Kaká viveu seus melhores anos na carreira como jogador defendendo o Milan e jogando, portanto, no estádio San Siro. Um ícone do futebol, o estádio será substituído por um novo (e já mostramos aqui os dois projetos candidatos). O brasileiro, que teve duas passagens pelo Milan (2003 a 2009, 2013/14), diz que deseja que ao menos uma parte do estádio que tantas vezes jogou seja preservado. E usou como exemplo outro ícone do futebol: o Maracanã. E o exemplo que ele usa é negativo.

“O meu desejo é que eles consigam salvar ao menos alguns elementos arquitetônicos de San Siro”, afirmou Kaká, em entrevista à Gazzetta dello Sport. “Eu entendo que futebol é um negócio, mas sentimentos não podem ser parados, alguma coisa deveria ser mantida do estádio”.

O exemplo que o brasileiro deu foi algo que conhecemos bem: o icônico estádio do Maracanã. O estádio passou por muitas reformas ao longo dos últimos 20 anos. A primeira grande reforma veio em 2000, depois em 2006, com vistas para o Pan-americano de 2007, e depois em 2013, visando a Copa do Mundo de 2014. Neste último momento, as obras foram praticamente de demolição completa, passando por cima inclusive do tombamento histórico do estádio. Como já mostrou a Agência Sportlight, de Lúcio de Castro, o Maracanã, um patrimônio público, foi destruído por políticos como Sergio Cabral, por interesses privados.

Kaká lembrou sobre o que passou o Maracanã, que perdeu inclusive partes do estádio tombadas pelo patrimônio histórico. “O Maracanã mudou muitas vezes e não é mais o mesmo, mas ainda tem muita história por trás”, afirmou o brasileiro, que jogou pouco no brasil. Esteve no São Paulo de 2001 até 2003 e voltou para jogar mais alguns meses no segundo semestre de 2014.

O caso de Milão, aparentemente, será diferente. Os projetos previam a demolição de San Siro e construção de diferentes estruturas ali – de um museu à manutenção de um campo de futebol. O prefeito de Milão conseguiu uma contrapartida dos dois clubes, Milan e Inter, que dividem o projeto do novo estádio, a garantia da manutenção de ao menos uma parte do estádio. “Estou mais otimista, porque acredito que os dois clubes estão mais próximos de nosso pedido, que era muito simples: salvar o San Siro, não tanto como era no passado, mas tornando-o uma realidade viva sem precisar destruí-lo”, afirmou Giuseppe Sala.

“Desejo que os donos de Milan e Inter comecem a investir para voltar ao alto nível”

Kaká também acredita que Milan e Inter precisam de investimento forte para voltarem a ter o alto nível que tinham quando ele era jogador dos rossoneri. Os dois clubes mudaram de donos desde que ele parou de jogar e ainda não conseguiram retornar ao antigo nível.

A Inter voltou à Champions League, mas tanto na temporada passada quanto a atual, sequer passou da fase de grupos. O Milan chegou à Liga Europa em uma temporada, mas caiu na fase de grupos. Na atual, teve que abrir mão da sua vaga no segundo torneio da Europa em acordo com a Uefa por violações no Fair Play Financeiro.

“Há muitos problemas econômicos com o Milan, mas eu vejo que a posição deles na tabela melhorou. Contudo, eu desejo que acima de tudo, os donos do Milan, e da Inter, comecem a investir para voltar ao mais alto nível”, disse o melhor jogador do mundo de 2007.

“O momento é agora, os dois clubes são históricos, Milão é uma cidade linda e a Itália é um país maravilhoso. Me deixa triste que não vejamos os times milaneses nas fases decisivas da Champions League”, continuou Kaká. “Eu acredito que é um círculo vicioso, com as receitas da Champions League, você pode contratar jogadores melhores e voltar ao mais alto nível”.

O problema é que com as restrições do Fair Play Financeiro, tanto Milan quanto Inter têm sofrido para conseguir investir. “Eu entendo isso [o Fair Play Financeiro], mas se você não investe o suficiente, então você não tem um time de qualidade, e, portanto, não se classifica para torneios importantes. É um círculo vicioso”, disse o brasileiro.

Kaká jogou junto com Cristiano Ronaldo no Real Madrid. Os dois chegaram ao clube na mesma janela de transferências, no verão de 2009. E o brasileiro ainda se impressiona com a fome e a vontade de vencer do português, que trocou o clube de Madri pela Juventus em 2018. “Ele verdadeiramente tem uma fome infinita. Com tudo que ele fez no seu jogo, seria humano mudar, mas ele ainda está motivado”, afirmou o ex-companheiro de CR7.

Atualmente com 37 anos, Kaká se aposentou há dois anos, no final de 2017, aos 35 anos. “No último ano no Orlando City, eu realmente pensei muito sobre isso, se iria continuar jogando ou não. Mas em um certo ponto eu entendi que, se eu estava me perguntando se deveria continuar, é porque já tinha acabado”, contou o ex-jogador do Milan.

“Eu tomei a decisão certa e eu não me arrependo de me aposentar, eu não sinto falta de jogar”, confessou o ex-jogador. Kaká tem feito cursos sobre gestão esportiva e se preparado para atuar no futebol, mas ainda não sabe o que vai fazer. Frequentemente ele é ligado ao Milan em especulações, para trabalhar na diretoria do clube.

“Eu tenho um desejo de voltar, mas não é a hora certa. Eu gostaria de trabalhar com Paolo Maldini e Zvonimir Boban, ajudar o clube, e melhorar tudo”, explicou Kaká. “Contudo, não é o momento de deixar o Brasil. Por enquanto, eu vou acompanhar de longe”.

Kaká foi contratado pelo Milan em 2003 por € 8,5 milhões. Na época, o então presidente e dono do clube, Silvio Berlusconi, sempre falastrão, disse que o valor era uma pechincha. E o tempo mostrou que ele tinha razão. Pelo clube, conquistou a Seriei A em 2003/04, a Supercopa Italiana em 2004, a Champions League de 2006/07, a Supercopa de 2007 e o Mundial de Clubes de 2007. Foi pelos rossoneri que Kaká foi eleito o melhor do mundo em 2007, tanto no prêmio da Fifa quanto na Bola de Ouro, da France Football.