Desde que chegou ao Manchester United, Juan Mata não conseguiu repetir por longo tempo o nível alto de futebol que desempenhara no Chelsea nos anos anteriores. Embora seu impacto dentro de campo tenha sido reduzido no clube de Manchester, fora deles o experiente meio-campista tem feito, de dois anos para cá, um papel cada vez mais ativo na tentativa de estabelecer o exemplo de como o esporte pode afetar a sociedade. E, para ele, jogadores de futebol têm uma plataforma que lhes permite fazer mais do que simplesmente jogadas dentro das quatro linhas.

Em entrevista ao ESPN FC, Mata se mostrou realizado como jogador de futebol, mas deu a entender que isso não basta. “Sou feliz por ter jogado vários jogos e ter vencido alguns troféus importantes. Sinto-me privilegiado e sortudo por isso e espero poder vencer muitos mais. Mas acho que estamos aqui para fazer, de certa maneira, algo a mais”, afirmou.

“Acho que ainda existem pessoas que pensam: ‘Por que esse jogador de futebol está falando sobre todas essas coisas?’ Por que não? Esse é meu ponto de vista. Por que não? (…) O Raheem (Sterling), o Héctor (Bellerín), quem quer que se expresse, eles podem ter dias ruins em um jogo, eles podem perder partidas, mas eles ainda têm seus valores e o direito de falar o que pensam. Quando você não vence ou não joga bem, você recebe críticas. E eu entendo isso. É justo. Mas ainda existem pessoas que acham que jogadores de futebol têm que se ater ao futebol. Eu não concordo”, ressaltou.

O espanhol diz que a profissão carrega uma carga de responsabilidade pelas pessoas que seguem os atletas. Ele reconhece que é difícil para um jogador sair da rotina diária de treinos, preparação, atuação em alto nível, e focar outros lados da vida, mas acha possível. “É uma rotina mentalmente bastante exigente ser jogador de futebol profissional. Então, tirar um tempo para sair disso e pensar em outras coisas pode ser um desafio, e é um desafio. Mas acho que, se você quiser, você consegue.”

Questionado sobre os valores exorbitantes que giram no futebol, com o montante de 1,7 bilhão de libras gasto na janela de transferências antes do início da temporada 2019/20, Mata disse que o problema não é o dinheiro em si, afinal o futebol também gera muita riqueza. Mas, sim, que haveria outras formas de se reinvestir essa riqueza.

“São grandes números. A realidade é que tem muito dinheiro no futebol. E, para mim, o problema não é esse. Nem um pouco, porque o futebol gera muitas coisas para o mundo, muita paixão e muito dinheiro. Então, é normal que algo tão grande gere muito dinheiro. Se pudermos usar uma parte desse dinheiro para de fato investir no futebol, mas em um tipo diferente de futebol, que é o futebol social, acho que isso faz muito sentido.”

Juan Mata criou em 2017 a Common Goal, um movimento que visava arrecadar dinheiro para instituições de caridade de futebol com doações de jogadores e técnicos de 1% de seus salários. “Se ao menos tivermos uma porcentagem desse dinheiro indo diretamente ao futebol, é um investimento para o futuro. É apenas uma parte dessa grande quantia de dinheiro que está rolando no futebol. É isso que estamos tentando fazer. Acho que isso precisa ser feito. E será feito, porque é o certo.”

Para Mata, “ajudar outras pessoas é provavelmente mais significativo do que fazer um gol na final”. Com isso como norte, ele projeta os próximos anos de atividade da Common Goal, que conta com apoiadores como Alex Morgan, Giorgio Chiellini, Julian Nagelsmann, Kasper Schmeichel, Mats Hummels e Megan Rapinoe: “Sinto que é apenas o começo. Acho que estamos criando algo realmente interessante para o futebol e a sociedade em geral”.