A J-League completa 25 anos, e é uma boa hora de lembrar como era quando surgiu

O estádio Nacional de Tóquio estava lotado, 59.626 pagantes. Uma cena comum em dezembro, quando os campeões de Europa e América do Sul se reuniam para definir qual era o melhor clube do mundo. Mas era maio e o clima era diferente. Nada de tensão, era momento de festa, com direito a cerimônia de abertura, show de rock e discurso de dirigente. Até que as duas equipes entraram em campo e o argentino Ramón Díaz deu o pontapé inicial. Foi assim que, em 15 de maio de 1993, há 25 anos, Verdy Kawasaki e Yokohama Marinos deram início à primeira edição da J-League.

A liga nasceu chamando a atenção do mundo como algo com potencial de ser grande. Com exceção do Italiano, os campeonatos europeus não nadavam em dinheiro. Ainda havia limite na contratação de jogadores estrangeiros (mesmo de um país para outro dentro da União Europeia) e a Champions League ainda reunia apenas os campeões nacionais. Além disso, os Estados Unidos estavam mais preocupados em provar que poderiam atrair público a seus estádios na Copa do Mundo do ano seguinte (spoiler: conseguiram com louvor) do que em organizar uma liga profissional. Assim, o Japão surgia como possível ímã de craques: a economia estava muito forte e grandes grupos empresariais estavam dispostos a apostar no esporte que virava moda entre os jovens do país.

Cada time era ligado a uma grande empresa, as mesmas que mantinham os times semi-profissionais da Japan Soccer League. Ainda assim, cada equipe passou a adotar um nome novo, deixando de lado a marca do patrocinador. Os grandes favoritos eram Verdy Kawasaki (Yomiuri, grande grupo de mídia) e o Yokohama Marinos (Nissan, montadora). As demais equipes eram Gamba Osaka (Panasonic), JEF United (JR East e Fukuoka), Kashima Antlers (Sumitomo), Nagoya Grampus Eight (Toyota), Sanfrecce Hiroshima (Mazda), Shimizu (clube da prefeitura local, uma exceção), Urawa Red Diamonds (Mitsubishi) e Yokohama Flügels (ANA).

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Alguns nomes de destaque mundial já haviam atravessado o mundo para a temporada de 1993, como os atacantes Gary Lineker e Pierre Littbarski e o meia Aleinikov. Mas a grande marca mesmo era dos brasileiros, que já invadiam o futebol japonês desde a época da JSL. Veja quais eram os principais destaques de cada time:

Gamba Osaka: Aleinikov (BIE, ex-Juventus e seleção soviética), Flávio (BRA, campeão da Copa União de 1987 pelo Flamengo), Luis Müller (BRA, ídolo do Bragantino, depois teria boa passagem pelo Sport), Rinaldo (BRA, famoso por não passar a bola para Pelé em boa oportunidade no amistoso Brasil x Resto do Mundo dos 50 anos do Rei);

JEF United: Littbarski (ALE, campeão mundial com a Alemanha Ocidental em 1990);

Kashima Antlers: Zico (que não precisa de legenda), Alcindo (BRA, ex-Flamengo e seleções de base), Carlos Alberto Santos (BRA, ex-Botafogo);

Nagoya Grampus Eight: Lineker (ING, artilheiro da Copa de 1986), Jorginho (BRA, ex-Palmeiras e Corinthians), Pita (BRA, ex-Menino da Vila do Santos e ex-São Paulo) e Elivélton (BRA, grande revelação do São Paulo na época, estava na Seleção);

Sanfrecce Hiroshima: Noh Jung-Yoon (CDS, um dos melhores asiáticos da época), Cerny (TCH);

Shimizu S-Pulse: Edu Manga (BRA, ex-Palmeiras e Corinthians), Toninho (BRA, ex-Portuguesa e Vasco, fez um jogo pela Seleção);

Urawa Red Diamonds: Michael Rummenigge (ALE, irmão de Karl-Heinz, diretor-executivo do Bayern de Munique);

Verdy Kawasaki: Kazu (JAP, ex-XV de Jaú, Santos, Coritiba, Ponte Preta e Genoa), Ruy Ramos (BRA, fez longa carreira no Japão), Betinho (BRA, ex-Palmeiras e Cruzeiro, grande ídolo do Juventus-SP), Bismarck (BRA, ex-Vasco, integrou a Seleção na Copa de 1990), Amoroso (BRA, emprestado da base do Guarani, voltaria ao Bugre, onde estouraria), Pereira (BRA, campeão brasileiro de 1988 pelo Bahia)

Yokohama Flügels: Edu Marangon (BRA, ex-Portuguesa e Palmeiras), Aldro (BRA, voltou ao Brasil como Aldrovani e jogou em quase todos os clubes do país tirando os “12 grandes”), Ângelo (BRA, ex-Corinthians)

Yokohama Marinos: Ramon Díaz (ARG, ex-River Plate e Internazionale, titular da Argentina na Copa de 1982), Éverton (BRA, ex-São Paulo, Atlético Mineiro e Corinthians), Amarilla (PAR, ex-Barcelona)

Na primeira edição, a média de público foi de 17.976. Kazu foi o melhor jogador do campeonato e dois brasileiros, Carlos Alberto Santos e Pereira, foram eleitos para a seleção do torneio. O Verdy ficou com o título ao bater o Kashima na final.

Nos anos seguintes, grandes nomes do cenário europeu foram chegando. O iugoslavo (hoje sérvio) Stojkovic; o búlgaro Stoichkov; o dinamarquês Michael Laudrup; os italianos Schillaci e Massaro; os espanhóis Beguiristain (sim, o dirigente do Manchester City), Salinas e Goikoetxea; o camaronês M’Boma; o francês Boli; e o neozelandês Rufer, são exemplos. Destaques brasileiros também seguiam o fluxo, como Djalminha, Edmundo, Edílson, Evair, Dunga, Careca, Cesar Sampaio e Zinho.

Foi a época de ouro da J-League, que tinha até boa cobertura na imprensa brasileira. Na TV, fez parte das grades de Cultura, Manchete, Rede TV e ESPN Brasil. Mas, aos poucos, a estagnação da economia japonesa, o crescimento do mercado esportivo na Europa e o surgimento de outros centros futebolísticos (Estados Unidos, Leste Europeu, Oriente Médio) fizeram que o investimento em jogadores fossem reduzidos gradualmente. Hoje, contratações milionárias como as do atacante Jô, que trocou o Corinthians pelo Nagoya Grampus, são raras.

Isso não significa que a J-League tenha fracassado. Pelo contrário. Ela apenas tomou outro rumo. Ao invés de uma superliga de craques mundiais, ela se tornou no grande impulsionador do futebol entre os japoneses. A modalidade está consolidada como a segunda mais popular do país, atrás apenas do beisebol, e os clubes, tirando o.caso da fusão/absorção do Flügels com o Marinos, são sustentáveis. Em 1999, foi criada uma segunda divisão profissional. Em 2014, surgiu a terceira. Atualmente, são 54 times profissionais, sem contar os que atuam em ligas semi-profissionais.

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Os resultados disso são visíveis dentro de campo. Com um campeonato nacional profissional sólido, o Japão cresceu rapidamente no cenário internacional. Ainda em 1993, perdeu a vaga inédita na Copa do Mundo por um minuto, o tempo que faltava quando os nipônicos tomaram o gol de empate do Iraque no último jogo das Eliminatórias. Em 1998, os Samurais estrearam no Mundial e nunca mais se ausentaram de uma edição (só Brasil, Alemanha, Argentina, Espanha, México e Coreia do Sul têm sequências maiores). Neste século, vários jogadores japoneses foram contratados por clubes europeus e a seleção do país se tornou a grande potência da Ásia, além de chegar a um vice-campeonato da Copa das Confederações.

Aquela J-League mágica e misteriosa, que encantava em seus primeiros anos e motivava projeções fantásticas, não se confirmou. Ficou na nossa memória, em vídeos no YouTube ou em traços nas diversas versões do game International Superstar Soccer. Mas a liga teve sucesso, sim. Discreta e sóbria, como se espera dos japoneses.

Abaixo, um vídeo com 250 gols anotados naquela edição inaugural da J-League:




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