João Félix foi colocado em uma posição longe de ser confortável. O Atlético de Madrid explodiu as manchetes com sua contratação por € 127 milhões para substituir Antoine Griezmann. O valor, a função e a qualidade que havia demonstrado pelo Benfica geraram altas expectativas e o começo de sua passagem sob o comando de Diego Simeone pareceu confirmá-las. O tempo mostrou, porém, que ele ainda não está pronto. É capaz de espasmos de brilhantismo, como nesta quinta-feira, contra o RB Leipzig, pelas quartas de final da Champions League, mas ainda é um craque em formação de um time que também é uma obra em andamento.

Esta temporada foi tão longa que é fácil esquecer como João Félix a começou. Comeu a bola durante a pré-temporada, brilhou em amistosos e começou o Campeonato Espanhol parecendo que havia sido a escolha certeira para repor a saída de Griezmann. Fez dois gols e deu uma assistência nas primeiras seis rodadas – quase 50% da produção do Atlético -, marcou na Champions League e emendou boas partidas.

No entanto, ainda tinha apenas 19 anos e uma lesão em outubro interrompeu o seu embalo. Precisaria esperar fevereiro para voltar a balançar as redes e não retornou mais a um alto nível com regularidade. Desde a retomada, não completou 90 minutos em nenhuma partida, teve outro problema no tornozelo e chegou a ser reserva em uma tentativa de Simeone com Marcos Llorente como meia-atacante, atrás do centroavante.

Foi assim que o Atlético de Madrid foi escalado no maior jogo da temporada, nesta quinta-feira. O clube se viu como o mais experiente no histórico recente da Champions League em seu lado da chave e, com o novo formato, a apenas três jogos do inédito título. Era real a possibilidade. No entanto, como os primeiros jogos com Félix, a vitória sobre o Liverpool pode ter passado a impressão de que o Atlético está mais pronto do que realmente está.

Simeone comanda o clube há quase dez anos, mas esta foi uma temporada de transição. Até tentou no começo colocar o time para atuar de uma maneira mais solta. Não deu certo e teve que voltar atrás para não colocar em risco a vaga na próxima Champions League. É precoce decretar a falência do seu estilo no momento em que um novo time é formado e ainda há tantas peças para serem encaixadas. Os laterais são novos e algumas bandeiras do clube, como Koke e Diego Costa, não estão mais no auge. Repatriou Carrasco da China para ter um pouco de solidez pelas pontas. E há o vácuo de Griezmann que Félix ainda não conseguiu preencher.

Essa é uma função essencial dentro do estilo de Simeone. Pela maneira como é organizado para se defender a maior parte do tempo, os mecanismos ofensivos são limitados. Tem a bola parada e um contra-ataque que Diego Costa não consegue mais puxar com a mesma explosão. O que Griezmann fornecia, e Félix precisa conseguir fazer com mais regularidade, é a jogada diferente. O drible, o chute de fora da área, o passe criativo que quebra a defesa nas poucas situações em que o Atleti está em cima do adversário.

E foi o que Félix fez contra o Leipzig. O Atlético de Madrid fazia um jogo, mesmo dentro de suas características, abaixo do ideal. Os próprios jogadores e Simeone admitiram que os alemães foram superiores em muitos aspectos do jogo. Defendeu-se relativamente bem até levar o gol em uma jogada bem trabalhada pelo Leipzig. Atrás no placar, precisou ir à frente. Simeone colocou Félix no lugar de Herrera oito minutos depois de Olmo fazer 1 a 0.

Aos 26 minutos, recebeu, invadiu a área e estava saindo na cara do goleiro quando foi derrubado. Com personalidade, bateu um pênalti perfeito para empatar a partida. Gol que parecia ter garantido a prorrogação, antes de Tyler Adams bater de média distância e contar com um desvio para classificar o Leipzig.

Não é fácil fazer o que Félix precisa fazer. Dentro do estilo do qual Simeone não abre mão, ou não consegue abrir mão, um jogador da sua função terá poucas oportunidades para resolver e precisa de um alto índice de aproveitamento. Tudo que já vimos do jovem português indica que ele tem os recursos para um dia chegar lá, mas tudo dependerá também da evolução coletiva de um novo Atlético de Madrid.

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