Deixar o Brasil cedo é uma história absolutamente comum entre os jogadores de futebol profissionais no Brasil. O caso de Sérgio Dutra Junior, ou Junior Dutra, como ficou conhecido, segue esse roteiro. Jogou no Japão, Bélgica e agora atua no Catar, país onde está programada a Copa do Mundo de 2022.

Revelação do Santo André em 2008, jogou a Série B e ajudou o time a subir para a Série A, onde também defendeu a equipe. Se destacou e acabou no Japão, jogando pelo Kyoto Sanga, entre 2010 e 2012, e Kashima Antlers, um dos mais tradicionais do país, em 2012. O destaque o levou à Europa. Foi defender o Lokeren, da Bélgica, onde ficou duas temporadas. Em 2015, foi para o Al-Arabi, do Catar, clube que defende atualmente.

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Em entrevista exclusiva à Trivela, Junior Dutra contou como ganhou o apelido de Samurai no Japão, a sua experiência jogando na Bélgica e como é o futebol no Catar. Ele conta que seria impossível ter Copa em junho e julho, época que é tradicionalmente disputada a competição e contou como o calor torna as coisas difíceis por lá em alguns momentos do ano. Confira.

Você passou por vários times nas categorias de base. Como foi parar no Santo André, onde foi para o time principal?

Comecei no Santos, fui para o Atlético Paranaense e meu pai foi trabalhar em Santo André. Ele conhecia algumas pessoas no clube e fui para lá, porque eu queria jogar. Algumas pessoas me falaram para não ir, porque o Atlético tinha uma boa estrutura, mas eu via uma chance de jogar. Como é um time que não tem tanto dinheiro para contratar, usa mais a sua categoria de base. Era um risco grande, mas eu queria jogar.

Por que ir jogar no exterior tão cedo?

Depois que eu subi para o profissional e fui bem, surgiu a proposta do Japão. Falei com alguns jogadores que estavam no profissional, como o Fernando e o Marcelinho, que já tinham jogado lá. Eles me falaram muito bem do país e eu fui.

E como foi a adaptação?

Foi muito fácil me adaptar, muito mais do que eu pensava. Apesar de não falar a língua, tinha um tradutor o tempo todo para mim e para a minha família. No meu time tinha um auxiliar técnico brasileiro, tinha o Thiego (ex-Grêmio) e o Diego Souza (ex-Palmeiras), o que também facilitou.

O que mais te chamou a atenção lá?

Sem dúvida a organização. Lá é tudo muito organizado, dentro e fora de campo, a cidade era muito limpa e as coisas funcionavam muito bem. Isso foi algo que me chamou muito a atenção.

É verdade que você era chamado de Samurai no Japão? Como surgiu esse apelido?

É verdade (risos). Eu fui convidado para ir a um estúdio assistir a um filme japonês e depois disso passei a participar de alguns eventos vestido de Samurai. A torcida gostou e eu comecei a comemorar os gols imitando um samurai e a torcida gostou.

Como você avaliaria o Catar hoje?

É um país que vem crescendo muito, principalmente por causa da Copa do Mundo que vem aí, em 2022. Em termos de estrutura, o país tem melhorado muito investido na construção de muitas estradas, de metrô. O futebol cresce mais lentamente. Deve demorar mais anos para chegar ao nível do Japão, Coreia do Sul e agora dos times chineses, que estão com muito dinheiro.

Dá para fazer um paralelo com o Japão como país?

Com o Japão é difícil comparar, mas o Catar tem o poder financeiro muito grande, então consegue construir as coisas rapidamente, usar os melhores materiais e até arranjar soluções para lidar com o calor, que é muito grande aqui.

O Catar sempre foi um país com muitos brasileiros. Como é o país em relação aos estrangeiros?

No Catar tem muito estrangeiro, tem muitos brasileiros. A comissão técnica do meu time é toda italiana, porque o técnico é o [Gianfranco] Zola e o auxiliar é o [Pierluigi] Casiraghi, por exemplo.

Você acredita que o Catar possa organizar uma boa Copa do Mundo?

Acho que podem sim fazer uma grande Copa. Eles estão construindo uma grande infraestrutura, investindo muito em estradas e metrôs. Tem tudo que precisa e imagino que eles não irão medir esforços para fazer todas as obras necessárias.

O calor foi colocado como um dos problemas para a Copa do Mundo em 2022, a ponto de mudarem o período da Copa de junho e julho para novembro e dezembro. Como vocês lidam com ele no dia a dia?

Na época que a Copa normalmente é disputada, em junho e julho, realmente não tem como jogar futebol. É muito quente. Talvez até desse para jogar porque eles construiriam estádios com ar condicionado, mas as pessoas não conseguiriam aproveitar a Copa, porque não dá nem para sair na rua. Normalmente, fazemos pré-temporada em julho na Europa. Quando a temporada começa, em setembro, ainda está bem quente. De dia, nessa época do ano, já cheguei a pegar 50°C, 55°C. Nós treinamos à noite, umas 21h, e mesmo nesse horário já peguei 40°C, 42°C.

O Catar é um país mais liberal que outros no Oriente Médio, mas ainda é um país de leis religiosas rígidas. E como você lida com a religião? Afeta em algo na sua vida aí?

Tem que tomar alguns cuidados, não dá para fazer igual em outros países, mas não é nada que mude a sua rotina. Para sair, tem alguns lugares específicos e tem que respeitar os costumes locais. Em alguns pontos é difícil. O que teve foi um caso curioso uma vez. No intervalo de um jogo, o treinador não conseguiu falar nada, porque era o horário da oração, a reza. Os jogadores muçulmanos ficaram rezando e ele não conseguiu dar nenhuma instrução.

Como é trabalhar com alguém como Zola e Casiraghi, que foram atacantes, como você?

É muito bom poder trabalhar com alguém que jogou na minha posição. Eu tento aprender muito e eles trazem muito da experiência deles, conversam comigo. É muito bom.

Você saiu muito novo do Brasil. Aconselharia outros jogadores a irem para o Japão ou Catar, como você foi?

Eu saí muito novo do Brasil, mas não me arrependo. Tive a chance de voltar ao país e preferi continuar no exterior. Eu não gosto de ser incisivo quando alguém me pergunta se deve ou não sair, porque o sonho dele pode ser diferente do meu. O que eu posso dizer é que a minha experiência foi muito boa no Japão, na Bélgica e está sendo aqui no Catar.

Você jogou no Lokeren entre 2013 e 2015. Como foi a experiência na Bélgica?

Foi o maior desafio da minha carreira. É uma liga muito forte fisicamente e exige muito do jogador. É muito frio também, é preciso se adaptar. Eu consegui meu espaço aos poucos nas duas temporadas que fiquei por lá. Tinha um treinador muito inteligente lá [Peter Maes, atualmente no Genk] e consegui ser campeão da Copa da Bélgica. Gostei muito de jogar na Europa, da seriedade que o futebol é encarado lá [Nota do editor: Junior Dutra fez 78 jogos pelo Lokeren, marcando 14 gols e fazendo sete assistências nas temporadas 2013/14 e 2014/15].

O Xavi é uma das grandes estrelas da liga do Catar hoje, mas quem mais tem recebido elogios é Rodrigo Tabata. Como foi jogar contra o Xavi e o que você pode falar do Tabata?

O Xavi é sempre muito legal de jogar, é uma estrela mundial, mas o Rodrigo Tabata está jogando demais. O time dele está muito bem, é um dos melhores do país, se não for o melhor [Nota do editor: o time de Tabata, Al Rayyan, é o líder do Campeonato Catariano, com 10 pontos de vantagem contra o segundo colocado, El Jaish. Tabata é o artilheiro da liga, com 15 gols].

Você tem 27 anos, ainda tem muita carreira pela frente. Pensa em voltar ao Brasil?

O Brasil não está nos meus planos. O xeique que é dono do time é também um investidor do futebol, então ele tenta fazer bons negócios, investe até em jogadores na Europa. Eu não penso em voltar para o Brasil agora, já tive algumas sondagens para voltar, mas não é o momento ainda. Mas eu penso em voltar um dia, é algo que está na minha cabeça.