O Derby D'Italia de domingo valia demais. A Juventus, disputando o título, entrava em campo pressionada em casa após a vitória do Milan sobre a Roma. Além disso, para a torcida, receber um dos maiores rivais pela primeira vez no novo estádio era um acontecimento. Para a Inter, uma chance de recuperar a autoestima e manter viva a esperança de jogar uma competição europeia na próxima temporada.

Antonio Conte fez duas modificações na equipe que massacrou a Fiorentina por 5 a 0. Lichtsteiner, suspenso, deu lugar a Chiellini, com Cáceres sendo deslocado para a lateral-direita. Ainda na zaga, Barzagli, recuperado de lesão, voltou ao seu posto, empurrando Bonucci para o banco. De resto, tudo igual, com Pirlo articulando por trás dos dinâmicos Marchisio e Vidal. Na frente, o trio Pepe, Matri e Vucinic.

Entre os atacantes, o montenegrino Vucinic é o que recua mais para articular. Pepe fica aberto na direita e Matri enfiado entre os zagueiros. Um típico 4-3-3 de base alta.

Na Inter, Claudio Ranieri tinha mais problemas. A equipe caiu para o oitavo lugar na tabela, após o 0 a 0 em casa com a Atalanta, e havia sido eliminada da Liga dos Campeões pelo Olympique de Marseille. Os meias Sneijder e Álvarez seguem no estaleiro e a cabeça do treinador a prêmio. Creio que, por esse elenco de motivos, Ranieri optou por escalar uma equipe para, primeiramente, dificultar o jogo do adversário.

A linha defensiva foi repetida, com Maicon, Lúcio, Samuel e Nagatomo. No meio, Stankovic começou na vaga de Cambiasso e o formato mudou. Ao invés de jogarem em linha, os volantes formaram um losango, com objetivo definido de encaixar a marcação nos meio-campistas da Juve. Poli fez a função de marcar Pirlo de perto, acompanhá-lo por onde fosse. Zanetti e Obi se encarregaram do apoiador que caísse pelo seu lado (Marchisio ou Vidal). E Stankovic teria mais liberdade para armar de trás com a bola, ao mesmo tempo que seria um espécie de líbero dos outros volantes.

Como a dupla Forlán e Milito jogou bastante próxima na frente, Stankovic ficou encarregado de organizar a movimentação dos volantes buscando marcar o avanço dos laterais da Vecchia Signora. Quando De Ceglie subia pela esquerda, Stankovic encostava em Marchisio, empurrando Zanetti para o combate no lateral, ao tempo em que Maicon encurtava em Vucinic. E a mesma mecânica do outro lado.

No entanto, o funcionamento pela esquerda foi falho. O nigeriano Joel Obi, apesar da vitalidade e força, fez um péssimo primeiro tempo do ponto de vista defensivo. Constantemente mau posicionado, ele dava liberdade ao avanço de Cáceres pela direita. Enquanto Vidal ocupava dois marcadores (Obi e Stankovic), Nagatomo se via em dificuldades contra dois (Pepe e Cáceres). Foi por ali que a Juventus encontrou espaço para atacar durante o primeiro tempo. Porém, apenas uma boa chance foi criada: cabeceio de Matri, após cruzamento de Cáceres, para a defesa de Júlio César.

Mesmo com a fragilidade pelo lado esquerdo, a estratégia de Ranieri funcionou. Com Pirlo neutralizado, a Juventus perdeu força e, afobada, permitiu contra-ataques. O apoio de Maicon foi a principal válvula de escape nerazzurra, que contou ainda com bom entendimento entre Poli, Milito e Forlán. O primeiro tempo terminou em zero apenas pela grande atuação de Buffon, exigido em pelo menos cinco oportunidades, sendo que três foram chances claras. A Juventus teve mais posse (61%/39%) mas foi menos efetiva (2/5 chutes a gol).

Conte é mais feliz no segundo tempo

Na volta para o segundo tempo, Ranieri havia corrigido o posicionamento de Obi, agora muito mais atento a Cáceres. Nagatomo agradeceu. E Conte teve que agir. Aos sete minutos, a Juventus alterou dois jogadores e o sistema. Bonucci substituiu Pepe e Del Piero entrou na vaga de Matri.

A formação passou a ser o 3-5-2, como mostra a imagem acima, dois minutos após a troca, em um tiro de meta a ser cobrado por Júlio César. Bonucci, Barzagli e Chiellini na defesa (quadrado amarelo). Cáceres, Pirlo, De Ceglie, Vidal e Marchisio no meio (triângulo verde). Vucinic e Del Piero na frente (círculo vermelho).

A decisão de Conte foi inteligente. Contra dois atacantes enfiados, três zagueiros. Um sempre na sobra, algo que não houve na primeira etapa. Os alas avançando ao mesmo tempo ocuparam os laterais da Inter. Na área, o contra veneno, dois atacantes para enfrentar Lúcio e Samuel. Para não perder a sobra, Stankovic deveria afundar entre os zagueiros ou marcar o atacante mais recuado (Vucinic). No entanto, isso não aconteceu.

Como a sorte acompanha os bons, aos 12 minutos a Juventus abriu o placar. Pirlo cobrou escanteio da direita e Cáceres cabeceou sozinho para as redes. O gol não foi obra da modificação tática, mas de um erro coletivo de marcação da Inter.

Com uma melhor contenção e o placar a favor, a Juventus começou a jogar como gosta e a pressão na Inter aumentou. Maicon passou a ser o único jogador de destaque ofensivo, por vezes até trocando de posição com Zanetti. Logo Ranieri precisou mudar. Aos 22 minutos, Faraoni entrou na vaga de Obi e Pazzini substituiu Poli. Forlán foi orientado a recuar, executando a função de trequartista. Ao mesmo tempo que o uruguaio é mais ofensivo que Poli, é muito menos marcador. Ou seja, além de ter a vantagem no placar e do adversário não ter sobra na zaga, agora a Juventus tinha Pirlo com liberdade para jogar.

Aos 25 minutos, Vucinic entrou sozinho na área e Júlio César salvou. Alguns segundos depois, a Juve tentou de novo e conseguiu. Lembram do flagrante anterior, com Stankovic sem marcar ninguém?

Esse é o lance do segundo gol. Vidal recebe a bola marcado por Faraoni. O chileno livra-se da marcação e provoca a penetração de Del Piero nas costas de Samuel. O 10 recebe na área e desloca Júlio César. 2 a 0 com Stankovic observando.

Até o final do jogo, Ranieri não corrigiu a defesa e não conseguiu mais atacar. A Inter sequer chutou ao gol de Buffon. A Juventus só não goleou porque Maicon salvou em cima da linha um chute de Quagliarella (que entrou no lugar de Vucinic).

Apesar de por linhas tortas, o destino que se previa antes do jogo era o certo. Vitória da Juventus de Conte e sequência na briga pelo scudetto. Ranieri demitido e a Inter com a perspectiva maior de ver a Europa pela TV na próxima temporada. Que Stramaccioni tenha mais sorte. E mais juízo.