Por Leandro Stein

O Bayern de Munique atravessa uma rara temporada de entressafra. O Ajax, por sua vez, há décadas não representa mais à Liga dos Campeões o que foi um dia. No entanto, enquanto os holandeses hoje contam com um time que não se sacia em hipótese alguma, os alemães seguem com muita qualidade individual. Elementos suficientes para culminar em um jogaço, dentro da atmosfera fervilhante na Johan Cruijff Arena. Com os dois oponentes já garantidos nos mata-matas, a partida valia a liderança do Grupo E da Champions e nenhuma equipe se entregou. Assim, fizeram um duelo sensacional de seis gols, duas viradas no placar, duas expulsões, 30 finalizações e chances até os últimos segundos. O empate por 3 a 3 saiu justo, pela erupção de emoções, mas beneficiou os bávaros com a primeira colocação da chave.

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Desde os primeiros minutos, o Ajax demonstrou que não se acanharia contra o Bayern – como ocorrera na Allianz Arena, aliás. Tinha mais posse de bola e ficava mais tempo no campo ofensivo, tentando pressionar os bávaros. A formação dos Godenzonen conferia fluidez ao time e algumas chances surgiram, incluindo uma bola alçada que Dusan Tadic cabeceou para fora. Contudo, os visitantes também respondiam e ameaçavam. A velocidade era a principal arma dos alemães, em contragolpes puxados por Serge Gnabry. O ponta protagonizava os melhores lances da equipe e, por vezes, até foi fominha. Depois de forçar uma boa defesa de André Onana, o alemão seria garçom no primeiro gol, aos 13 minutos. Deu um passe açucarado para Robert Lewandowski e o centroavante invadiu a área livre, fuzilando às redes.

O Ajax continuava com a iniciativa, mas o jogo perdeu intensidade na sequência do primeiro tempo. O Bayern conseguia travar as tentativas dos anfitriões e buscava os contragolpes. Poderiam ter feito o segundo, na melhor oportunidade antes do intervalo. Em avanço orquestrado por Thomas Müller, o meia aproveitou a passagem de Joshua Kimmich pela direita. O lateral cruzou e Lewandowski encheu o pé, mas Onana fez milagre, fechando o ângulo. A bola bateu na cabeça do goleiro, antes de ser neutralizada pela zaga. A postura dos holandeses seguia agressiva, apertando a saída de bola e variando seu jogo. Mas nada que levasse perigo a Manuel Neuer.

No segundo tempo, o Ajax voltou a mostrar suas garras e a buscar o empate. Vontade que acabou premiada aos 16 minutos. O gol dos Godenzonen nasceu em uma belíssima troca de passes, com a participação de diferentes jogadores e envolvendo a defesa do Bayern. Hakim Ziyech descolou uma belíssima enfiada para Donny van de Beek na linha de fundo e o meio-campista cruzou para Tadic completar na pequena área. Jogadaça. Niko Kovac mudou logo na sequência, com a entrada de Thiago Alcântara no lugar de Gnabry. E o segundo gol de novo ficou a um triz, em outra defesa monstruosa de Onana. Lewandowski cabeceou sozinho e fez o certo, mandando no contrapé do goleiro. Pois o camaronês esticou o braço para executar o impossível.

Quando o Ajax mais parecia pronto à virada, por seu ímpeto, veio o banho de água fria. Maximilian Wöber deu um carrinho desastrado na lateral do campo e pegou em cheio o tornozelo de Leon Goretzka. Foi expulso com justiça, aos 22 minutos. Por sorte, Thomas Müller também não teve neurônios, deixando o Bayern com 10 oito minutos depois. Em uma disputa de bola na intermediária, levantou demais a perna e acertou violentamente a cabeça de Nicolas Tagliafico. Também recebeu o vermelho direto, incontestável. Foi o que reavivou os Godenzonen.

Com a igualdade numérica, Erik ten Hag deu mais presença ao ataque, trocando Van de Beek por Kasper Dolberg. Substituição precisa para a virada. Quatro minutos depois, aos 37, o próprio dinamarquês invadiu a área em contra-ataque e foi derrubado por um carrinho destrambelhado de Jérôme Boateng. Na cobrança, Tadic mirou no ângulo e Manuel Neuer mal se mexeu. O Bayern, de qualquer maneira, não estava morto. Seguia apostando na velocidade de seu ataque, com a participação de Kingsley Coman e David Alaba. Pois o empate viria também em uma penalidade, aos 42. Tagliafico derrubou Thiago e, na cobrança, Lewandowski foi extremamente preciso, mandando no cantinho.

O gol abateu o Ajax. A torcida passou a atirar objetos em campo. Além disso, o time se desconcentrou e concedeu a virada aos 45. Frenkie de Jong errou uma saída de bola logo à frente da área. O Bayern roubou e, em vantagem numérica, logo encadeou uma troca rápida de passes. Coman recebeu no lado esquerdo da área e soltou o pé, em arremate cruzado que saiu do alcance de Onana. Os sete minutos de acréscimos, por conta das expulsões e dos atendimentos médicos, deixavam o cenário aberto. E se os Godenzonen não mereciam a derrota, veio ao menos o empate, aos 49. A partir de um chute que desviou no meio do caminho, a bola sobrou livre para Klaas-Jan Huntelaar. O centroavante cruzou em direção à pequena área e, antes que Tagliafico chegasse, Niklas Süle mandou contra o próprio patrimônio. Apesar da correria no fim, porém, não daria para os holandeses irem além.

Ao apito final, os aplausos da torcida reconheciam todo o esforço do Ajax. É um time que busca o ataque como vocação e valoriza o talento de seus jogadores. Em compensação, também sofre demais na defesa, algo que terminou punido pelo Bayern. Falta maturidade e um pouco mais de experiência na hora de tomar as decisões. Com mais posse de bola, os Godenzonen permitiram que os visitantes dessem mais chutes no alvo. A noite inspirada de Onana manteve os anfitriões no páreo até o final.

O empate confirma a liderança do Bayern, com 14 pontos. Com dois a menos, o Ajax terminou a campanha na fase de grupos também invicto e com o moral elevado. Precisa fazer seus ajustes, mas demonstra que pode ser um adversário indigesto aos principais clubes do continente. De certa forma, avançam até com mais moral que os bávaros. Já a vaga na Liga Europa ficou com o Benfica. Nesta quarta, os encarnados venceram o AEK Atenas no Estádio da Luz, com a bela cobrança de falta de Alejandro Grimaldo conferindo o 1 a 0 no placar.