O nome de Andrés Escobar continua sendo cultuado no futebol colombiano. Apesar do gol contra que marcou a frustrante campanha na Copa do Mundo de 1994, e que acabaria custando a vida do zagueiro, a memória do antigo ídolo vai muito além. É o “Cavalheiro do Futebol”, eternizado entre os torcedores do Atlético Nacional e considerado um dos melhores defensores da história da Colômbia. Quase 24 anos após o assassinato do jogador, porém, a sensação de impunidade prevalece no país. E, por linhas tortas, a justiça foi feita nesta quarta-feira, com a prisão de Juan Santiago Gallón Henao, considerado um dos responsáveis da morte. A mando de autoridades americanas, ele acabou detido na cidade de Cúcuta, por relações com o narcotráfico.

Ao lado de seu irmão, Pedro, Juan Santiago agrediu verbalmente Andrés Escobar em uma discoteca de Medellín, dias depois da eliminação no Mundial dos Estados Unidos. Os irmãos provocavam o zagueiro por causa de seu gol contra e começaram a persegui-lo. Na saída do local, em seu carro, o jogador da seleção pedia respeito. Enquanto isso, os agressores o ameaçavam e diziam que ele “não sabia com quem estava se metendo”. Foi quando Escobar acabou abordado por Humberto Múñoz Castro. Motorista dos irmãos Gallón Henao, ele disparou seis tiros contra a cabeça da vítima, antes de fugir com os patrões em uma caminhonete.

Embora exista uma teoria de que o assassinato seja relacionado a apostas sobre a campanha da Colômbia na Copa de 1994, o responsável pela investigação garante que a ação foi determinada por mera mostra de poder, em um cotidiano extremamente violento que se vivia na Colômbia. E poder, assim como boa relação com as autoridades, não faltou aos Henao Gallón. Enquanto Múñoz Castro foi condenado a 43 anos de prisão, dos quais não cumpriu nem 12, os irmãos escaparam das imputações mais pesadas e acabaram sentenciados apenas por “acobertamento”, o que renderia alguns meses de detenção. Sequer ficaram presos, logo pagando a fiança.

A morte de Andrés Escobar, entretanto, não foi o único crime cometido por Juan Santiago. Desde os anos 1990, ele possuía ligações com narcotraficantes, ainda que fosse considerado oficialmente um “cavaleiro”. Durante o julgamento do caso de Andrés Escobar, vários narcotraficantes que receberam indulto do estado, por colaborarem anteriormente com o desmantelamento do Cartel de Medellín, deram depoimentos a favor de Henao Gallón. Já em 2010, ele foi condenado a três anos e meio de prisão por financiar grupos paramilitares da Colômbia, conectados aos irmãos Carlos e Fidel Castaño. De qualquer forma, não foi a segunda passagem pela prisão que afastou Juan Santiago dos crimes.

Desta vez, Juan Santiago Henao Gallón está ligado a uma organização que camufla cocaína em comida para cães e gatos. A rede transformava a droga em produtos agropecuários e veterinários, maquiada em materiais com forma, cheiro, textura e aparência de substâncias lícitas. Por conta disso, um tribunal dos Estados Unidos solicitou, há quatro meses, a extradição de Juan Santiago por narcotráfico. Foragido desde então, o criminoso acabou preso na cidade de Cúcuta, próxima à fronteira com a Venezuela. Será transferido inicialmente para Bogotá, antes de viajar a Nova York, onde enfrentará o processo da justiça americana. Ao menos desta vez, a sensação é a de que ele será punido como deve.


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