Algumas horas depois de a OMS categorizar a epidemia de Coronavírus como uma pandemia, o Liverpool recebeu o Atlético de Madrid pelo jogo de volta das oitavas de final da Champions League. Uma pesquisa britânica aponta que aquela partida, disputada com torcida nas arquibancadas, “multiplicou várias vezes” o contágio em Liverpool, com outro estudo estimando 41 mortes adicionais por causa do jogo.

Dados coletados de milhões de voluntários para a pesquisa Estudo de Sintomas da Covid-19, liderada pelo professor Tim Spector, da King’s College de Londres, mostram que Liverpool foi uma das áreas com o maior número de casos suspeitos na última semana de março, cerca de 14 dias após o jogo. Cheltenham, lar do Festival de Cheltenham, uma tradicional corrida de cavalos na Inglaterra, também está na lista.

Ambos os eventos transcorreram normalmente, com público, e os efeitos puderam ser sentidos pouco depois. De acordo com a pesquisa, entre 5% e 6% da população de Liverpool e Cheltenham entre 20 e 69 anos tiveram sintomas da Covid-19 na semana final de março.

Antes daquele 11 de março, data da partida entre Reds e Atleti e dia em que a OMS declarou a pandemia, a Europa já sofria com contágios em alta. A Espanha, um dos países europeus mais afetados, tinha Madri como um de seus epicentros, e a decisão de permitir que cerca de três mil torcedores do Atlético viajassem até Liverpool já era vista com preocupação. Entretanto, com o governo de Boris Johnson ainda mantendo um discurso de que aglomerações não eram um problema, a partida foi realizada normalmente, e as pessoas se sentiam seguras naquele ambiente.

Em 9 de março, um dia antes do Festival de Cheltenham receber 250 mil espectadores, o Secretário de Cultura do governo britânico, Oliver Dowden, dizia à BBC: “Não há razão para as pessoas não comparecerem a tais eventos ou para cancelá-los a essa altura”.

Outros países europeus, no entanto, já haviam compreendido a seriedade da situação, e eventos em diversos locais haviam sido cancelados, com partidas também acontecendo com portões fechados. Além disso, 290 torcedores do Atlético de Madrid também pareceram compreender o momento, desistindo de ir ao jogo e sendo reembolsados pelo clube.

Para o professor Tim Spector, a decisão do governo britânico teria custado a morte prematura de muita gente. “Acho que os eventos esportivos deveriam ter sido cancelados pelo menos uma semana antes, porque eles causaram sofrimento e mortes adicionais que, de outra forma, não teriam ocorrido”, argumentou.

O governo britânico não é o único culpado pela falta de ação. A Uefa, organizadora da Champions League, era a única entidade de futebol com poder para decidir pelos portões fechados ou pela suspensão da partida, o que seria a decisão sensata mesmo levando em conta os dados daquele momento, que mostravam Madri com mais da metade dos casos de toda a Espanha.

Embora seja difícil apontar números absolutos deste impacto, um outro estudo, do grupo Edge Health, utilizando dados do sistema público de saúde britânico, apontou que a partida entre Liverpool e Atlético de Madrid causou 41 mortes adicionais por Coronavírus. O mesmo estudo indica que, naquele momento, as chances de haver algum infectado em qualquer evento com mais de dez mil pessoas no Reino Unido era de 100%. O que dizer então de um com mais de 50 mil pessoas, incluindo três mil vindas de um dos epicentros do vírus no mundo?