A criação da Premier League em 1992 e o enriquecimento da competição nas últimas duas décadas transformaram o campeonato no mais ilustre dos torneios nacionais. A primeira divisão inglesa é a mais rica, tem o maior número de equipes competitivas em comparação às outras quatro grandes ligas (espanhola, alemã, italiana e francesa), e isso tudo torna o espetáculo incrível para o espectador. No entanto, o outro lado da moeda traz um problema tanto para o campeonato quanto para a seleção inglesa, a médio e a longo prazo. Os jovens de até 23 anos têm tido cada vez menos espaço nas equipes da elite.

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Segundo pesquisa de Simon Gleave, chefe de análise do Infostrada Sports, o número de jovens ingleses utilizados frequentemente nos times titulares da Premier League caiu pela metade em duas décadas. Na temporada 1994/95, 70 atletas de até 23 anos haviam sido titulares em pelo menos um terço dos jogos, 51 desses ingleses. Em 2014/15, o número total caiu para 50, e só 25 são ingleses. O que tem preocupado a imprensa inglesa mais do que qualquer coisa é o impacto disso na seleção.

Se os ingleses tivessem o hábito de se aventurar por campeonatos estrangeiros, talvez o problema não fosse tão grande. Desenvolveriam seu futebol em centros menos estrelados, mas relevantes. No entanto, segundo aponta Sean Ingle, do Guardian, apenas um jogador jovem inglês atua com certa frequência em uma das grandes ligas: Josh McEachran. E isso para ser otimista, já que na verdade McEachran está na Eredivisie, pelo Vitesse, emprestado do Chelsea em um acordo entre os dois clubes que pode ser visto como exceção em relação ao panorama geral.

A preocupação com a formação e a utilização de jogadores ingleses na Premier League já é algo concreto há algum tempo, e algumas medidas já começaram a ser debatidas para amenizar a situação. Greg Dyke, presidente da FA, já deixou clara sua insatisfação diversas vezes, mesmo após a criação da regra de que pelo menos oito jogadores com 21 anos ou mais devem ser ingleses, de um total de 25 que os times podem inscrever na temporada. No entanto, nenhum tipo de solução  que implique na utilização desses atletas foi de fato implementada pelos dirigentes.

Por pior que o cenário esteja atualmente, isso não significa que não possa se agravar ainda mais. Ora, o que tirou dos jovens seu espaço na primeira divisão inglesa foi justamente o processo de globalização e enriquecimento da liga. Com cada vez maior poder de compra, as equipes atraem atletas de todos os cantos do mundo. Jogadores muitas vezes já formados, que podem chegar e resolver, sem todo o trabalho de preparação que um garoto demanda. A pressão por resultados também influencia as escolhas dos técnicos, que preferem escalar o experiente em detrimento daquele que precisa de uma oportunidade para construir sua própria experiência.

Com o novo acordo de direitos de TV, que fará o último colocado da Premier League receber € 126 milhões a partir de 2016/17, por exemplo, a tendência, além da inflação dos valores, é de que o aproveitamento desses jovens seja cada vez menor. Sem uma política eficaz de reversão desse fenômeno de exclusão dos garotos, o cenário inglês de desenvolvimento de jogadores é de desolação. Por enquanto, essa fórmula que agrade dirigentes, clubes e aqueles preocupados com o futuro da seleção inglesa ainda não foi encontrada, mas deverá ser um desafio sério para os responsáveis pelo futebol do país nos próximos anos.