A uma enorme geração de torcedores do Flamengo, o Campeonato Carioca ainda é o que se viveu naquele triênio mágico. Na virada do século, quando os estaduais já indicavam o seu declínio, levantar a taça no Maracanã lotado representava um universo. O universo de quem, na segunda-feira pela manhã, poderia cumprimentar o rival com um sorriso maroto e praticar a velha arte da galhofa. Permaneciam os ares de um futebol mais vivo na cidade, bem como a fantasia um tanto quanto carnavalesca de se dizer “o Rei do Rio”. E que as fronteiras já tivessem se expandido muito antes, nada melhor ao flamenguista que ser campeão três anos seguidos contra os rivais. Três vezes contra o Vasco, em 1999, 2000 e 2001. A terceira, a mais improvável, com a aquela cobrança de falta de Petkovic que continua entrando na gaveta cada vez que um rubro-negro fecha os olhos no Maraca. Juan, ainda um garoto naqueles tempos, teve a visão privilegiada do miolo de zaga.

O Campeonato Carioca continua com essa aura particular. Que a federação tenha cometido um crime ao destruir o antigo regulamento, o melhor do país, a galhofa muitas vezes rege os desejos no estadual repleto de clássicos. Que se cobre o time, mantendo a régua de exigência alta, ainda há um objetivo tácito de espezinhar os rivais. Talvez seja algo da maneira como se leva a vida no Rio, com leveza e uma piada na ponta da língua para driblar as rasteiras da vida. De certa forma, essa mania de estufar o peito por causa do Carioca até embaralhou a vista dos clubes do estado em busca de objetivos maiores, deixando-se levar pelo clima festivo. Mas a festa ainda é festa. E isso que o Flamengo se viu com todo o direito de fazer no Maracanã, às vésperas de conquistar um novo título. Juan, o veterano que ergueu a taça, como o último elo visível àquele passado que construiu conceitos.

O Flamengo sempre foi colocado como amplo favorito ao título do Campeonato Carioca de 2019, praticamente uma obrigação. Sua estrutura financeira o diferencia bastante dos rivais neste momento, em que a austeridade é mais comum aos outros. O Fluminense foi quem mais incomodou durante a campanha, mas caiu antes. E depois da vitória no jogo de ida contra o Vasco, já garantindo uma ótima vantagem para o reencontro na decisão, os torcedores rubro-negros se prepararam para a festa. Festa no Maraca, na favela ou onde a multidão flamenguista estivesse. Algo que ficou claro desde o primeiro instante neste domingo.

A entrada dos times já guardou uma apoteose rubro-negra. A empolgação seguiu com bola rolando, ainda mais depois do gol anotado por Willian Arão. Não haveria as vaias da Libertadores, a tensão que toma o estádio lotado em jogos grandes. O Carioca é outra história. E ainda mais se, contra um time inferior como esse do Vasco, a taça parecesse tão próxima. O Flamengo nem jogou tão bem, mas a torcida não chiou. Os cruzmaltinos levaram perigo, Maxi López forçou Diego Alves a uma defesaça. Ficou por isso mesmo, o hoje acontecendo euforicamente, à espera do sorriso de amanhã. Se o tento de Gabigol foi anulado, coube a Vitinho completar o triunfo por 2 a 0. E permitir de vez que a alegria tomasse conta.

Gabigol não decidiu em campo, mas foi a cara da final do Campeonato Carioca. A risada diante dos dois vascaínos batendo cabeça é a provocação dos anos 1990 reescrita. O atacante brilhou no estadual, de fato, resolveu partidas. E se esbaldou ao apito final no Maracanã, porque seu estilo provocador e despreocupado entendeu o que é a torcida rubro-negra em uma final de Carioca. Percebeu que a geral ainda vive, mesmo em arquibancadas rodeadas por cadeiras “padrão Fifa”. E nem precisava de muito para saber que esta é uma mobilização popular, tão Flamengo quanto o Flamengo é. Mergulhou no meio da galera e, sem estudar as métricas das redes sociais, ergueu a placa para proclamar a tal “festa na favela” – que sempre seguirá acontecendo, admitida publicamente ou não.

Ao final, reapareceu Juan. Um cara que sempre encarnou o Flamengo. Cria da base, presente em momentos importantes, que nunca escondeu o amor à camisa. Aquela ligação com o tricampeão carioca que forjou o caráter de muitos rubro-negros. No final de sua carreira, atrapalhado pela grave lesão recente, o capitão moral deste elenco ergueu a taça. Para viver um de seus últimos momentos gloriosos como jogador. E, de certa maneira, para traçar um paralelo com o que muda no estadual. A euforia acontece, mas até quando? O time é superior, mas quanto? O futebol foi suficiente para ficar com a taça, mas não agradou, e até onde pode levar o Fla?

A idade de Juan é o sinal inegável que aquele triênio, e outros tempos do Campeonato Carioca, estão ficando para trás. O Flamengo e também seus outros três rivais precisam de mais. Talvez o Campeonato Carioca ainda seja uma bolha com a atmosfera dos anos 1990, mas a impressão é de que a noção de realidade ao seu redor cresce, a aura diferente aos poucos se esvai. Ao menos a final ainda permite fantasiar. Nada substitui a alegria de um domingo de clássico no Maracanã, ainda mais com título sobre o rival. Mas basta mais pelo passado do que pelo presente. Pela festa em si.