainda que isso seja mais difícil à medida que você se aproxima cada vez mais do topo.

“Prestei mais atenção nos pequenos detalhes do futebol. Eu já era muito exigente, mas elevei o sarrafo, porque muitas vezes são os pequenos detalhes que podem causar problemas. Não ser absorvido pelo próximo jogo permitiu que eu me concentrasse em mim próprio e pensasse no que podia fazer melhor.”