A tabela no site da Conmebol indica os locais dos dois jogos da decisão da Libertadores entre Olimpia e Atlético Mineiro. O primeiro jogo, no dia 17 de julho, está marcado para o estádio Defensores del Chaco, em Assunção, e o jogo de volta, uma semana depois, está marcado para o Independência. Bom, estava assim até a manhã desta quinta, quando a Conmebol divulgou um comunicado em seu site dizendo que as finais serão no Defensores del Chaco, dia 17, e no Mineirão, no dia 24, o que levantou ainda mais questões. O Atlético já deixou clara sua vontade de mandar a final no Independência e, a rigor, o Defensores Del Chaco também não cumpra as exigências. Apesar da informação publicada pela Conmebol, essa definição parece longe de um fim.

O regulamento da Libertadores, no item VI, artigo 9.4, diz que a capacidade mínima para a final é de 40 mil pessoas. Ao que parece, o item será ignorado para que os dois times joguem em suas casas habituais. Ou, ao menos, haverá um acordo para que os dois times tenham permissão para jogar nos dois estádios, que são a casa de cada um deles. É justo, mas é ilegal. O que fazer? Não seria uma novidade a Conmebol burlar o regulamento que ela própria criou. Infelizmente, essa é uma prática comum. Regulamento tornou-se um acessório, algo para referência, não para cumprimento. Alguns já usavam exatamente esse argumento para dizer que o jogo deveria ser no Independência “pelo bem do futebol”.  Só que o bem do futebol é termos regulamentos cumpridos. Não adianta dizer que o regulamento é ruim, é ridículo, é isso ou aquilo. Os times aceitaram e assinaram. Não faz muito sentido passar por cima. E isso não é ser legalista, é ser justo.

Em 2002, ano do último título do Olimpia, o São Caetano disputou a final no Pacaembu, porque o estádio Anacleto Campanella não tinha as chamadas condições mínimas para abrigar a decisão, já que não comporta os 40 mil lugares necessários. Em 2005, o Atlético Paranaense não pode mandar seu jogo na Arena da Baixada contra o São Paulo pelo mesmo motivo. Em ambos os casos, as justificativas foram que era um item do regulamento e, portanto, deveria ser cumprido. É preciso que o regulamento da Libertadores seja rediscutido.

Aliás, a Libertadores precisa ser rediscutida para, por exemplo, ser disputada durante o ano todo, não apenas no primeiro semestre. Também precisa ter premiação melhor, pagar melhor pelos direitos de TV. É preciso que a caixa de pandora das TVs que compram os diretos de transmissão seja aberta: afinal, quanto custa para a Fox Sports Latina comprar os direitos exclusivos da competição e repassar pela América do Sul? Por que os horários dos jogos são, muitas vezes, montados apenas em função da TV dona dos direitos,e não pensando nos torcedores do time? Por que a Recopa tem jogos no mesmo dia de jogos de Libertadores? Por que a Conmebol não exige que os detentores dos direitos de transmissão sejam obrigados a transmitir as semifinais e finais, como a Uefa faz com a Liga dos Campeões? Por que a Conmebol não exige que em dia de jogos decisivos da Libertadores, como as semifinais, sejam exclusivos, ou seja, não seja permitido ter jogos oficiais no continente na mesma data? Isso traria mais importância à competição e daria mais força e visibilidade aos times que a disputam.

Há muito que precisa ser feito na Libertadores. Uma delas é justamente cumprir o regulamento. Atlético Mineiro e Olimpia podem mandar seus jogos até a decisão no Independência e no Defensores del Chaco? Acho até que isso é justo. Deveria poder. Só que o regulamento não permite. Então que isso seja colocado no regulamento essa mudança, não mudado apenas em função de quem chegar à final. Porque permitir que só alguns burlem o regulamento é mostrar que o regulamento só serve para alguns. Parece lembrar uma frase famosa, de origem controversa, mas atribuída a Benedito Valadares, jornalista e político, que foi governador, olha só, de Minas Gerais: “Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei”.  A nossa história está embebida com essa frase. Quando não gostamos de um regulamento, o consideramos injusto, prejudicial ou algo assim, em geral não lutamos para mudá-lo. Apenas damos um jeito de burlá-lo. Uma espécie de justiçamento. Se a lei não é justa, nós fazemos a justiça por outros meios.

Se só o Olimpia puder mandar seu jogo no Defensores del Chaco e o Atlético Mineiro não puder jogar no Independência, ficará ainda mais evidente isso: a regra só vale para alguns.O Olimpia, o time mais forte do Paraguai, mais vencedor e habitué da Libertadores, pode conseguir seu estádio na final, ainda que ele não seja tecnicamente permitido. O Atlético tem que poder também. E aí, por que temos a lei?

O caso desta final de Libertadores é evidente nisso: parece claro e límpido que o melhor é que os dois times possam mandar seus jogos no seu estádios. Até para o espetáculo parece bom. O bom senso diz isso. Então, o que fazer? Passar por cima do regulamento que outras vezes impediu alguns times de jogarem em seus estádios? Queremos que a lei só seja para quem não tem poder político? É uma pergunta que temos que pensar em responder. E não pensar só no casuísmo.