O Equador está entre os países da América do Sul que mais apostam em treinadores estrangeiros. Sua liga nacional é repleta de forasteiros – ainda que um dos melhores comandantes da última edição tenha sido o local Paúl Vélez, do Macará. Os espanhóis estão em alta, entre a direção de Ismael Rescalvo no Emelec e o sucesso de Miguel Ángel Ramírez com o Independiente del Valle. E a federação também pensou além das fronteiras para buscar o novo técnico de sua seleção. Após os fortes rumores surgidos nas últimas semanas, Jordi Cruyff assumirá a batuta de La Tri rumo às Eliminatórias da Copa de 2022.

A apresentação de Jordi Cruyff aconteceu em meio ao anúncio de um amplo projeto de renovação da federação equatoriana. Até mesmo o escudo da seleção foi alterado. Os dirigentes visam uma integração total das categorias formativas com a seleção principal, em reestruturação conduzida por Jorge Célico, antigo treinador da Universidad Católica local. Está prevista a construção de 500 campos pelo país, que servirão a um projeto social, também com a intenção de revelar talentos. O Estádio Atahualpa será demolido ao final de 2020, com a abertura de uma arena mais moderna, enquanto será aberto um novo CT em Guayaquil. E há a promessa de se explorar mais os recursos tecnológicos para auxiliar o desenvolvimento das equipes.

“Queremos fazer uma mudança integral em nosso futebol, por isso introduzimos ferramentas e tecnologia em nossos processos. Logicamente, queremos resultados e vamos conseguir isso trabalhando juntos”, declarou Francisco Egas, presidente da federação. “Buscamos uma comissão técnica que tenha um futebol enérgico e dinâmico. Que busque valores dentro e fora de campo. O estilo de jogo que se aplique às nossas fortalezas”. Enquanto Jordi Cruyff cuidará da equipe masculina, a brasileira Emily Lima foi levada ao time feminino em dezembro.

Confiar em treinadores estrangeiros não é uma novidade para a seleção do Equador. Ao longo de sua história, vários gringos passaram pela casamata equatoriana. Havia um conexão especial com os uruguaios campeões do mundo em 1950, que inclui as passagens de Juan López, Roque Máspoli e Juan Eduardo Hohberg. Já a partir de 1988, Dusan Dráskovic comandou mudanças significativas. O iugoslavo tinha experiência limitada a clubes medianos de seu país e recebeu o convite da FEF. Introduziu métodos inovadores à época, sobretudo na preparação física e técnica. Como resultado, La Tri ficou mais competitiva e chegaria à semifinal da Copa América em 1993, quando foi anfitriã. Dráskovic sairia no ano seguinte, rumo ao Bragantino.

A continuidade foi conduzida pelos colombianos. O Equador praticamente se espelhou no país vizinho e trouxe quatro treinadores com histórico na seleção cafetera. Deu certo e La Tri ascendeu à Copa do Mundo. Francisco Maturana, Hernán Darío Gómez, Luis Fernando Suárez e Reinaldo Rueda moldaram gerações equatorianas excelentes, elevando o patamar da equipe nacional. Todavia, o Equador mostrou-se sem tantos rumos no último ciclo. O boliviano Gustavo Quinteros assumiu após ganhar fama com o Emelec, mas logo se tornou insustentável. A volta de Bolillo Gómez, por sua vez, seria desastrosa. Quem quebrou um galho foi Célico, interino por duas vezes desde 2017, enquanto orientava o projeto da base.

Jordi Cruyff é a confiança em uma “grife”, sobretudo, e em um ideal de jogo. O herdeiro de Johan Cruyff estava mais propenso a trabalhar como diretor esportivo, mas assumiu interinamente o Maccabi Tel Aviv em 2017 e teve um bom rendimento com o clube israelense. Virou aposta no Campeonato Chinês em 2018 e passou mais de um ano no Chongqing Lifan, longe de impressionar. Sem dúvidas, o holandês terá a maior oportunidade de sua carreira ao dirigir a seleção equatoriana, por mais que o futebol do país não possua jogadores tão badalados no momento.

Jordi professa a mesma fé que Johan e, pelo menos em suas entrevistas ou em suas colunas, demonstra também uma maneira diferente de observar o futebol. Colocar isso em prática nem sempre é tão fácil, sobretudo no Equador, que muitas vezes dependeu mais da capacidade física de seus jogadores do que se valeu da qualidade técnica. Praticar um futebol de posse de bola, como costuma defender em suas conversas, dependerá de uma dedicação minuciosa do técnico. Em sua história recente, La Tri prezou por um estilo mais vertical e direto.

Para tanto, Jordi Cruyff terá que aproveitar as novas fornadas das categorias de base, com destaque aos garotos semifinalistas no Mundial Sub-20 de 2019. Ainda assim, é um trabalho que requer tempo e paciência. Pelo estágio dos equatorianos em relação a outras seleções do continente, não dá para cobrar uma vaga na Copa do Mundo. Mas, a partir dessas novas peças, o holandês pode encontrar um caminho para fazer suas ideias vingarem de forma mais duradoura – quem sabe, firmando novos talentos internacionalmente.

O momento dos clubes pode ajudar. O Independiente del Valle faz um excelente trabalho na formação de promessas e mostrou um estilo de jogo agressivo, mesmo sem tantos recursos. Da mesma forma, Delfín e Macará vivem sua ascensão, enquanto a LDU Quito fez uma boa campanha na última Copa Libertadores. O maior desafio a Jordi Cruyff será começar um trabalho praticamente do zero. Até pela quebra de expectativas que aconteceu nas Eliminatórias da Copa de 2018, com uma campanha que despencou, o desalento tomou La Tri.

Jordi Cruyff emprestará seu nome como uma chancela, mas sua importância deve ir muito além. Considerando a transformação prometida pela federação equatoriana, o holandês oferecerá suas ideias também nos bastidores. De qualquer maneira, seu compromisso estará dentro de campo, à frente da etapa final do processo de formação. As cobranças pelos resultados virão, apesar da projeção em longo prazo. O novato terá que mostrar seus predicados como treinador, e o desafio já começa cedo, com os duelos contra Argentina e Uruguai logo nas duas primeiras rodadas das Eliminatórias.