John Robert Mills possuía uma sede constante pelo saber. E, mais especificamente, uma sede constante pelo saber voltado ao futebol. Nascido em Vigo, filho de pai inglês e de mãe basca, o escritor migrou à América do Sul durante a juventude. Viveu durante um tempo no Peru, até desembarcar no Brasil em 1969. Até se tornar um dos maiores especialistas sobre o futebol brasileiro, debruçado sobretudo às origens da modalidade no país. Como principais obras, o pesquisador assinou dois livros que abordam a vida de Charles Miller e a introdução das regras do futebol. No entanto, o legado de “seu John” é bem maior. Deixou um exemplo de dedicação ao futebol, sempre interessado, sempre atento, sempre generoso. Fez muitos amigos e admiradores, pela paixão evidente ao esporte bretão. Aos 80 anos, Mills faleceu na última segunda-feira, vítima de um câncer contra o qual vinha lutando nos últimos anos.

A vinda de John Mills ao Brasil deveria ser temporária, a trabalho. Decidiu ficar muito mais, oferecendo sua enorme contribuição ao futebol brasileiro. Logo em seus primeiros anos no país, Mills passou a frequentar o SPAC, o São Paulo Athletic Club, antigo clube de Charles Miller. Além de praticar futebol, também começou a pesquisar as origens do clube e, consequentemente, da modalidade. Tornou-se o grande especialista na vida de Charles Miller, convivendo com familiares do “pai do futebol brasileiro”.

 

O primeiro livro de John Mills sobre o tema foi “Charles William Miller, 1894/1994”, publicado em 1996. Já em 2005 veio “Charles Miller, o pai do futebol brasileiro”, ainda mais aprofundado na biografia do pioneiro e com mais detalhes sobre os primórdios do futebol no país. O historiador não negava que outras pessoas haviam ‘batido sua bola’ no Brasil antes de Miller. No entanto, apresentava elementos suficientes para mostrar como o paulista introduziu as regras e realizou o primeiro jogo oficial no país. Seus relatos cuidadosos possuíam toda a riqueza da pesquisa, entre os depoimentos que ouviu, os documentos que conferiu, os jornais antigos que pesquisou.

Por seu trabalho sobre Charles Miller, John Mills se manteve como uma referência. Participou do projeto que demarca com placas os chamados “pontos cardeais do futebol brasileiro” em São Paulo. Da mesma maneira, ajudou na instituição do “Dia em Memória do Futebol Brasileiro”, comemorado em 24 de novembro. Sua participação em programas e reportagens era constante, sempre solícito. Aliás, era o tipo de pessoa que se dispunha a compartilhar conhecimento com qualquer um, de estudantes a jornalistas renomados. A voz calma e a memória privilegiada eram suas marcas, unidas à simpatia.

Seu John, além do mais, nos deu a honra de ser leitor da Trivela – enquanto seu filho, Robert Mills, foi colunista de futebol espanhol no site. E um episódio que evidencia sua figura gentil aconteceu com este que vos escreve, há um ano e meio. O avô de John Mills foi um dos fundadores do Athletic Bilbao. Embora dividisse sua paixão com Corinthians, Arsenal e Juventus, o fanatismo dele (e de seus filhos) pelos Leones era enorme. Tanto é que, após ler aqui no site dois textos sobre o clube (uma homenagem ao goleiro Gorka Iraizoz em seu adeus e uma lembrança sobre Guernica relacionada ao escudo do time), o pesquisador decidiu procurar meu telefone com um amigo em comum e me ligou apenas para elogiar os artigos.

Conversamos por bons minutos, especialmente sobre as ligações de Seu John e de sua família com o Athletic. Ao final da chamada, antes de desligar, o historiador queria se certificar que eu gravaria seu número na memória do meu celular. Disponibilizou-se a falar quando eu desejasse, seja para saber mais sobre o Athletic, seja para escrever sobre Charles Miller, seja para bater papo sobre um assunto qualquer relacionado ao futebol. Assim era Seu John, e meu relato certamente é compartilhado por outros jornalistas – amigos inclusive, que prestaram seus tributos diante da notícia do falecimento do ‘professor’ neste Natal.

Abaixo, em homenagem a John Robert Mills, reproduzimos os trechos de “Charles Miller, o pai do futebol brasileiro” disponíveis no Google Livros. Fica a sugestão de leitura a uma obra de referência, utilizada aqui na Trivela especialmente nos artigos sobre os 120 anos do futebol no Brasil. Um singelo agradecimento à contribuição do historiador, à sua cortesia e ao seu exemplo.