O que você faria se o maior amor da sua vida lhe fosse negado por todos ao seu redor? Se você fosse impedido de estar perto, de viver com esse amor, de sonhar seus melhores sonhos ao lado dele?

Só fui ter a chance de jogar em um time só de mulheres aos meus 25 anos. Antes disso, vivi o que a maioria das meninas da minha geração viveu. Meninas jogam vôlei, meninos jogam futebol. Meninas dançam axé, meninos jogam no pátio na hora do intervalo.

Ninguém havia me informado que eu não poderia jogar futebol. Mas eu jogava mesmo assim, nos cantos do pátio do recreio. A quadra da educação física era um sonho inalcançável. Mas tudo bem, eu tinha meu joguinho com os amigos no intervalo – ao menos quando ninguém encrencava que eu não podia estar ali. Eu achava que era assim mesmo.

Aos 12 anos eu já era tão fanática por futebol como sou hoje. Lia as escalações no pré-jogo, debatia com meus amigos de escola a formação tática e as contratações. Perdia o sono em todos os meses de dezembro, quando vinha o famigerado desmanche do time. Debater, discutir, zoar os rivais isso eu fazia. Jogar? Aí não. Pois bem, foi assim que o mundo me afastou da minha paixão por jogar bola por muitos anos.

Mas muito além disso, a ideia de futebol que eu tinha não existia por aí. Acho que todos nós, em determinada fase da vida, nos deparamos com isso. Algo que você gostaria muito que existisse, mas não existe. E então, depois de começar a jogar e organizar um campeonato de futebol com amigos do twitter, jogar junto com outras meninas a famosa pelada de fim de semana, ainda assim não encontrava o que eu realmente achava importante no futebol feminino.

Não queria ganhar chuteiras ou brindes de ninguém. Não queria um lugar pra jogar onde eu passasse o tempo todo sem receber a bola, porque eu não sabia jogar direito. Não queria treinar um ano inteiro, para não disputar nenhum campeonato amador. Não queria ver os jogos de futebol feminino do meu time vazio, porque ninguém se interessava em divulgá-los. Não queria que as pessoas não soubessem quem era a artilheira do Brasileirão Feminino. Pois bem. Disso tudo veio a iniciativa JogaMiga.

Começamos um treino com aulas e jogo para mulheres que queriam começar a jogar. Não precisava saber. Até hoje não precisa saber. Mas se você sabe jogar, ótimo. E se não sabe, deixa que a gente ensina pra você. Conseguimos ver muitas mulheres tendo sua primeira experiência com o futebol. E mais que isso, vivendo tudo o que o futebol nos traz de bom: amizade, superação, respeito, perseverança. As melhores emoções ao ganhar um jogo. A resignação de uma derrota. A realização de marcar um gol. A resenha – papo com cerveja e risadas – pós-jogo. E os laços mais fortes que o futebol pode construir.

Hoje temos sete times. Seis deles, na capital paulistana. Um, nossa primeira sub-sede, em Belém-PA. Através do JogaMiga acredito que pude sonhar os melhores sonhos. Um futebol sem fins lucrativos, inclusivo, de baixo custo e com espaço de qualidade. Pudemos, todas juntas, criar espaços para que mais e mais mulheres jogassem bola. Com muito esforço, criamos o Mapa do Futebol Feminino. Através dele, desde janeiro deste ano, muitas meninas conseguem encontrar um time para jogar em sua cidade. Pudemos aprender, escrever, reescrever muita coisa sobre os times profissionais, as atletas, os campeonatos. Estamos há quase 4 anos nessa caminhada. E quero que seja só o início.

É um prazer imenso poder estar na Trivela. No JogaMiga temos uma frase nossa que diz “que a gente comemore por cada menina que pisar em um campo de futebol”. Vamos comemorar por todas. E, neste mês, esperamos comemorar por cada jogo da Copa do Mundo de Futebol Feminino. Aliás, Copa do Mundo. Porque futebol é futebol.

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