Em Jedá, na Arábia Saudita, Brasil e Argentina fizeram um desses Superclássicos das Américas. Sim, em uma cidade do Oriente Médio. Nem no Brasil, nem na Argentina, como no ano passado o clássico aconteceu na Austrália. Assim como daquela vez, o jogo não foi grande coisa. Foi como assistir a algum filme ruim dos anos 1980 na sessão da tarde. Com a diferença que não era algo dos anos 1980 com uma dublagem engraçada. Mas no resto, é aquela coisa: muitas cenas familiares, meio sem graça, que você não lembra nem se já assistiu ainda ou não, mas que no fim faz pouca diferença. O Brasil venceu praticamente no apagar das luzes, 1 a 0, com um gol do zagueiro Miranda, de cabeça.

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Tite surpreendeu na escalação. Mudou o meio-campo, mantendo Casemiro, mas escalando Arthur, sem Fred e Renato Augusto. Isso porque o time passou a ter mais um jogador ofensivo, com uma linha de ataque com Neymar, Coutinho e Gabriel Jesus, a surpresa, pela direita. Mais avançado, Roberto Firmino.

Bom para Arthur. O meio-campista do Barcelona mostrou capacidade e bola para ser o titular do time. Mais que Fred, mais que Renato Augusto. Gabriel Jesus, por sua vez, não aproveitou tão bem a chance de atuar no ataque, mais aberto pela direita. Mas ninguém teve uma atuação pior que Philippe Coutinho, no Brasil.

O time passou a jogar em um 4-4-2 sem a bola, com Coutinho pela esquerda, Jesus pela direita e Neymar e Firmino à frente. Jesus, dedicado, cumpriu a função, embora sem conseguir ser importante ofensivamente. Uma formação que foi usada, rapidamente, em um jogo contra o México, no segundo tempo das oitavas de final da Copa.

Em termos de chances de gol, o Brasil foi até melhor, sim, embora a Argentina tenha dado lá suas descidas eventuais. O que o jogo teve, e muito, foram divididas. Faltas demais, futebol de menos. Faltaram soluções para o ataque do Brasil ofensivamente. Algumas jogadas eventuais, individuais, normalmente, mas nada muito além disso. Poucas jogadas elaboradas.

Na Argentina, o técnico Lionel Scaloni levou a campo uma equipe com poucos jogadores experientes. O capitão foi Sergio Romero, goleiro que ficou fora da Copa por lesão. Nicolás Otamendi, zagueiro, também esteve em campo e foi um dos que estiveram na Rússia a serem mantidos no elenco. Nicolás Tagliafico, lateral esquerdo, Acuña, Lo Celso, Salvio e Dybala todos estavam na Copa. Nenhum deles com papel preponderante. Mauro Icardi e Lautaro Martínez estiveram em campo, um substituindo o outro, como por vezes acontece na Inter. Nenhum conseguiu fazer muito.

Em campo, bom, o gol saiu quando o jogo já estava ali nos instantes finais. Neymar cobrou um escanteio aos 47 minutos da etapa derradeira e Miranda aproveitou um erro coletivo de Otamendi e Romero para se antecipar e cabecear para as redes. Um gol muito comemorado pelo zagueiro, que falou depois do jogo à TV Globo que dedicava o gol à sua esposa, pelo aniversário de casamento. Foi o melhor momento do jogo.

Sim, porque tivemos taça, papel picado e tudo mais após o jogo. O capitão Neymar levantou a taça. Seu primeiro título na seleção, que vale menos que o Interclasses que você já ganhou uma vez na vida na escola. O jogo com a Argentina é sim sempre importante, mas tem sido banalizado por esses amistosos pouco relevantes dentro de um contexto que é ridículo de jogar em um país como a Arábia Saudita, que admitiu a morte de um jornalista crítico ao regime. É de se criticar sim, ainda que o agendamento tenha sido feito muito antes de tudo isso, mas já quando o regime era pouco democrático. Como mostrou Jamil Chade, no Estadão, a CBF vendeu a uma empresa saudita os direitos dos amistosos. A empresa, aliás, fica em Jedá, onde foi o jogo.

O que fica dos amistosos disputados contra Arábia Saudita e Argentina é muito, muito pouco. Tite parece que tentou usar esse período para testar alternativas de jogo. Não foi nada muito promissor. Arthur ganha espaço, mas isso não é exatamente uma novidade, pelo contrário. Era um jogador que poderia (e deveria, aliás) estar na Copa. Firmino parece ser o atual titular, o que é merecido, pelo rendimento dele e pela falta de rendimento de Gabriel Jesus.

Neymar mostrou pouco. É um jogador muito acima da média, mas ainda é preciso encontrar uma forma eficiente de aproveitar o camisa 10. Ainda há muitas arestas a serem aparadas para o time se tornar competitivo e forte para a Copa América que disputará em casa, em 2019. Neymar é o capitão, mas ainda não é um líder. Pode vir a ser. Mauro Icardi se tornou capitão da Inter antes de ser um líder, na temporada 2015/16. Não era, mas se tornou. Só que a vida em um clube é diferente da seleção. Será preciso desenvolver essa liderança e, se Tite o escolheu, que dê elementos para que ele possa vingar assim. Ainda se viu pouco em relação a isso, nada empolgante.

No fim, a cada fim de jogo de data Fifa depois da Copa, a sensação é de quando você está em uma churrascaria e, depois de comer por umas duas horas, o garçom passa oferecendo aquela linguiça. Você já tá tão cheio que começa a pensar que ficará sem comer carne por um mês, pelo menos. Seleção no semestre depois da Copa é essa. Estamos todos cheios de seleção e aí vemos os amistosos como aquele pão de queijo depois do almoço. Fica complicado. Mas é como dizem: o show tem que continuar. E nesse caso, um show por vezes meio patético, tirando a graça até de um Brasil e Argentina.

Neymar levanta a taça do Superclássico das América após vencer a Argentina, na Arábia Saudita (Foto: Pedro Martins/MoWa Press)