Jogadores são seres humanos e por isso as reações às vezes são mais humanas do que profissionais. Valeria para qualquer profissão, na verdade. E o que aconteceu no dia 20 de novembro no confronto entre Nordsjaelland e Shakhtar Donetsk pela Liga dos Campeões exemplifica isso. O caso Luiz Adriano chamou muita atenção do mundo e resultou uma controversa punição ao atacante. Uma punição que não foi por falta de Fair Play. E foi justa.

Vou repetir caso você não tenha entendido ou não prestou atenção: o caso de Luiz Adriano não é falta de Fair Play. É muito, mas muito pior do que isso. Não é que o brasileiro não quis devolver a posse de bola, como já aconteceu com Kléber Gladiador em 2011, por exemplo. A atitude dele foi mais covarde, porque Willian, seu companheiro de Shakhtar e compatriota, já tinha devolvido a posse de bola. Luiz Adriano aproveitou que a bola foi chutada na direção do goleiro adversário, que a defesa estava parada, para levar vantagem, pegar a bola e fazer o gol. Ou seja, ele tirou proveito de uma devolução feita por alguém do seu próprio time. Um ato sem precedentes. E estúpido.

A reação que a atitude de Luiz Adriano causou em um outro jogador naquele dia exemplifica um pouco da gravidade da situação, que fez com que esse jogador, Michael Parkhurst, tivesse vontade de fazer algo que poderia resultar em uma consequência muito mais grave. Algo que não é racional, nem justo, mas esses conceitos são minimizados em um momento de adrenalina alta, quanto o sangue está quente.

Parkhurst é um jogador americano de 28 anos e joga na Dinamarca desde 2008, quando foi contratado junto ao New England Revolution. Já fez mais de 100 jogos pelo clube dinamarquês desde que foi contratado. Joga como lateral direito.  E estava naquele jogo que Luiz Adriano marcou esse gol (e marcaria outros dois na vitória por 5 a 2), o que o fez dar declarações que poucas vezes vemos um jogador dar. Revelou seus instintos, aqueles segundos de ódio que faz com que tantos jogadores cometam atos imbecis. Lembra do Felipe Melo na Copa de 2010? Ou do Edmundo em diversas vezes? Ou mesmo Neto, na época de Corinthians? Mais perto ainda: Luis Fabiano contra o Tigre? Pois são quando essas ideias explosivas que passam pela cabeça nos segundos de adrenalina viram ações.

“Eu estava em choque quando isso aconteceu, eu lembro de pensar ‘o que diabos essa cara está fazendo’”, disse o jogador americano. “É uma vergonha. Você olha em volta e ninguém no time dele está se mexendo, eles estão pensando o mesmo que nós”, afirmou ainda o lateral direito. “Quando ele marca o gol, você pensa: ‘o que fazemos agora?’. É uma vergonha. Eu nunca passei por nada assim. Acho que ninguém em campo jamais tinha vivido algo assim”.

O instinto de Parkhurst foi algo que aconteceria com muitos que já jogaram uma pelada na vida: partir para cima e quebrar a perna do adversário. “Eu estava realmente nervoso depois porque ninguém foi para cima dele”, disse Parkhurst. “Na minha mente, ele deveria ter deixado o campo mancando ou em uma maca, saindo carregado. Ele deveria ter levado uma lição”, esbravejou o americano.

Pare e pense: se um lance desse acontece em uma pelada, aquelas que as pessoas jogam só para brincar (bom, nem sempre…), o que aconteceria? Não consigo imaginar uma reação calma e pacífica. No mínimo, haveria uma discussão acalorada, recheada de palavrões e aquela confusão que não levará a nada – a não ser uns dez minutos a menos no tempo de aluguel da quadra. Mas é porque envolve uma dessas muitas regras não escritas do jogo. Na pelada, a punição seria uma confusão imensa que poderia resultar até em umas porradas. No futebol sério, profissional e (supostamente) civilizado, a punição teria que ser outra. E assim foi.

É claro que a atitude de Luiz Adriano não justifica uma vingança violenta como a que pensou Parkhurst. E ele mesmo disse que só pensou nisso e na hora era o que queria, mas acabou não fazendo nada agressivo. Mas a Uefa fez. Luiz Adriano foi punido com um jogo de suspensão. Parece pouco para um jogo que o Shakhtar já estava classificado. Mas pode não ter sido tanto assim: o time perdeu da Juventus em casa e ficou em segundo lugar no grupo. Agora, corre o risco de pegar o Barcelona. E você lembra a reação dos jogadores do Shakhtar quando foram sorteados para enfrentar o Barcelona, em 2011, não é?