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Vimos no decorrer da década passada a progressão da carreira de um jogador se tornar cada vez mais precoce. Com a fácil disseminação de informações, dados e vídeos, é comum que um atleta já seja bem conhecido antes mesmo de estrear pelo profissional. É comum também que comece cada vez mais cedo e que, com a busca cada vez mais acirrada pelo próximo grande talento, ganhe uma grande transferência logo no início de sua trajetória.

A tentação de uma mudança multimilionária é grande, e é por isso que se tornam tão curiosas e raras as histórias de jogadores que a recusaram. É por isso também que Boubakary Soumaré, meio-campista de 20 anos do Lille, virou um dos personagens da janela de transferências de inverno da Ligue 1 sem mesmo ter trocado de equipe. E a reação de seu próprio clube adicionou um tempero especial à incomum história.

Chamado de Liga dos Talentos, o Campeonato Francês revela a cada ano cada vez mais jogadores de grande potencial, alguns deles prontos para despontar em ligas maiores. Certamente esta foi a avaliação de diversos clubes da Premier League sobre o meia defensivo Soumaré, do Lille.

Seu nome esteve em diversas manchetes ao longo do mês de janeiro, com rumores o ligando fortemente a uma dupla de gigantes: Manchester United e Chelsea. Mais fora do radar, no entanto, é que a briga esquentava, com Wolverhampton e Newcastle perseguindo com afinco sua contratação.

Este último foi quem oficializou a melhor das propostas. Steve Bruce, técnico dos Magpies, chegou a comentar publicamente sobre o negócio, ainda que sem citar nomes. Disse em entrevista coletiva, ainda em janeiro, que o presidente Mike Ashley havia dado o sinal verde para um investimento de € 45 milhões. É a partir daqui que a história ganha seus contornos incomuns.

“Tivemos uma proposta aceita que seria quase um recorde de contratação do clube, mas o jogador não quis vir. Passamos pelo clube, mas infelizmente o jogador quis permanecer lá. Não conseguimos finalizar, e foi uma grande decepção”, revelou Bruce.

Ainda em meio à janela, Soumaré deixou claro seu posicionamento. Perguntado sobre uma possível partida do Lille, afirmou: “Não me vejo saindo. Sinto-me bem aqui, temos objetivos elevados, como a (classificação para a) Liga dos Campeões. Uma partida não faz parte dos meus planos”. O desejo dele, pelo bem do andamento de sua carreira, era de ao menos terminar a campanha pelo clube francês. Um salto para a Premier League na metade de uma temporada certamente não seria das escolhas mais estáveis para alguém tão novo.

A torcida, evidentemente, adorou a decisão de um de seus melhores jogadores na temporada. Seria de se imaginar que o clube também apreciasse o gesto, mas, pelo contrário, a escolha de Soumaré causou uma crise interna inesperada.

Desde o fim de janeiro, na derrota por 2 a 1 para o Epinal, pela Copa da França, Soumaré não foi mais escalado pelo técnico Christophe Galtier. Presente em 19 dos 21 jogos da Ligue 1 até então, o meia defensivo não entrou sequer como substituto nas partidas do Lille, ficando inclusive fora do grupo que enfrentou o vice-líder, Marseille, em 16 de fevereiro. A razão para isso é simples: a irritação da diretoria com sua recusa de ir ao Newcastle.

Ao Lille, Soumaré teria representado uma grande venda, com lucro fantástico diante da sua chegada sem custos em 2017, vindo das categorias de base do Paris Saint-Germain. O presidente do clube, Gérard Lopez, notavelmente, se envolveu em toda a questão, tendo, segundo a imprensa francesa, participado de diversas reuniões com o jogador e seus representantes. Na visão de parte da crônica local, Lopez vê o clube como vendedor e sua gestão da questão com o atleta foi uma maneira de reforçar este status.

Depois de passar frio na geladeira lillois, tudo parece enfim ter se acertado. Ao site do clube, Soumaré afirmou que precisava conversar com os dirigentes para acertar “uma situação relacionada à gestão e ao desenvolvimento de minha carreira”. Galtier, técnico dos Dogues, disse estar “muito contente pelo presidente, pelo clube e pelo jogador que todos puderam discutir para que tudo progredisse”.

Se por um lado a história terminou bem ao torcedor do Lille, que terá seu talentoso meia até pelo menos o fim da temporada, por outro reforçou o temor compreensível dos fãs sobre a gestão esportiva do clube. Gérard Lopez, um empresário hispano-luxemburguês com presença em diversas indústrias, tomou um curso de ação que revela uma prioridade financeira que, embora faça sentido, parece, mesmo nos dias atuais, desequilibrada em comparação com os objetivos dentro de campo.

Este tipo de comportamento, indo ao extremo de punir o jogador por recusar uma alta oferta de um clube estrangeiro, é agravado pela venda em atacado feita na temporada anterior, quando Nicolas Pépé, Rafael Leão, Thiago Mendes, Anwar El Ghazi e Youssouf Koné foram negociados por um valor combinado de mais de € 140 milhões.

Não se pede que o Lille tente manter todas suas estrelas ou que aja no mercado de transferências como um clube comprador – mas tampouco que se esqueça do lado esportivo a ponto de desencorajar de maneira tão inortodoxa uma atitude louvável como a de Soumaré. O recado passado aos torcedores é de que ali está primeiro uma empresa, e só depois um clube de futebol. Uma inversão de valores que, mesmo situada no tempo em que está, soa bizarra.