Jogadoras rebatem preconceito de dirigente boicotando a final da Copa Itália

Presidente de órgão que administra o futebol amador na Itália destila comentários misóginos e homofóbicos e agora sofre pressão para deixar o cargo

Durante reunião entre dirigentes da Lega Nazionale Diletttanti, órgão responsável pelo futebol amador na Itália, Felice Belloli, presidente da entidade, foi bastante infeliz em seus comentários acerca do futebol feminino do país. Em determinado momento do encontro, não explicitado pela imprensa, o dirigente afirmou: “Já chega, não podemos sempre falar em dar dinheiro para esse bando de lésbicas”. A revolta das atletas italianas foi imediata, e, diante da falta de ação enérgica da Federação Italiana, as mulheres decidiram boicotar a final da Copa da Itália feminina, entre Brescia e Tavagnacco, marcada para este sábado.

VEJA TAMBÉM: Os Simpsons deram uma forcinha à Copa do Mundo feminina em sua abertura

Em entrevista à Gazzetta dello Sport, Belloli negou ter dito tal frase e alegou que o registro escrito da reunião poderia ter sido adulterado. Entretanto, Sonia Pessotto, ex-jogadora e membro de um conselho que defende os interesses das mulheres dentro da Federação Italiana, afirmou que estava na reunião e que Belloli proferiu, sim, o absurdo. “Eu estava lá, e ele usou essa frase, ‘bando de lésbicas’. Agora ele tem que renunciar a seu cargo como presidente da associação de futebol amador”, cobrou Pessotto.

Presidente da Assist, entidade que representa as atletas e treinadoras, Luisa Rizzitelli reforçou a cobrança pela demoção de Belloli. “Não consideramos a palavra ‘lésbica’ ofensiva, mas no contexto (em que Belloli a disse) é inaceitável e homofóbica. Claramente, o bronze que a seleção italiana feminina venceu nas Olimpíadas  não foi suficiente para que ele respeitasse as atletas dessa modalidade, suas treinadoras e administradoras”, afirmou.

Carlo Tavecchio, presidente da Federação Italiana, comentou o caso com cautela. Não se posicionou firmemente, mas disse que, se Belloli realmente fez tal comentário, a situação é grave. “Se o Belloli disse estas palavras, então é algo grave. É uma frase odiosa e inaceitável”, comentou o dirigente. Muito pouco diante das evidências já apresentadas. Além das testemunhas e da transcrição da reunião, de que mais ele precisava para acreditar na veracidade da frase?

Coincidentemente, o cargo ocupado por Belloli, e do qual as jogadoras querem que o dirigente se retire, foi ocupado por Tavecchio antes que este assumisse a presidência da Federação Italiana. A falta de ação mais rígida diante dos comentários de Belloli é facilmente explicada pelo histórico que dirigentes italianos têm de falar asneiras preconceituosas. O próprio Tavecchio, um mês antes de vencer a disputa pelo cargo máximo do futebol italiano, fez comentários racistas e ainda assim não teve sua eleição ameaçada. Pelo menos a pressão por consequências a esse tipo de comportamento está surgindo, mesmo que de fora. Se fosse pelos dinossauros no comando da entidade, sequer notícia esse tipo de incidente se tornaria.