Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast Olimpicast. 

Nas eternas discussões de mesa de bar sobre o valor do torneio olímpico de futebol, há apenas uma certeza: de que os títulos do Uruguai nos jogos de Paris-1924 e Amsterdã-1928 têm o peso de uma Copa do Mundo. Tanto que essas conquistas ajudaram a impulsionar a decisão da Fifa de trazer seu primeiro Mundial, em 1930, para a América do Sul. E a seleção uruguaia é a única a ter o direito de ostentar essas estrelas em seu uniforme como títulos mundiais que de fato são.

Um dos responsáveis por três das quatro estrelas douradas na camisa hoje envergada por Cavani e Suárez chama-se José Pedro Cea Urrutia, ou “El Vasco”. Ele nasceu em 1.º de setembro de 1900, nos subúrbios de Montevidéu, e dividia seu tempo na infância entre correr atrás da bola e ajudar os vendedores de gelo que distribuíam a preciosa mercadoria pelas ruas da capital num tempo sem geladeiras – os caminhões passavam com barras enormes e os moleques iam quebrando as pedras e levando porções individuais para as casas em troca de algumas moedas.

Cea cresceu e se firmou como jogador no Centro Atletico Lito, um dos pioneiros do futebol uruguaio. Lá fardavam outros futuros campeões pela Celeste, como Hector Castro, “el Manco”, e Jose Nasazzi. Em 1922, quando o futebol uruguaio viveu uma cisão puxada pelo Peñarol, que se aproximava do profissionalismo, o Lito se dividiu em dois para jogar as duas ligas: um time “redondo” e um “quadrado”, dependendo da forma do escudo utilizado. Cea jogou pelos “redondos”, que disputaram o torneio oficial sem a presença dos carboneros.

E o desempenho do “Vasco” chamou a atenção. Ágil, sem medo das divididas apesar do porto franzino e incansável no vaivém exigido de um meia nas formações com cinco atacantes, ele chamou a atenção do técnico Leonardo de Luca e foi convocado para defender o Uruguai no Sul-Americano de 1923, realizado em Montevidéu. Seu primeiro gol pela seleção foi contra o Brasil, decidindo uma apertada vitória por 2 a 1. O título veio com um 2 a 0 sobre a Argentina, e garantiu o direito de jogar a Olimpíada em Paris, no ano seguinte. Seria a primeira vez que uma seleção sul-americana disputaria o futebol, que na edição anterior, em Antuérpia, já se tornara um dos esportes mais atraentes do programa.

Cea em foto posada

Foi uma viagem longa, de terceira classe, mas que valeu cada segundo. Cea disputou as cinco partidas como titular, e deixou dois gols logo na estreia, um 7 a 0 sobre a Iugoslávia que mostrou a todo mundo: aquele time de camisas azuis claras não estava lá a passeio, com seu toque de bola rápido e insinuante; nas oitavas, 3 a 0 sobre os Estados Unidos; nas quartas, 5 a 1 sobre a anfitriã França. O mais curioso é que os torcedores locais, encantados com a beleza do jogo uruguaio, nem se importaram com o massacre e passaram a torcer por seus algozes.

Nas semifinais, contra a Holanda, os rivais abriram o placar no primeiro tempo com Cornelis Pijl, lenda do Feyenoord. E Cea apareceu para igualar aos 17 do segundo tempo, numa jogada individual que lhe rendeu uma alcunha que o seguiria pelo resto da carreira: “El Empatador”. Scarone virou, de pênalti, já aos 36 do segundo tempo, aquele que foi o jogo mais difícil da campanha. Na decisão, 3 a 0 sobre a Suíça, gols de Petrone, Cea e Romano, para delírio dos oficialmente 40 mil espectadores que abarrotaram o estádio de Colombes (se fala em 60 mil se acotovelando nas arquibancadas e outros 10 mil deixados do lado de fora dos portões). No vídeo abaixo dá para sentir um pouco da festa e até ver que uruguaios e suíços dão a volta ao campo após a premiação no que seria o primeiro ensaio de volta olímpica – depois consagrada definitivamente por Adhemar Ferreira em Helsinque-1952.

Cea voltou à Europa no ano seguinte emprestado para defender o Nacional, seu clube de coração, durante uma excursão, mas continuou defendendo o Lito nos campeonatos locais até 1928, ano em que foi chamado para voltar à seleção para defender o ouro nos Jogos de Amsterdã. De novo, foi titular nas cinco partidas, mas marcou só um gol – fundamental: nas semifinais, contra a Itália, os europeus saíram na frente com Adolfo Baloncieri, aos 9 minutos, mas “El Empatador” marcou aos 17. O Uruguai venceu por 3 a 2 e foi para a final contra a rival Argentina. O empate por 1 a 1 em 10 de junho forçou um jogo de desempate, três dias depois, vencido pela Celeste, agora Celeste Olímpica, por 2 a 1.

Dois anos depois, já como jogador contratado pelo Nacional, Cea tinha 29 anos e era um dos mais experientes daquele que teve a honra de ser o primeiro time da casa de uma Copa do Mundo. Revelou-se também um goleador, marcando o último nos 4 a 0 sobre a Romênia e três nas semifinais, nos 6 a 1 contra a Iugoslávia, inclusive… o de empate, já que os europeus haviam saído na frente aos 4 minutos, com Vujadinovic.

Na decisão, de novo contra a Argentina, Cea iniciou a jogada do gol de Dorado, que abriu o placar aos 12 minutos. Mas os visitantes viraram ainda na etapa inicial, com o artilheiro Stabile e Peucelle. No segundo tempo, já se passavam 12 minutos quando Cea recebe passe pelo alto de Scarone, mata no peito e, como de costume, empata a partida. Iriarte e seu velho amigo Castro definiram a conquista dos donos da casa. Cea foi o único jogador a estar presente em todas as partidas das três conquistas, e divide com os húngaros Puskas e Czibor o feito de serem os únicos a marcar tanto em final de Copa como de Olimpíada – os magiares, porém, como se sabe, foram ouro em Helsinque-1952, mas acabaram derrotados na decisão de 1954, na Suíça.

O “Vasco” ainda teve tempo de ganhar um título uruguaio em 1934, pelo amado Nacional, antes de se aposentar. Neste vídeo há alguns lances esparsos que o tempo preservou. Virou técnico, e comandou a Celeste em mais uma taça conquistada em casa, o Sul-Americano de 1942. Depois, seguiu carreira como comentarista e acompanhou o futebol de perto até sua morte, em 1970, 17 dias depois de completar 70 anos.

Um último detalhe: em 16 de julho de 1950, José Pedro Cea estava no Maracanã acompanhando o bi (ou seria tetra?) de sua seleção, com direito a um emocionado depoimento pelo rádio que pode ser conferido no vídeo abaixo. Porque, pelo visto, o Uruguai não poderia ser campeão, ainda mais de virada, sem que “El Empatador” estivesse presente.