Sete jogadores da Eritréia desapareceram depois de jogar uma partida pela seleção do país em um torneio regional do Leste Africano em Uganda, segundo informa a BBC Africa. O resto do elenco voltou para casa depois da Cecafa Senior Challenge Cup, que terminou com a Eritréia como vice-campeã. É a segunda vez que jogadores do país desaparecem depois de um jogo de seleção. A suspeita é de deserção, algo que se tornou comum em um país que vive um regime ditatorial – ainda que o governo negue.

Em outubro, durante um jogo da Cecafa Challenge Cup sub-20, cinco jogadores fugiram do seu hotel. Cecafa é a abreviação de Council for East and Central Africa Football Associations (Conselho das Associações de Futebol da África Oriental e Central).

Segundo a entidade, as autoridades de Uganda já foram informadas do desaparecimento. “A informação que eu tenho que é sete deles escaparam”, afirmou Rogers Mulindwa, porta-voz da Cecaca, à BBC Africa. “Nós já notificamos a polícia, a Federação da Uganta de Futebol e a embaixada. Nós estamos trabalhando de forma próxima para localizá-lo e eu acho que nós iremos encontrá-los. Eles não terão Natal em Uganda”. Bom, o Natal já passou e os jogadores ainda não foram achados, segundo as agências internacionais.

Há uma deserção constante de jogadores da Eritréia nos últimos anos. Em 2009, o time inteiro da seleção da Eritréia desertou depois de um jogo contra Quênia, exceto pelo técnico e por um dirigente. Segundo a Anistia Internacional, milhares de habitantes da Eritréia continuando fugindo do país e as autoridades do país tentam restringir a saída de pessoas.

Em 2015, 10 jogadores se recusaram a voltar para casa depois de uma partida das Eliminatórias da Copa contra Botswana. Dois anos depois, 15 jogadores e o médico do time ganharam asilo em Uganda depois de abandonaram a delegação do país durante uma partida da Senior Challenge Cup.

Segundo a Anistia Internacional, “a Eritreia é um dos países mais fechados do mundo e continua um lugar inseguro para dissidentes políticos ou qualquer um que tente escapar do seu programa de serviço nacional indefinido”. É uma espécie de serviço militar obrigatório, além de obrigação de uma espécie de trabalho forçado pelo país. Segundo a Human Rights Watch, o serviço militar obrigatório é o maior responsável pelas deserções do país. Como não há prazo para o serviço, uma vez convocada, a pessoa pode passar muitos anos sob tutela do exército. Alguns passam até 18 anos servindo, em um regime rígido de controle.

Em 2001, o governo deu um passo definitivo rumo ao autoritarismo, tirando qualquer verniz de democracia. Foi neste ano que um grupo de 15 pessoas vinculadas ao partido que estava no poder, PFDJ (People’s Front for Democracy and Justice, ou Frente das Pessoas por Democracia e Justiça em tradução livre) assinaram uma carta pedindo que o então presidente Isaias Afwerki seguisse a constituição e tivesse eleições abertas.

O secretário-geral do PFDJ acusou os membros deste grupo, que passaram a serem chamados de G15, de atentar para desestabilizar o país. No dia 18 de setembro de 2001, os agentes de segurança prenderam 11 dos 15 integrantes do grupo, signatários da carta, além de jornalistas que reportaram as atividades do grupo. Quatro dos 15 integrantes estavam fora do país no momento da ação e estão exilados desde então. O governo não dá detalhes sobre a prisão dos antigos líderes políticos e não responde qualquer questionamento sobre o assunto.

Organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch denunciam os abusos e pedem a soltura imediata desses presos. Os opositores de Afwerki seguem sendo presos sem julgamento, sequer sem comunicação com a família. Não é permitida imprensa livre e independente e jornalistas nestas condições que entram no país correm o risco de serem presos.

Também não são permitidos partidos políticos, eleições, um corpo legislativo e nem mesmo um judiciário independente. Segundo o presidente, a razão é que tudo isso “enfraqueceria as defesas da Eritreia”. Até mesmo alguns grupos religiosos são proibidos no país. A constituição aprovada por uma assembleia constituinte em 1997 nunca foi implantada. Foi adiada indefinidamente e o poder segue centralizado nas mãos do presidente.

O governo da Eritreia negou as alegações de violações de direitos humanos no passado e afirma que os números de fugas do país são fabricados. Como qualquer regime antidemocrático, nega qualquer coisa que se diz sobre o país e segue tirando a liberdade da população do país.