A ideia surgiu depois da primeira visita de equipes italianas ao Brasil. O Pro Vercelli e o Torino apareceram por essas bandas em 1914 para amistosos e encantaram a grande colônia de imigrantes que já havia se estabelecido no país. Ingleses (SPAC), escoceses (Scottish Wanderers) e alemães (Germânia) tinham os seus clubes de futebol. Natural que os italianos quisessem criar o deles, mas precisavam encontrar uma forma de convocar os interessados. Sem a possibilidade de abrir um evento no Facebook, foram atrás de um jornal que conversasse com os seus conterrâneos. Encontraram no Fanfulla o veículo perfeito para a missão.

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Em 14 de agosto daquele ano, foi publicada uma carta que clamava “pela formação de um quadro italiano de futebol em São Paulo”. Foi escrita por Vicente Ragognetti, jornalista, poeta e escritor. Compareceram 46 pessoas à reunião que fundou a Societá Sportiva Palestra Itália e Ezequiel Simone foi seu primeiro presidente eleito. Em 19 de agosto, o anúncio da criação do clube foi publicado no Fanfulla.

Tamanha ligação com o jornal era justificada. Fundado em 1893 pelo imigrante Vitaliano Rotellini, a publicação ajudava os imigrantes a manterem os seus laços com a Itália, veiculando notícias do país na língua dos seus leitores. Em uma cidade em que os italianos eram tão numerosos quanto os brasileiros nativos, o Fanfulla chegou a ter uma tiragem de 15 mil exemplares em 1910 – apenas 5 mil a menos que O Estado de São Paulo naquela época – e foi o primeiro jornal do país a ter linotipos canadenses.

Possuía uma postura crítica e defendia os interesses trabalhistas, os direitos dos imigrantes italianos, o Estado Laico e a democracia. A filosofia progressista foi fraquejando à medida em que o movimento fascista ganhava força na Itália. Segundo o livro O Fascismo e os imigrantes italianos no Brasil, de João Fábio Bertonha, o Fanfulla foi pouco a pouco aderindo às ideias de Benito Mussolini, até que, em 1923, as defesas do regime superavam as críticas. O governo totalitarista italiano assumiu o controle do jornal em 1934 e o usou para influenciar os imigrantes até 1942, quando o Brasil rompeu relações com o Eixo e passou a intervir na publicação.

Apesar de tudo isso, o Fanfulla sobreviveu. Como também sobreviveu à mudança de gerações, com pessoas que já se sentiam mais brasileiros do que italianos. Como sobrevive até hoje, mesmo que discreta e modestamente.

Em 1965, o jornal parou de ter periodicidade diária e passou a ser semanal. O nome mudou para “La Settimana”, e o original “Fanfulla” desapareceu até 1979, quando foi reincorporado ao título: “La Settimana Del Fanfulla”. Voltou a ser apenas “Fanfulla” em 2001, quando a gestão já era responsabilidade de Dona Marianita, viúva do antigo dono Sandro Del Moro, falecido em 1981. Dona Marianita ficou à frente do jornal até 2009, quando Leonardo Dellarole assumiu a gerência.

Esse produtor musical com formação em rádio e TV é o responsável por tudo o que envolve o Fanfulla hoje. Ele criou o site e mudou a periodicidade do jornal para quinzenal. Enfrentou todas as dificuldades pelas quais os jornais grandes também passaram ao tentar competir com a internet e manteve a edição impressa até o final de 2013. Era, naquela época, o veículo mais antigo em circulação na cidade, ao lado do Estadão. Mas o Fanfulla agora existe apenas na versão online. “Fui eu que tomei a decisão”, assume Dellarole. “Muitos antigos seguidores, muito adeptos do conteúdo, criticaram e eu fui um pouco crucificado, mas dada a atual situação, fiz isso com a opinião de alguns familiares e colaboradores. Foi uma reflexão simples do que está acontecendo hoje e sobre a promessa de um futuro próximo.”

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O jornal não dava prejuízos para Leonardo. Com o dinheiro de anunciantes e das assinaturas (R$ 120 reais anuais, cerca de R$ 5 por exemplar), conseguia cobrir as despesas. As edições eram enviadas por correio para os assinantes e a distribuição era reduzida a alguns pontos estratégicos, como restaurantes tradicionais, patronatos e o consulado italiano. A tiragem, “razoável, segundo ele”, era de 5 mil exemplares. “A questão é que não estava ruim e nem excelente e não dá para viver a vida inteira no ‘elas por elas’. Decidi mudar o rumo para ver se muda alguma coisa. Agora a gente conta com a possibilidade de atingir um público maior e diferenciado, não mais o segmentado da cultura italiana, mas essa essência vamos sempre manter. As empresas tendem a ter uma divulgação maior de marca se o jornal não atende apenas a um nicho específico”, explica.

Leonardo tem o direito de tomar essa decisão porque é editor-chefe, repórter, estagiário e diretor do Fanfulla. É o único responsável por subir as notícias no site, exceto por colunistas esporádicos, e a redação é sua própria casa. “Atualmente, sou só eu. Totalmente autônomo e individual e, na maior parte, intelectual”, diz. Ele mantém a linha bilíngue do site, adaptando notícias da agência de notícias italiana Ansa e de outros portais. Não traduz as matérias em português para italiano e vice-versa por falta de recursos humanos. Às vezes a notícia é publicada em uma língua, às vezes na outra, sem um critério estabelecido.

Ele não tem formação de jornalista. Formou-se em seu curso na Universidade Anhembi Morumbi ao mesmo tempo em que assumiu a bronca de tocar o Fanfulla, aos 21 anos. “Eu me interessei porque entendi um certo potencial, de modo um pouco ilusório, porque realmente não tem grande potencial. É uma publicação segmentada, de conteúdo bilíngue. Mas provavelmente se ninguém se interessasse, o veículo acabaria morrendo”, comenta. Como o site não é muito lucrativo, ele completa a renda com produção musical e realização de eventos. Descendente de italiano, sempre foi fã da cultura do país, mas não era fluente na língua. Hoje, depois de vários cursos, considera ter um nível “avançado” e ainda precisa das maravilhosas ferramentas que a internet dispõe para traduzir, descobrir o significado das palavras e até conjugar verbos.

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Chegou a ter uma parceria com o Palmeiras em algumas épocas. A última acabou há cerca de três anos e era uma coluna que o clube enviava, chamada “Palmeiras: história tradição e legado”, com jogos marcantes e fatos históricos. Nenhum que ele lembraria de cabeça porque, além não ser muito ligado ao futebol, tem outro probleminha: é corintiano. “Por incrível que pareça, escolhi o time que eu menos deveria ter escolhido”, brinca. “Foi por uma falta de influência familiar. Não tem nenhum palmeirense na minha família, nem fanático por futebol. Escolhi de forma meio independente.”

De qualquer forma, Leonardo reconhece a importância do Fanfulla, a primeira versão de uma mídia palestrina, se pudermos considerá-la assim, para a história do clube de Palestra Itália e mesmo para a imprensa em geral. E certamente fará de tudo para manter esse legado vivo enquanto puder. “Eu me sinto honrado, tenho orgulho. Acho até responsabilidade demais para alguém do meu calibre. Mas o interesse pela publicação foi para não deixar morrer esse veículo histórico, que contribuiu para muita coisa, não só para a formação do Palmeiras, mas para o desenvolvimento da comunidade italiana e para o fortalecimento da imprensa de modo geral.”