A França perdeu nesta quinta-feira uma das principais figuras de sua história política. Aos 86 anos, faleceu o ex-presidente Jacques Chirac. Seu mandato de presidente foi de 1995 a 2007, e sua imagem, muito próxima ao futebol – o que gerou agradecimentos e também críticas. Desempenhou papel importante na história do PSG, mas também foi escrutinado por querer associar sua imagem à seleção francesa campeã do mundo em 1998 – ainda que, por fim, bem-sucedido nisso.

Para entender a ligação de Chirac com o PSG, precisamos voltar algumas décadas no tempo, mais especificamente a 1977. Foi neste ano que o político foi eleito o prefeito de Paris. Sua estadia no poder da capital francesa foi longeva, até o ano de 1995, e ele chegou ao cargo imediatamente disposto a criar sucesso esportivo na cidade.

Presidente do PSG em 1977, Daniel Hechter teve a ideia de fundir o clube com o Racing, equipe local de Paris, mas o recém-eleito prefeito vetou a proposta. Um ano depois, apareceu ele mesmo, Chirac, com um projeto de fusão entre não dois, mas três clubes parisienses: PSG, Paris FC e Racing.

Jacques Chirac queria um clube parisiense forte no cenário nacional e prometia meios financeiros para chegar lá. Avançou com a ideia e chegou a anunciar em maio de 1978 a fusão, prevista então para junho de 1979. Meses depois, no entanto, sem o PSG, fez o projeto de criação de uma equipe chamada Paris 1, em parceria com Paris FC, Racing e a estação de rádio Europe 1.

Esta nova proposta, no entanto, pouco durou. O rebaixamento do Paris FC à segunda divisão no fim da temporada 1978/79 foi fato importante para a queda da ideia, e a prefeitura de Paris então chegou à conclusão de que o caminho para o sucesso seria difícil com duas equipes concorrentes na capital.

Jacques Chirac recebendo o PSG campeão da Recopa Europeia no Palácio do Eliseu (Divulgação/PSG)

A influência de Chirac na história do PSG, no entanto, foi mais forte já mais próximo do fim de seu mandato de prefeito.  No início dos anos 1990, endividado em 50 milhões de francos que a prefeitura se recusava a pagar, o clube foi vendido, e Jacques Chirac autorizou a compra pelo Canal +, emissora francesa, atuando inclusive para que isso acontecesse, já que preferia um proprietário francês do que estrangeiro – Silvio Berlusconi era um dos interessados, com promessas inclusive de levar estrelas italianas a Paris.

A chegada do Canal + abriu caminho para uma década de sucesso para o PSG, incluindo o título da Recopa Europeia de 1996. Os jogadores chegaram a ser recebidos com a taça no Palácio do Eliseu, residência presidencial na França, quando Chirac já havia sido eleito presidente do país. Com ou sem a presença dos parisienses, Chirac também acostumou-se a participar das cerimônias de premiação na Copa da França, entregando o troféu aos campeões.

A gratidão do PSG esteve expressa nesta quinta-feira, com uma nota oficial de lamentação pela morte do ex-presidente publicada em seu site: “Durante seus mandatos sucessivos como prefeito de Paris, entre 1977 e 1995, o sr. Chirac acompanhou os primeiros anos de existência do clube da capital e mostrou sua lealdade ao clube, especialmente por meio do seu apoio no início dos anos 1990, quando o Paris Saint-Germain mais precisava dele”.

Copa do Mundo de 1998

Chirac com Blanc e Deschamps (Divulgação/Federação Francesa)

Ainda como prefeito de Paris, em 1988, Jacques Chirac iniciou o projeto para a construção de um grande estádio, que faria parte da proposta da França para receber a Copa do Mundo de 1998. O consenso é de que a nova casa do futebol francês precisava estar nos arredores de Paris. Houve disputa política, com o Partido Socialista querendo que Melun-Senart, distrito carente a sudeste da capital, fosse o lugar escolhido, mas pesou a vontade de Chirac de construí-lo em Saint-Denis, então um deserto industrial próximo ao aeroporto Charles de Gaulle e que, com o estádio, atrairia uma revitalização. Assim nasceu o Stade de France.

Já como presidente da França, Chirac soube se aproveitar bem do impulso a imagem que uma Copa do Mundo em seu país pode oferecer a políticos. Desde cedo, atrelou-se aos Bleus, visitando o CT de Clairefontaine para se encontrar com os jogadores, protagonizar cenas de amistosidade com os atletas e dividir um jantar com eles.

A afirmação do presidente naquele encontro, de que tinha uma forte intuição de que a França levaria para casa a Jules Rimet, deveria ser um indicativo de que seu grande apreço pelo futebol não era aquele de um torcedor fanático, mas isso não impediu Chirac de tirar proveito da ocasião.

A primeira conquista mundial da França contou com diversos momentos emblemáticos, e o ritual de Laurent Blanc de beijar a testa de Fabien Barthez antes das partidas entrou para o folclore do futebol francês. Ciente do impacto do gesto, o próprio Chirac o repetiu com Barthez durante a entrega das medalhas na final no Saint-Denis em 1998 – gesto repetido também por Emmanuel Macron em 2018, na Rússia, mas com Kylian Mbappé.

Com Mbappé, em 2018, Macron repete gesto de Chirac com Barthez em 1998 (Getty Images)

A aposta de Chirac em se atrelar ao futebol foi certeira. O “efeito Mundial”, como ficou conhecido na França, trouxe ao ex-presidente índice recorde de aprovação de 60% em 1998. No almoço em Clairefontaine antes da competição, não duvide que a marca já passasse pela cabeça do político.