Jorginho era uma instituição ao Flamengo. O massagista trabalhava no clube há 40 anos, funcionário mais antigo da casa, e vivia o dia a dia rubro-negro intensamente. Não tinha o reconhecimento público de um Zico, de um Júnior, de um Adriano ou de um Gabigol, mas cuidou de todos eles para que chegassem em seu melhor dentro de campo. E o reconhecimento maior, afinal, vinha de quem convivia com Jorginho nos corredores. De quem sabia sua importância dentro do Fla. De quem conhecia o ser humano, a pessoa querida. De quem sentirá sua falta. Jorginho entra para as estatísticas como mais uma vítima da COVID-19, mas, assim como cada um dos mais de 7 mil mortos no Brasil, nunca será apenas um número.

Jorginho tinha 68 anos e começou a trabalhar no Flamengo em 1980, trazido da Portuguesa da Ilha. Era um verdadeiro elo entre as conquistas da Libertadores e entre todos os outros grandes times que os rubro-negros montaram nestas quatro décadas – ao lado de Denir, outro massagista emblemático do Fla, indicado pelo próprio “titular da posição” em 1981. “Tio Jorge”, como era carinhosamente tratado pelos jogadores, faturou 31 títulos enquanto integrou as comissões técnicas rubro-negras. Apesar de já afastado da rotina dos jogos, seria um “talismã” levado de volta à reta final da Libertadores em 2019.

Além disso, craque em seu ofício, Jorginho também integraria a comissão técnica da seleção brasileira em uma Copa do Mundo. Voltaria com o pentacampeonato mundial em 2002, dando sua contribuição à redenção de Ronaldo em Yokohama. Diagnosticado com a COVID-19, Jorginho passou as duas últimas semanas internado em um hospital da Ilha do Governador, onde residia. Nesta segunda, não resistiu a uma parada cardiorrespiratória e faleceu. Tio Jorge deixa a esposa Helena, duas filhas e cinco netos.

Diversos craques históricos do Flamengo prestaram seus tributos a Jorginho. O elenco atual tentou levá-lo a um hospital com melhor estrutura, o que não foi possível por suas condições de saúde. E a perda de Tio Jorge, além da irreparável dor à família e do pesar ao Fla, também levanta o essencial questionamento sobre a volta do futebol neste momento em que a curva permanece em ascensão no Brasil. O esporte não deveria servir como uma mera ferramenta, nem como um laboratório e não pode levar em consideração apenas o lado econômico. Existem vidas em jogo e, por mais que os integrantes dos grupos críticos sejam poupados, isso não anula os riscos a outras pessoas. Histórias se perdem, muito além dos números frios.

Enquanto guarda luto, o Flamengo recebe os resultados dos exames realizados na última semana para a volta aos treinamentos. A decisão do clube só deverá ser tomada após avaliarem a dimensão da situação de seus funcionários através dos testes. O adeus a Jorginho de uma maneira tão triste, contrastante à alegria que ele representava dentro do centro de treinamentos, deveria influenciar essa posição. Que o tributo do Flamengo não se limite a menções, mas também gere ações.

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Deixará muitas saudades Tio Jorge descansa em paz 😭

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