Faltaram títulos, mas não bons momentos à carreira de João Marcos. O goleiro esteve entre os melhores de sua posição no futebol brasileiro durante a primeira metade dos anos 1980. Pelo Palmeiras, enquanto os alviverdes encaravam sua incômoda seca, o camisa 1 se alçou como titular e chegou a ser convocado à seleção brasileira. Depois, passaria ainda pelo Grêmio, onde teve a dura missão de substituir Mazarópi, mas cumpriu seu papel no vice da Libertadores em 1984. Aos 66 anos, João Marcos faleceu nesta quinta-feira. O veterano estava internado em Botucatu e não resistiu a complicações de um problema no esôfago.

Nascido em Botucatu, João Marcos construiu o início de sua carreira no futebol do interior de São Paulo. Mudou-se a Campinas aos 17 anos e ingressou nas categorias de base do Guarani, clube no qual se profissionalizou em 1972. O arqueiro não teria muito espaço no Bugre, com Tobias como titular, e passou meses emprestado ao América de Rio Preto. Quando voltou ao Brinco de Ouro e ganhava sua chance, fraturou a perna. Após se recuperar, transferiu-se ao São Bento em 1976, onde passou a ser reconhecido por sua aptidão a defender pênaltis, até realmente ganhar projeção com a camisa do Noroeste a partir de 1977.

Em Bauru, João Marcos começou a fazer seu nome no Campeonato Brasileiro de 1978. O Norusca chegou à terceira fase da competição e bateu de frente com alguns dos principais clubes do país. Apesar de algumas goleadas sofridas, o arqueiro teve atuações de destaque. Já em 1979, seu sucesso no clube se tornaria ainda maior durante o Campeonato Paulista. O goleiro mantinha uma forma fantástica e se colocou como o menos vazado do estadual durante parte da fase de classificação. Os números cairiam pouco depois, mas os alvirrubros terminaram com uma boa campanha e a reputação do camisa 1 se espalhou.

O Noroeste tentou resistir ao assédio de outros clubes por João Marcos. Corinthians, Santos e Botafogo chegaram a apresentar propostas. O goleiro era considerado um grande ídolo em Bauru e seu potencial se tornava cada vez mais evidente. Na cidade, os torcedores já mencionavam sua capacidade de um dia alcançar a seleção brasileira. Com grande envergadura e muita segurança sob as traves, o arqueiro de 26 anos, além do mais, mantinha a cabeça no lugar sem se iludir com a badalação ao seu redor.

“Hoje já estão falando que não saio daqui por menos de cinco milhões de cruzeiros, mas juro que isso não me esquenta a cabeça. Estou muito bem aqui, tenho minha casa, recebo religiosamente em dia, ganho bichos de 5 mil cruzeiros por vitória e só mesmo uma daquelas propostas irrecusáveis me abalaria no momento. Além disso, prefiro ser titular e ídolo no Noroeste a ter que dividir espaço num outro time qualquer, por maior que ele seja”, declarou à revista Placar, em setembro de 1979.

A tal “proposta irrecusável” seria feita pelo Palmeiras. Após disputar o Campeonato Paulista de 1980 com o Noroeste e de integrar a seleção paulista, João Marcos assinou com os alviverdes no final daquele ano. A adaptação ao novo momento da carreira não seria tão simples, inclusive pela mudança da família à capital. Com a camisa alviverde, o arqueiro precisava se provar a cada jogo, diante da pressão natural em um clube grande. Titular durante os primeiros meses no Palestra, perderia o posto para Gilmar, com aparições esparsas entre 1981 e 1982. Sua afirmação aconteceria em definitivo a partir de 1983, sob as ordens de Rubens Minelli.

João Marcos viveu seu ápice na temporada em que completou 30 anos. Ao longo de 1983, disputou 49 partidas na meta alviverde e sofreu apenas 42 gols. As atuações inspiradíssimas elevaram a consideração do goleiro e o fizeram ser convocado à seleção brasileira. Carlos Alberto Parreira iniciou a condução da equipe nacional após a eliminação na Copa de 1982 e, com um elenco renovado, incluía João Marcos em suas listas. O palmeirense era reserva de Emerson Leão, então no Corinthians. Integrou o elenco da Canarinho em uma excursão à Europa e também na Copa América de 1983, a última edição do torneio sem sede fixa.

Curiosamente, o Palmeiras se desfez de João Marcos no auge do arqueiro, mas não sem motivos. Leão estava de saída do Corinthians e os alviverdes tinham a oportunidade de recontratar seu ídolo, ainda considerado o melhor do país. Assim, a venda de João Marcos ao Grêmio em janeiro de 1984 servia para abater o valor pago pelo retorno de Leão. E não era um mau negócio a João Marcos, afinal: os tricolores tinham conquistado a Libertadores e o Mundial nos meses anteriores. Mazarópi entrou em litígio durante a renovação de contrato e terminou repassado ao Náutico. João Marcos desembarcou com o status de titular no campeão do mundo.

A estreia de João Marcos pelo Grêmio aconteceu no emblemático “Gre-Nal das faixas”, em que os campeões mundiais venceram os campeões gaúchos por 4 a 2. O goleiro não emplacou logo de cara em Porto Alegre, mas ganhou a confiança da torcida e se firmou como figura importante, sobretudo no sonho de reconquistar a Libertadores. Por ser campeão, o Tricolor ingressou diretamente no triangular semifinal, contra Flamengo e Universidad de Los Andes. Empatados ao término desta fase, gremistas e flamenguistas precisaram disputar um jogo extra no Pacaembu. João Marcos se colocaria como herói.

O Grêmio, que tinha melhor saldo de gols e dependia apenas de um empate, conseguiu segurar o placar zerado contra o Flamengo. A partida se estendeu até a prorrogação e, em meio à pressão rubro-negra, João Marcos se agigantou. O arqueiro fez dois milagres contra Tita no tempo extra e assegurou o resultado favorável. O Jornal do Brasil, no dia seguinte, deu nota 10 ao camisa 1 tricolor. Todavia, o sonho caiu por terra na decisão. Jorge Burruchaga deu um toque na saída de João Marcos e determinou a vitória do Independiente por 1 a 0 no Olímpico. Na volta, o Rojo celebraria seu sétimo título continental com o empate sem gols em Avellaneda.

Antes da fase decisiva da Libertadores, João Marcos havia disputado sua primeira (e única) partida pela seleção brasileira. Em 1984, Edu Antunes assumiu o time por um curto período, em série de amistosos contra Inglaterra, Argentina e Uruguai. A convocação era composta apenas por destaques do futebol nacional e João Marcos se revezou na meta com Roberto Costa e Paulo Victor, arqueiros finalistas do Brasileirão naquele ano. O camisa 1 gremista encarou o Uruguai no Couto Pereira. Arturzinho, então destaque do Vasco, definiu o triunfo por 1 a 0 sobre a Celeste. João Marcos recebeu nota 8 do Jornal do Brasil, por sua atuação segura.

Justamente quando atravessava sua melhor forma, João Marcos precisou abandonar a carreira. Desde os tempos de Palmeiras, o goleiro sofria com um problema crônico no ombro esquerdo, mas seguia em frente. A gota d’água aconteceu na última rodada do Campeonato Gaúcho de 1984, quando o Internacional já era campeão e o Gre-Nal não valia nada além do orgulho. João Marcos deslocou o ombro durante o clássico e soltou a bola que valeu o empate colorado por 1 a 1, em tento assinalado por Kita. Seria a última partida do arqueiro pelo clube.

Em 1985, João Marcos passou por uma cirurgia no ombro e deixou o Grêmio, que trouxe de volta Mazarópi. O paulista passou os meses seguintes em recuperação e até tentou retomar sua trajetória em 1986, pelo Novorizontino. O goleiro tinha negócios na cidade, terra de sua esposa, e aceitou a proposta do clube que estrearia na elite do Paulistão. Contudo, disputou apenas quatro partidas, antes de sair. Ainda teve um rápido retorno ao Grêmio e pendurou as luvas em definitivo aos 32 anos.

O auge no futebol permitiu a João Marcos comprar duas fazendas e ter uma loja de materiais agrícolas. Entretanto, a aposentadoria precoce dos gramados e o insucesso nos negócios o levaram ao alcoolismo e à depressão. O veterano se separou da família, abriu mão de seus bens e chegou a cogitar o suicídio, antes de iniciar sua recuperação em uma clínica a dependentes químicos. De volta a Botucatu, deu a volta por cima com a ajuda do jornalista Milton Neves. João Marcos passou a atuar em programas sociais, sobretudo para ajudar crianças carentes através de seus ensinamentos no futebol.

Nos últimos anos, as entrevistas de João Marcos se tornaram constantes – não para falar de sua carreira, mas de seu exemplo de superação. “Tem muitos garotos que pedem para me chamar de pai. Muitas mães me ligam pedindo para aconselhar seus filhos que treinam comigo. Isso é muito gratificante”, contou, à Folha de S. Paulo, em agosto de 2019. Além do goleiro lembrado por seu talento, virou um símbolo da luta contra o álcool. Uma história que torna as lembranças que deixou mais fortes.