Há um certo momento da carreira em que a vontade pode não bastar mais. Um momento em que os anos de trabalho intenso e de esforço constante fazem o corpo cobrar seu preço. A trajetória de um jogador profissional é feita de rotinas, mas também de recomeços, que sempre testam a mente na hora de seguir em frente. Que geram mais e mais provações, à medida que a idade avança. E, por mais que o desejo prevaleça, sábios são aqueles que reconhecem a hora de se despedir. De parar sem trazer um ônus ao próprio físico, ao próprio psicológico e à própria imagem. Jonas passou os últimos meses lidando com as contusões. As dores nas costas, sobretudo, limitaram sua presença em campo pelo Benfica. Então, aos 35 anos, o centroavante reconheceu a necessidade de parar. Nesta terça-feira, anunciou sua aposentadoria do futebol.

Jonas merece ser lembrado pelo último ato apaixonado com a camisa do Benfica. O atacante não teve uma participação tão preponderante na conquista do último Campeonato Português, justamente por seus problemas físicos. Contudo, providenciou alguns gols e uma das imagens mais emocionantes avistadas no clube, ao entrar no segundo tempo da goleada sobre o Santa Clara, que definiu a taça. Não escondeu as lágrimas que vertiam em seu rosto, aplaudidíssimo no Estádio da Luz. Entrou no lugar de João Félix e pôde comemorar mais uma conquista pelo time. A agremiação que, no fim das contas, marca o ápice de sua carreira profissional.

Naquele momento, Jonas ainda tinha um ano de contrato a cumprir e ganharia certo tempo para pensar em suas possibilidades. Certamente teria o espaço necessário para continuar no Benfica ou, se assim desejasse, voltar ao Brasil. Mas só ele sabia o que o esforço de tanto tempo significava ao prolongamento da caminhada. E a emoção no Estádio da Luz indicava a decisão mais provável. Com a cabeça descansada pelas férias, de volta à pré-temporada dos encarnados, o veterano realmente confirmou que aquele seria o último ato em competições oficiais. Com um sorriso no rosto, mas olhos um tanto quanto marejados, o anúncio foi feito pelas redes sociais benfiquistas nesta terça.

“Olá apaixonados torcedores do Benfica, gravo este vídeo para informar, junto com o Benfica, que neste momento da minha vida decidi encerrar minha carreira de jogador profissional de futebol. E, como não poderia ser diferente, quero celebrá-lo com muita alegria, juntamente com cada um de vocês. Convido a todos para que amanhã, a partir das 19h30, vocês compareçam ao Estádio da Luz para darmos início a mais uma temporada e também, os momentos finais da minha carreira profissional de futebol. Contamos com a presença de todos. Um grande abraço, nos vemos amanhã. Carrega, Benfica!”, declarou Jonas, no vídeo oficial.

Espera-se uma despedida tocante no Estádio da Luz nesta quarta-feira, mesmo que o evento seja divulgado na véspera. Há um carinho imenso da torcida do Benfica por Jonas. O atacante possui um grande significado neste período de reafirmação do clube na década, garantindo o inédito tetracampeonato português. Não foram poucos os jogos em que o “Pistolas”, como é afetivamente chamado pela torcida, carregou as esperanças dos lisboetas e garantiu resultados importantes com seus gols. Acumulou expressivos 110 tentos em 132 aparições pelo Campeonato Português, além de 137 gols em 183 partidas na lista geral do clube.

É difícil dimensionar a posição de Jonas como ídolo histórico do Benfica, um clube com tantos jogadores excepcionais em seu passado. Porém, os feitos construídos nestes cinco anos garantem o atacante ao menos no rol de grandes lendas encarnadas neste século. Não é pouco. Por seus desempenhos extremamente efetivos no Estádio da Luz, será exaltado como uma das referências de uma geração de torcedores. Imagens de sucesso não faltam, entre seus quatro títulos da liga, as três artilharias e os dois prêmios como o melhor da competição.

E, a bem da verdade, o Benfica ajuda a conferir também o digno lugar de Jonas no futebol. O centroavante revelado pelo Guarani teve os seus altos e baixos na carreira, com as lesões limitando sua primeira grande chance, no Santos. Depois de um início reticente no Grêmio, recuperou-se na Portuguesa e, com méritos, voltou ao Olímpico para se colocar entre os melhores de sua posição no país, a ponto de ganhar as primeiras chances na Seleção, além de angariar a artilharia do Brasileirão em 2010. Todavia, muitas vezes os rótulos pesaram mais que suas aptidões. Um infeliz tento perdido contra o Boyacá Chicó o estigmatizou também por outras chances que desperdiçava.

Jonas ainda deixou o Grêmio com o justo reconhecimento da torcida, autor de 78 gols pelo clube, a maioria assinalada no biênio entre 2009 e 2010. Graças à multa rescisória baixa, se despediu dos tricolores para assinar com o Valencia, desembarcando na Europa às vésperas de completar 27 anos. Comprovou que, como alguns centroavantes, seu aperfeiçoamento veio com o tempo. A curva ascendente do matador continuou no Mestalla. A ponto de viver algumas temporadas notáveis com o clube no Campeonato Espanhol, encabeçando o time em classificações à Liga dos Campeões. Entre a boa movimentação e o instinto de goleador, o camisa 9 mantinha sua regularidade. Até que o pico acontecesse em seus cinco anos com o Benfica, extrapolando o que se via com os valencianos.

Pode-se até questionar o nível do Campeonato Português, o que não é justo. Não se diminui a efetividade de um atacante que, em suas melhores temporadas, manteve média próxima de um gol por jogo. Jonas tornou-se uma certeza no Estádio da Luz, voltando até à Seleção. Recompensou a torcida com doses cavalares de confiança, muita precisão diante das redes e um arsenal cada vez mais completo nos arredores da área. Acima dos 30 anos quando desembarcou em Lisboa, era natural que os problemas físicos atravancassem um pouco mais suas sequências. Mas também viveu suas revoluções e deu suas voltas por cima. Apesar das dores, assinalou 11 tentos em 22 partidas na última edição da liga, chegando a balançar as redes em seis rodadas consecutivas. Até mesmo o encerramento seria pródigo.

A passagem final da carreira de Jonas consegue superar o começo e o meio. Indica principalmente o trabalho de quem se empenhou para evoluir e para crescer em suas virtudes. Um grande atacante, dos melhores que o Campeonato Português e, afinal, também o Brasileiro tiveram nesta década. Os 35 anos deixam uma impressão de que o atacante teria um pouco mais de lenha para queimar, seja em mais alguns meses na Luz, seja em um possível retorno ao Brasil. Está em seu direito de parar no alto, contribuindo a mais uma taça dos encarnados. Sai com a cabeça erguida. E com motivos para, além de encher os olhos marejados com a gratidão expressa, também manter o sorriso no rosto por tudo o que construiu. O Estádio da Luz simbolizará a sua aura no adeus desta quarta.