Jogando em clubes diferentes pela 1ª vez, gêmeas lidam com a saudade e fazem planos para aposentadoria

Por Livia Camillo (@licamillo_) e Beatriz Cruz (@biafveracruz), do Papo de Mina (@papomina)

A boa relação entre as gêmeas Natane e Chaiane Locatelli tem um grande aliado desde a infância: o futebol. Desde o começo da carreira, nas categorias de base, as duas sempre treinaram, jogaram e estudaram juntas — além de dividir o quarto em alojamento, vitórias e derrotas dentro de campo. Até que, em 2020, foram separadas pela carreira. Hoje, Natane atua pelo São Paulo e Chaiane pelo Botafogo.

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“Está sendo uma experiência diferente, mas nós permanecemos muito unidas. Conversamos praticamente 24 horas, então eu acabo não sentindo ela tão distante de mim por esse fator. Com a tecnologia, podemos nos ver sempre. Mesmo que seja por videochamada” disse Chaiane em entrevista por videoconferência ao Papo de Mina com a irmã.

 

Na última temporada, ambas atuaram no São Paulo. Natane na lateral-direita e Chaiane no meio-campo. Conciliavam os estudos com o futebol e, desta forma, se formaram em fisioterapia. As duas até já fazem planos para o período após se aposentarem dos gramados: tocar uma clínica juntas.

“Sempre fomos para os mesmos clubes, mas preparadas para caso tivesse que se separar. Isso nunca foi um empecilho na nossa carreira. Eu acredito que o que nos uniu mais foi o fato de, ao mesmo tempo, jogar e estudar. Sempre procuramos ir para clubes em que fosse possível conciliar os dois. Esse ano, depois da faculdade, os planos foram outros”, contou Chaiane.

“Sempre foi um objetivo nosso. Quando tínhamos 15, 16 anos, já estávamos pensando no que faríamos na faculdade, o que faríamos depois do futebol. Então foi uma coisa que sempre foi bem presente na nossa cabeça. Sabemos que o esporte é uma carreira extremamente curta, e devemos nos preparar para esse período pós-futebol”, completou.

Ser gêmea não é marketing

Nesses anos de trajetória no esporte, Natane e Chaiane passaram por alguns episódios de ataques nas redes sociais. Além de sofrerem com o preconceito que atinge o próprio futebol feminino, elas enfrentaram a desconfiança pelo fato de serem gêmeas atuando no mesmo clube. Comentários como “só estão aí porque são gêmeas” são bem blindados pela dupla.

“Muitas vezes esses ataques vêm de torcedores que nem acompanham a modalidade. Nunca assistiram a um jogo para fazer esse tipo de comentário. A gente sabe que o Brasil ainda está em um processo de desconstrução em relação a muita coisa. Então, sabemos que esses ataques vão acontecer. Devemos, em algumas situações, relevar para que isso não afete nosso desempenho dentro de campo e, aos poucos, tenho muita esperança de que as coisas mudem, que o esporte feminino seja mais valorizado”, afirmou Natane.

Trajetória das irmãs

Naturais de Garibaldi, no Rio Grande do Sul, as irmãs iniciaram carreira no futsal, em um time da cidade natal. Depois disso, foram para o futebol de campo. “Como não tinha time feminino, começamos com algumas meninas, mas foi todo mundo desistindo. Então voltamos a treinar com os meninos” relembrou Natane.

Em 2009, foram para a capital para jogar no sub-17 do Porto Alegre Futebol Clube. A convocação para a seleção brasileira sub-17 abriu portas para as irmãs no Avaí Kindermann. Após a passagem pelo Foz Cataratas, chegaram ao Santos em 2014.

Em seguida, tiveram uma curta atuação pelo Vitória das Tabocas, e as irmãs voltaram ao Santos em 2016, onde ficaram até 2018. Com as Sereias da Vila, foram campeãs do Brasileirão A1, em 2017. Em 2019, Natane e Chaiane jogaram no São Paulo, onde também conquistaram o caneco nacional – agora, do Brasileirão A2.

No entanto, por onde passaram, as gêmeas univitelinas, com uma diferença de idade de apenas três minutos, sempre confundiram companheiras e treinadores por onde passaram.

“Dentro de campo, às vezes, eles pegam alguns detalhes para nos reconhecer, por exemplo, a chuteira. O uniforme é o mesmo, mas às vezes o jeito que a gente coloca o meião é diferente, então eles já sabem quem é. As atletas também têm essa dificuldade no começo, mas por conviver – sempre vivemos em alojamento – acaba pegando mais fácil”, contou Natane aos risos.

As gêmeas foram bicampeãs catarinenses, bicampeãs paranaenses, campeãs sul-americanas com a seleção brasileira sub-17, campeãs paulistas e brasileiras pelo Santos e do Campeonato Brasileiro A2 pelo São Paulo.