A maioria já estava resignada. Se os 7 a 1 para a Alemanha fizeram desabar o castelo de areia da Seleção, os 3 a 0 para a Holanda foram apenas a confirmação de que só haviam restado destroços. No Mineirão, o choro e o espanto eram visíveis nos rostos dos torcedores. Já em Brasília, decepção ou a raiva por um dia ter acreditado em toda aquela soberba que pintavam como autoconfiança. Lágrimas, apenas nos rostos de poucas crianças – aquelas que pouco entendem a estrutura do futebol, mas sim o valor da Copa. E de José Maria Marin. Segundo os jornalistas na zona mista, o presidente da CBF passou por eles com os olhos marejados.

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A cena até poderia ser tocante. Conhecendo Marin, é puramente irônica, para não dizer caricata. Porque o chefe máximo do futebol brasileiro não representa nada além do que é abominável nas raízes podres do futebol brasileiro. É uma mistura da troca de favores da velha CBD com a visão puramente financeira da CBF de Ricardo Teixeira. Uma entidade que é profissional em quebrar seus recordes de lucros e aumentar a rede de patrocínios, mas extremamente amadora para cuidar do futebol, que deveria ser o seu principal objetivo.

Marin só chegou ao topo do poder por essa composição da CBF que remete aos tempos em que a democracia no Brasil era apenas um sonho. Para ocupar os cargos da entidade que cuida do futebol no país, não é necessariamente preciso entender de futebol, mas sim ter boas relações políticas. Marin, herdeiro da ditadura militar, é um grande exemplo disso. Embora tenha sido jogador do São Paulo e tenha fortes ligações com o clube, foi a política que o tornou dirigente com grandes poderes. Ao mesmo tempo em que era governador biônico de São Paulo, também comandava a Federação Paulista de Futebol. Um degrau importante para se tornar vice-presidente da CBF e, como o mais velho dos vice-presidentes, assumir a entidade na saída de Ricardo Teixeira.

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A presidência de Marin mandou o Brasil de volta aos tempos da ditadura. O discurso do “ame ou deixe-o” imperou na CBF a partir de então. A saída de Mano Menezes foi motivada por alianças do dirigente (no caso, o desejo de minar o poder de Andrés Sanchez, então diretor de seleções da entidade), assim como a liberação de Ney Franco para o São Paulo, deixando o trabalho com as categorias de base às moscas por algum tempo. A contratação de Felipão, Parreira e toda a trupe de ex-campeões vinha para tentar calar os críticos através de “unanimidades”. E o apego ao passado acabou sendo uma das ruínas da equipe. Novas ideias não eram permitidas e o resultado, bem, já não dá para esconder mais.

Ao mesmo tempo, Marin tentou moldar sua própria imagem através da Seleção. O site da CBF também se tornou um veículo de propaganda oficial do presidente. Um diário do mesmo homem que roubou medalha, fraudava a energia do vizinho e fez um discurso inflamado que pode ser colocado como um dos motivadores da morte de Wladimir Herzog. Não colou.

E isso publicamente. Porque, nos bastidores, Marin amarrava suas alianças através dos afagos aos outros cartolas. Uma versão renovada do inchaço do Brasileirão, visto nos anos 70 e 80. A tática de Marin foi nos níveis menores, bancando a realização da Série C e da Série D. Uma boa ideia, não fosse utilizada apenas em favor das federações que o mantinham no poder. O investimento dos milhões que a CBF arrecada, no entanto, foi mínimo. Marin prefere essa política de quitanda, que também incluía negociação de cargos políticos.

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Mesmo com a goleada para a Alemanha, Marin continuou bancando o técnico. Não tem cacife para tomar alguma decisão contundente, que o afaste de sua zona de conforto. Ainda está agarrado ao passado. Afinal, é ao passado que ele deve gratidão por ter recebido tanto poder. E a esse passado ele também jogou a Seleção.

Os problemas da CBF, é claro, não são apenas culpa de Marin. Mas o agravamento da situação está na conta do atual presidente. Não houve abertura alguma à ideia para a transformação do futebol brasileiro, a partir do Bom Senso FC e de outras questões urgentes levantadas nos últimos tempos. A seleção brasileira se firmou em certezas que não existiam e deixam um cenário de terra arrasada para os próximos ciclos. Enquanto isso, a confederação enche seus cofres com rios de dinheiro que não irrigam os campos de futebol. É fácil perceber que a CBF lucra bastante com seus acordos comerciais. Só é difícil saber onde tanta grana é investida.

Em uma estrutura perpetuada pelas origens do futebol, a CBF é uma entidade independente. Assim como é a federação inglesa, a alemã ou a francesa, longe da intervenção estatal. Afinal, o futebol nasceu como um esporte que cultivava a nobreza, não precisava da mão do Estado. No Brasil, porém, a situação é tão grave que até o governo ameaça intervir. Não vai adiantar. Até porque a Fifa protege seus caciques e ameaça de suspensão qualquer federação em que os políticos interferirem – por mais que a CBF, toda, seja construída na base política.

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A mudança nas bases da CBF não parece tão próxima. Marco Polo Del Nero vai suceder Marin, mas as práticas coronelistas devem continuar. A transformação vem através da pressão. De jogadores, com um engajamento maior em prol dos direitos. Da imprensa, indo ainda mais a fundo nos problemas da confederação. E dos torcedores. Porque o futebol não existe por causa do que existe em campo, mas para quem o acompanha de fora. Por mais que a Copa motive, a queda de público é um entrave que não vem de hoje. O fracasso da Seleção faz a voz ganhar força, e a mobilização das torcidas dos clubes é o primeiro passo.

Repensar a CBF é algo que depende mais de novas cabeças dentro do futebol, mas as críticas que vêm de fora podem acelerar o processo. A renúncia de Marin e de seu grupo político, ainda que não tivesse função não mais do que simbólica, já representaria muito.