Da mesma maneira como pode ser cruel em sua crucificação de atletas, o futebol pode ser benevolente, sempre disposto a dar mais uma chance. Jadson começou 2015 em baixa no Corinthians e, por uma confluência de detalhes e circunstâncias, deu a volta por cima para se tornar uma das peças mais fundamentais de um Corinthians que sobra no Campeonato Brasileiro. Tanto sobra que, no jogo que basicamente decidiria as chances de título do Alvinegro Paulista e do Atlético Mineiro, a equipe de Tite atropelou o Galo, em plena Arena Independência, batendo o concorrente à taça por 3 a 0, com todos os gols marcados no segundo tempo. O camisa 10, como em diversas outras partidas, foi o diferencial para sua equipe, através de sua imensa capacidade de colocar companheiros em condições de definição.

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O Corinthians entrou em campo com uma vantagem de oito pontos em relação ao Atlético, com apenas seis jogos a serem disputados até o fim da competição. Mesmo uma derrota não tiraria do time a situação confortável em que se colocou com um futebol tão consistente. O triunfo, no entanto, significaria um conforto ainda maior, o aumento da iminência do título. E foi através dos pés de Jadson que a vitória começou a ser construída.

Aos 22 minutos do segundo tempo, o zagueiro Felipe deu uma de ponta direito e arrancou pelo canto. Tentou o cruzamento, mas foi interceptado por Edcarlos. Entretanto, o zagueiro atleticano afastou mal a bola, deixando-a para Jadson, que, de primeira, cruzou com precisão na cabeça de Malcom, que mandou no contrapé de Victor para fazer 1 a 0. O garoto leva jeito contra o Galo, já que havia sido decisivo também no jogo entre as duas equipes no primeiro turno, fazendo o gol da vitória sobre o Galo por 1 a 0 na Arena Corinthians.

A intervenção de Jadson sobre o destino do jogo ainda não havia acabado. Sete minutos depois, o camisa 10 recebeu de Rodriguinho e viu Vágner Love se apresentar como opção pela direita. Rolou com precisão para o camisa 99, que se livrou da marcação de Edcarlos e bateu forte, cruzado, para fazer 2 a 0 para o time paulista.

A facilidade com que o Corinthians chegava ao gol de Victor era impressionante. Bastava uma troca de passes rápidos, acurados, e logo alguém estava com condições de finalização. Isso não é um demérito da defesa atleticana, mas apenas a repetição de um padrão demonstrado pelo time de Tite em boa parte dos jogos deste Brasileirão. Padrão que o colocou um patamar acima das outras equipes do campeonato e que fez o time sobrar em campo mesmo atuando como visitante, no duelo com a segunda melhor equipe da competição.

O gol que fechou a vitória acachapante por 3 a 0 foi uma síntese do futebol preciso e encantador do Corinthians. Uma troca de passes rápidas entre Renato Augusto e Vágner Love quase acabou terminando em tiro de meta, mas o meia se esforçou para evitar a saída da bola, cruzou para trás, e Lucca, que havia entrado no segundo tempo, completou com um voleio cheio de plasticidade, sem chance para Victor, definindo o triunfo aos 39 do segundo tempo.

Apesar da beleza do último tento, do poder de decisão de Malcom em mais um jogo direto e do trabalho coletivo mais uma vez ímpar do Corinthians, Jadson merece um destaque individual. O triunfo na “decisão do campeonato” é uma espécie de coroação de um ano de reviravolta do camisa 10 corintiano.

Jadson começou o ano na reserva de Lodeiro. No início de fevereiro, na rodada de estreia do Paulistão, ganhou uma chance no time titular de Tite, que não relacionou o uruguaio devido à proximidade de seu acerto com o Boca Juniors. Jadson não decepcionou e foi decisivo na vitória por 3 a 0, constantemente colocando companheiros na cara do gol, dando assistência para o gol de Renato Augusto e terminando a partida tendo dado a impressão de que o time não precisaria sentir a falta de Lodeiro. Após o jogo, o camisa 10 agradeceu a Tite pela oportunidade.

A vontade de triunfar sob o comando do treinador, além da intenção de um dia ter seu nome gravado na história do clube, foi também o que o manteve na equipe quando o futebol chinês apareceu acenando com altas cifras. O Corinthians já havia decidido aceitar a proposta, mas o próprio jogador preferiu ficar. O ato por si só já era suficiente para que caísse nas graças do torcedor, mas Jadson ainda complementou tudo isso com um futebol de alto nível durante todo o ano. Decidindo partidas constantemente, sendo um dos artilheiros do Brasileirão e também o maior assistente. Nada mais condizente com a narrativa de seu ano do que o poder de decisão que mostrou no jogo mais importante do clube na reta final da competição.

Com os 11 pontos de diferença em relação ao segundo colocado Atlético Mineiro, é apenas questão de tempo para que o Corinthians confirme o título brasileiro. Ele pode vir até mesmo na próxima rodada, em caso de empate do Galo e vitória corintiana. O time de 2015 será lembrado pelo ótimo trabalho de Tite, pela dedicação tática dos jogadores, pela transição defesa-ataque dinâmica e por alguns destaques individuais, como Elias e Renato Augusto. E Jadson, claro, pela consistência de seu futebol, pelo papel que desempenhou na decisão deste domingo e pela maneira como inverteu sua própria sorte ao longo de um ano. Coroando tudo isso com o protagonismo na decisão que, coincidentemente, foi seu centésimo jogo pelo Corinthians.