De Taffarel a Maradona, passando por Figo, Casillas, Bebeto, Riquelme, Messi e outros tantos grandes nomes, o Mundial Sub-20 já foi conquistado jogadores memoráveis. Ainda assim, persiste há três décadas uma opinião quase unânime sobre qual foi o maior time da história do torneio de juniores. A Iugoslávia de 1987, campeã no Chile com um desempenho irrepreensível, continua ocupando o imaginário de muita gente – inclusive, de quem apenas ouviu falar sobre a trajetória da mágica equipe de Mirko Jozic. Um esquadrão que se fragmentou ao longo da década de 1990, quando o auge de seus craques poderia ter rendido bastante no nível principal.

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Prosinecki, Boban, Suker, Mijatovic, Lekovic, Stimac, Jarni. A lista de prodígios daquele elenco que vingaram na elite do futebol mundial é extensa – e poderia ser mais, não fossem os muitos desfalques. Acima das individualidades, contudo, aquela Iugoslávia encantou por sua força coletiva. Era um time no qual todos se empenhavam na marcação, para atacar com ao máximo a partir da recuperação da bola. Que trabalhava bem os passes, também jogando em velocidade. E que deslumbrava pelas jogadas bem construídas, pelos lances plásticos, pelos muitos gols. Merecidamente, os iugoslavos ficaram com a taça. Mais do que isso, se marcaram eternamente.

Até a epopeia em 1987, a Iugoslávia tinha um histórico modesto com a sua seleção sub-20. O país havia se classificado para apenas uma das cinco edições anteriores do Mundial de Juniores. Vice-campeões europeus sub-18 em 1978, os iugoslavos seguiram referendados para o torneio disputado no Japão, mas não deram tanta sorte no chaveamento dos grupos. Perderam os seus dois primeiros jogos, contra Polônia e Argentina – que se sagraria campeã, em equipe célebre protagonizada por Diego Maradona e Ramón Díaz. Os Plavi (Azuis) venceriam apenas sua última partida, goleando a Indonésia, antes de voltar para casa. Aquele time, ao menos, renderia três jogadores à seleção que disputou a Copa de 1982: o goleiro Ivan Pudar, além dos atacantes Zvonko Zivkovic e Ivan Gudelj.

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As melhores campanhas das seleções de base da Iugoslávia aconteciam no Campeonato Europeu Sub-21. Nesta categoria, os Plavi se colocavam costumeiramente entre os melhores da Europa. Conquistaram a primeira edição do torneio, em 1978, graças ao talento de Vahid Halilhodzic; e disputaram as semifinais outras duas vezes nos anos posteriores, em 1980 e 1984. Sucesso que se refletiu ainda nos Jogos Olímpicos de 1984. Apesar da inexistência de um limite de idade no torneio de futebol, os iugoslavos enviaram a Los Angeles um time basicamente composto por atletas abaixo dos 23 anos. Com Srecko Katanec e Dragan Stojkovic no elenco, a equipe dos Bálcãs ficou com o bronze. De qualquer maneira, nem sempre as campanhas na base repercutiam no elenco principal.

Durante a década de 1980, a Iugoslávia permaneceu como coadjuvante no cenário continental. Ausente na Euro 1980, eliminada pela Espanha na fase qualificatória, a equipe encerrou o hiato de seis anos longe das grandes competições com a Copa do Mundo de 1982. A campanha nas Eliminatórias até empolgou, com os iugoslavos desbancando a Itália na liderança de sua chave. Todavia, o desempenho no Mundial foi abaixo do esperado, com apenas uma vitória no grupo de Irlanda do Norte, Espanha e Honduras. Já na Euro 1984, apesar da presença na fase final, os balcânicos voltaram a ficar pelo caminho, acumulando derrotas diante de França, Dinamarca e Bélgica. E a classificação para a Copa de 1986 sequer aconteceu, abaixo de França, Bulgária e Alemanha Oriental nas Eliminatórias.

Embora a seleção iugoslava não causasse tanto impacto nas competições internacionais, os principais clubes do país começaram a preparar uma geração bastante talentosa. A saída crescente dos melhores jogadores locais para outros centros da Europa acelerou a projeção de muitas promessas. O Campeonato Iugoslavo se tornava terreno fértil para jovens que buscavam se afirmar através do futebol. E em uma região que sempre valorizou a qualidade técnica de seus atletas, a precocidade dos craques era cada vez maior.

Neste contexto, a Iugoslávia sediou o Campeonato Europeu Sub-18 de 1986, após garantir sua classificação em um grupo duríssimo das eliminatórias, superando a Espanha e a França. Possuía um bom time, mas acabou caindo para a Alemanha Oriental nas quartas de final. Assim, a classificação para o Mundial Sub-20 de 1987 veio apenas em uma repescagem diante da Romênia. Os iugoslavo, ao menos, não deram margem ao erro: golearam os romenos por 5 a 0, assegurando a presença no torneio da Fifa. Não queria dizer, entretanto, que os dirigentes do país estivessem tão empolgados com isso. A viagem ao Chile estava longe de ser prioridade nos Bálcãs.

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A Iugoslávia não mandou os seus melhores jogadores para o Mundial Sub-20. Capitão do time sub-18, Aleksandar Djordjevic havia tomado um gancho de quatro jogos e acabou descartado. Slaven Bilic, Igor Berecko, Dejan Vukicevic, Igor Pejovic e Seho Sabotic, todos lesionados, também não poderiam viajar. Boban Babunski não seria incluído por uma disputa envolvendo seu contrato com o Vardar Skopje. E a federação chegou ao ponto de abrir mão de Sinisa Mihajlovic, Vladimir Jugovic e Alen Boksic, três dos melhores jogadores da geração. Os dirigentes sugeriram que eles ganhariam mais permanecendo com seus clubes, acumulando rodagem na liga local.

Se havia alguém em quem confiar, este era Mirko Jozic. O treinador de 47 anos tinha uma ampla experiência nas seleções de base da Iugoslávia. Passou por todas as categorias, do sub-16 ao sub-21, e acumulava 15 anos trabalhando para a federação. Seria ele o encarregado de dirigir um elenco ainda mais jovem do que o torneio permitia, com apenas três atletas na casa dos 20 anos, e somente cinco que participaram do torneio classificatório. A partir de março de 1987, o técnico passou a realizar observações e testes. Entre os selecionados, vários adolescentes sem tanta projeção, que ainda tateavam o início de suas carreiras como profissionais. Nomes como Robert Prosinecki, Davor Suker, Predrag Mijatovic, Zvonimir Boban e outros que logo estourariam – e muito por aquilo que fizeram no Chile. Realizaram 11 amistosos preparatórios antes de embarcar.

A falta de confiança era tanta que apenas um jornalista iugoslavo viajou ao Mundial Sub-20 – Toma Mihajlovic, conhecido por suas anedotas e famoso no país por suas memórias esportivas. “Ninguém tinha quaisquer expectativas sobre o time. Nós pensamos que eles jogariam as três partidas da fase de grupos e voltariam para casa. Mas quando chegaram ao Chile, os jogadores mudaram suas expressões. Eles encontraram um ótimo país e boas acomodações em excelentes hotéis. Além de muitas garotas por perto…”, afirmou Mihajlovic, em entrevista a Jonathan Wilson para o Guardian, em 2007. Motivação suficiente para que a história mudasse a partir da estreia.

No mesmo Estádio Nacional de Santiago onde, 25 anos antes, a seleção da Iugoslávia eliminava a Alemanha Ocidental para alcançar as semifinais da Copa do Mundo, os garotos do sub-20 disputariam sua primeira partida. Cerca de 67 mil torcedores lotavam as arquibancadas do principal estádio do país. E não era por menos: o adversário era justamente o Chile, empolgado pela oportunidade de sediar novamente uma competição internacional. Em campo, jogadores como Fabián Estay, Luis Musrri e Javier Margas, que chegaram a disputar a Copa de 1998 com La Roja. Quando a bola rolou, porém, o que se viu foi um baile dos visitantes.

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Apesar do gramado pesado do Estádio Nacional, por conta da chuva incessante, a Iugoslávia teve uma das melhores atuações da competição. Apresentou um futebol em velocidade máxima, aliando a força física de seus jogadores e a qualidade técnica. Os contra-ataques criaram muitos problemas aos chilenos, enquanto a capacidade dos meio-campistas iugoslavos em controlar o jogo também impressionava. A vitória por 4 a 2 dava conta da superioridade dos Plavi. Suker terminou como o grande destaque, autor de dois gols, enquanto Boban e Stimac anotaram os outros dois tentos dos balcânicos. A prova irrefutável de que era possível acreditar em uma grande campanha.

Mirko Jozic não demorou a dar liga ao seu time Apesar dos anseios independentistas que afloravam no país desde o início da década de 1980, a convivência dos jogadores era saudável, ignorando origens e religiões. O elenco era composto por sérvios, croatas, bósnios e montenegrinos, formando um grupo bastante coeso. A coletividade não demorou a repercutir dentro de campo, como bem se viu diante do Chile. Mas também dava trabalho ao treinador na concentração. As noitadas dos garotos iugoslavos eram constantes.

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Logo no início da competição, Stimac conheceu a Miss Chile 1987, ela mesma descendente de iugoslavos – donos de uma grande colônia no país sul-americano. Assim, ficou mais fácil para os jogadores se ‘enturmarem’. E nem mesmo a fama de disciplinador de Jozic conseguiu frear os seus comandados. “Os garotos perceberam que, se ganhassem o segundo jogo e o terceiro, poderiam ficar em Santiago por mais tempo. Não existia uma briga com Jozic, mas os ânimos estavam em constante atrito. Eu estava com os jogadores na maioria das noites, não tinha nada de tão selvagem. Eles ficavam juntos e sequer bebiam. Mas permaneciam nas baladas da cidade até três ou quatro da madrugada”, contou Mihajlovic.

E como era de se esperar, a Iugoslávia cumpriu o seu papel para confirmar a liderança do Grupo A. Na segunda partida, novamente sob forte chuva em Santiago, os europeus golearam a Austrália por 4 a 0. Suker adicionou mais dois gols à sua conta, acompanhado por Boban e Brnovic. Já na última partida da fase de grupos, novo passeio dos balcânicos, desta vez destruindo Togo por 4 a 1. A equipe de Mirko Jozic ofereceu mais uma demonstração de qualidade técnica, aliada à intensidade de seu jogo. Em noite na qual os reservas ganharam espaço, Mijatovic brilhou com dois gols. Zirojevic deixou o seu e Suker fechou a conta, saindo do banco para anotar seu quinto tento em três partidas. O problema viria a seguir. Os iugoslavos se preocupavam com o confronto das quartas de final, aguardando o segundo colocado do Grupo B. Com a vitória da Itália sobre a Nigéria, quem pintava no caminho era justamente o Brasil.

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Treinada por Gilson Nunes, a Seleção permanecia como favorita, apesar do tropeço na primeira fase. Os brasileiros estrearam na competição com uma irresistível goleada sobre a Nigéria por 4 a 0. Já na segunda rodada, apesar da exibição extremamente ofensiva contra a Itália, a equipe parou na solidez defensiva dos azzurri e acabou derrotada por 1 a 0, sofrendo um gol no contra-ataque. A esperada vitória sobre o Canadá serviu apenas para ratificar a classificação às quartas de final. A impressão era de que dois dos times mais fortes da competição se matariam ali.

Apesar da atribulada preparação, que recebeu críticas por não selecionar o melhor elenco possível, o Brasil contava com diversos nomes que chegariam à equipe adulta. O goleiro titular era o corintiano Ronaldo. O ponte-pretano André Cruz servia de referência na defesa, já fazendo a diferença com suas cobranças de falta, enquanto o santista César Sampaio era utilizado como lateral direito. No meio, o time possuía o entrosamento da dupla vascaína composta por Bismarck e William – este, eleito o melhor do Mundial Sub-16 dois anos antes. Já no ataque, as esperanças eram depositadas no flamenguista Alcindo.

Antes de enfrentar o Brasil no Estádio Nacional, a Iugoslávia teria outro problema a resolver. Uma das principais estrelas do ataque, atuando no apoio pela esquerda, Prosinecki foi chamado de volta pelo Estrela Vermelha. O clube desejava contar com o seu prodígio para os confrontos com o Club Brugge pela Copa da Uefa. Entretanto, o elenco se uniu em protesto junto à Fifa, para que a entidade se metesse no imbróglio. Sob a intervenção do presidente João Havelange, o camisa 9 permaneceria no Chile. E acabaria sendo fundamental no confronto com o Brasil.

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“Foi o ponto de virada para nós. O Brasil estava jogando fantasticamente naquela competição”, afirmou Mijatovic, em entrevista ao documentário ‘O Último Time de Futebol Iugoslavo’. O atacante, que acabara de se profissionalizar, seria alçado à titularidade naquele jogo, compondo dupla com Suker. Mirko Jozic mudou o esquema tático dos Plavi, recuando Prosinecki para o meio, espelhando o 4-4-2 de Gilson Nunes. O confronto na faixa central seria essencial, pela maneira como os dois times atuavam.

A Iugoslávia começou pressionando o Brasil, mas logo passaria a ser ameaçada pelas combinações entre Bismarck e William. O goleiro Lekovic era o responsável por manter o placar zerado, com grandes intervenções. No entanto, os brasileiros fechariam o primeiro tempo em vantagem, com um gol pouco antes do intervalo. A marcação errou o quique da bola e, na saída do arqueiro, Alcindo escorou para as redes. Na volta do intervalo, Jozic voltou a apostar em três atacantes, com Zoran Mijucic passando a infernizar pelo lado direito, ao lado de Boban. Foi por ali que o substituto sofreu uma falta. Boban cobrou em direção à área e Mijatovic marcou (segundo suas próprias palavras) o primeiro gol de cabeça da sua vida.

Com o empate decretado, a Iugoslávia diminuiu o ritmo de jogo e conseguiu neutralizar as transições do ataque brasileiro. O jogo parecia fadado à prorrogação. Contudo, uma arrancada do líbero Slavoljub Jankovic pegou a defesa canarinho desguarnecida. Apenas uma falta conseguiu brecar o camisa 5. A posição perigosa era perfeita a Prosinecki. E ele cobrou com uma qualidade invejável. O arremate potente saiu por dentro da barreira, mirando o canto de Ronaldo. A bola morreu no ângulo, sem que o goleiro pudesse alcançá-la. Aos 44 do segundo tempo, a comemoração dos garotos de azul não poderia ser mais efusiva, diante do triunfo por 2 a 1.

Neste momento, a Iugoslávia já tinha conquistado o coração dos chilenos. Boa parte dos 60 mil presentes no Estádio Nacional naquele dia apoiava os balcânicos. A colônia no país fazia a diferença, mas não só isso. A torcida local também aprendeu a apreciar o time de futebol bem jogado e muitos gols. Apesar da dolorosa estreia, os anfitriões tiveram a oportunidade de conhecer logo de cara as virtudes dos iugoslavos. Acabariam criando uma relação carinhosa com os garotos que, pouco a pouco, arrebatavam a todos.

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Nas quartas de final, a Iugoslávia enfrentaria outro grande desafio. Algoz no Campeonato Europeu Sub-18, a Alemanha Oriental conquistara título e vinha de uma ampla preparação voltada ao Mundial. O elenco contava com vários jogadores que triunfariam na Bundesliga durante os anos seguintes, como Rico Steinmann, Hendrik Herzog, Dirk Schuster, Thomas Ritter e Dariusz Wosz – os três últimos, chegando a defender a seleção alemã depois da unificação. Já o grande perigo vestia a camisa 10: Matthias Sammer, desfrutando de uma reputação enorme, titular absoluto no Dynamo Dresden e convocado desde o ano anterior para a seleção principal. Na competição, o líbero campeão da Euro 1996 atuava como centroavante.

Mais uma vez, Mirko Jozic apostava na dupla de ataque composta por Suker e Mijatovic. E a Iugoslávia dominou o primeiro tempo, se impondo sobre a Alemanha Oriental em todos os setores do campo. Aos 30 minutos, a partir de uma bola rebatida, Stimac conseguiu colocar os Plavi em vantagem. Na volta do intervalo, os alemães-orientais reforçaram o seu ataque e pressionaram bastante, empatando logo aos quatro minutos, com Sammer. E a virada parecia iminente, diante da postura voraz dos germânicos. Todavia, o time perdeu ritmo e acabou cedendo o segundo tento aos iugoslavos, em cruzamento de Brnovic para Suker completar de cabeça.

Restavam mais 20 minutos para a Iugoslávia segurar o placar. E a situação se tornaria mais complicada aos 31 do segundo tempo, quando Mijatovic foi expulso. Entretanto, a defesa bem postada dos Plavi conseguiu segurar qualquer ímpeto da Alemanha Oriental. Ao apito final, com a vitória por 2 a 1 confirmada, o sentimento era de alívio, em meio à celebração – ainda que as preocupações também prevalecessem para a decisão. Além de Mijatovic, também estariam suspensos para a final Prosinecki e Stimac, acumulando cartões amarelos. Criou-se até mesmo uma teoria da conspiração sobre o ocorrido. Árbitro da partida, o australiano Richard Lorenc brigara meses antes com Dragan Sekularac, lenda do futebol iugoslavo que na época trabalhava como treinador em Melbourne. Comandante da seleção australiana, o alemão Les Scheinflug já tinha alertado Josic sobre possíveis represálias do juiz. E, coincidência ou não, a vida iugoslava se complicava para a final.

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O adversário na decisão era a Alemanha Ocidental. O Nationalelf manteve 100% de aproveitamento na fase de grupos, antes de eliminar Escócia nos pênaltis e golear o Chile por 4 a 0. O triunfo sobre os anfitriões nas semifinais aumentava a preferência da torcida pela Iugoslávia. Mas os obstáculos para Mirko Jozic seguiam grandes, considerando os predicados do outro lado. A sensação do time era o atacante Marcel Witeczek, artilheiro do Mundial Sub-16 de 1985 que continuava colecionando seus gols. A defesa contava com jogadores que fariam longa carreira na Bundesliga, como Jürgen Luginger e Gunther Metz. Pelo lado esquerdo, quem despontava era Knut Reinhardt, posteriormente campeão europeu com o Borussia Dortmund. Mas, mais uma vez, os maiores temores se concentravam no camisa 10: Andreas Möller, que coordenava as ações no meio-campo com sua maestria, três anos antes de se consagrar na Copa de 1990.

Sem três de seus principais jogadores, Mirko Jozic precisou tirar o coelho da cartola para a final. Mijucic mais uma vez foi a sua carta na manga, escalado no ataque, ao lado de Suker. Já no meio, a importância de Boban na condução da equipe aumentava. E havia o reforço da massa nas arquibancadas, com 65 mil vozes empurrando os balcânicos. A Alemanha Ocidental não conseguiria lidar com tal situação.

Apesar das ausências, a Iugoslávia conseguia ditar o ritmo do jogo no meio-campo. Berti Vogts recheou a faixa central alemã, com cinco jogadores, mas não conseguiu parar o toque de bola envolvente de seus adversários, orquestrados por Boban. O problema era que os ataques não conseguiam encontrar brechas nas defesas. Depois de um primeiro tempo sem muitas chances, o jogo começou a esquentar na volta do intervalo, com os dois goleiros trabalhando e Suker acertando o travessão. Nos 15 minutos finais, os iugoslavos finalmente conseguiram impor sua superioridade. E Boban anotou aquele que parecia ser o gol do título, aos 40 minutos. Em uma sobra de bola na entrada da área, o meia acertou um feroz chute de primeira. Vibrava como se a taça já estivesse em suas mãos.

Dois minutos depois, porém, a Alemanha Ocidental teve forças para arrancar o empate. Em pênalti contestável, Witeczek converteu com segurança. A partida seguiu para a prorrogação, mas a igualdade em 1 a 1 prevaleceu. Depois de 120 minutos extenuantes, os garotos decidiriam o campeão mundial sub-20 na marca da cal. No início da disputa por pênaltis, coube justamente a Witeczek desperdiçar o primeiro chute, batendo no meio. Lekovic defendeu. Na sequência, um a um, os batedores de ambas as equipes foram balançando as redes. Pavlicic, Strehmel, Suker, Luginger, Brnovic, Spyrka, Zirojevic e Reinhardt. Até que a responsabilidade da décima cobrança recaísse sobre Zvonimir Boban.

O camisa 8 caminhou sem pressa até a marca da cal. Witeczek, no centro do gramado, tapava os olhos. Boban ajeitou a bola e recuou até o limite da grande área. Correu e soltou o chute cruzado de direita, no canto esquerdo do goleiro. O arremate saiu rasante, na medida perfeita entre força e colocação. Uwe Brunn acertou o lado, mas não alcançou. Em 25 de outubro de 1987, a Iugoslávia se sagrava campeã do mundo.

Na comemoração, Boban não sabia para onde correr. Disparou em devaneio, braços abertos, seguido por outros companheiros em transe. Já nas arquibancadas, a impressão era de que o Estádio Nacional de Santiago havia se transportado para algum lugar em Belgrado, Zagreb ou Sarajevo. A torcida vibrava com a vitória da seleção que encantou e mereceu a conquista por tudo aquilo que proporcionou ao longo da campanha. Era impossível não se render aos iugoslavos. O país prestes a se esfacelar tinha um de seus últimos motivos de orgulho através do futebol.

Ao final da competição, os principais destaques individuais da Iugoslávia acabaram premiados. Por sua habilidade inegável e a capacidade de criar jogadas aos companheiros, Prosinecki recebeu a Bola de Ouro. A Bola de Prata ficou com Boban, decisivo na final e brilhante na condução do time. Já a Chuteira de Prata acabou nas mãos de Suker, autor de seis tentos, implacável especialmente na fase de grupos. De qualquer forma, outros tantos mereciam o reconhecimento pelo futebol envolvente praticado pelos Plavi.

“O time permaneceu no Chile dois dias depois para comemorar. Era o aniversário de Robert Jarni, houve uma festa para ele. Na semifinal, Dubravko Pavlicic perdeu dois dentes após um choque com Sammer, então eles convidaram o dentista que o atendeu para a festa e o presentearam com a bola do jogo. Existia uma verdadeira atmosfera familiar com a comunidade iugoslava no Chile e, quando eles voltaram para casa três semanas depois, todo mundo estava chorando”, relembrou Toma Mihajlovic, ao Guardian.

Não demorou para que boa parte daqueles garotos fossem alçados à seleção principal. Lekovic, Suker, Prosinecki, Jarni, Boban, Mijatovic, Brnovic e Petric ganharam as primeiras convocações antes da Copa do Mundo de 1990, e os quatro primeiros estiveram presentes no Mundial da Itália, no qual os Plavi chegaram às quartas de final, eliminados apenas nos pênaltis pela Argentina. Ironicamente, a ausência mais notável na lista final do técnico Ivica Osim foi Zvonimir Boban. O responsável por espalhar o júbilo pela Iugoslávia em 1987 seria justamente o pivô na briga generalizada entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha – episódio fundamental no processo das Guerras de Independência nos Bálcãs. Por conta disso, o meio-campista seria suspenso.

A maior parte das promessas iugoslavas ainda teria mais um compromisso nas categorias de base. Também em 1990, os Plavi lutavam pelo título do Campeonato Europeu Sub-21. Com o acréscimo de jogadores como Alen Boksic, Sinisa Mihajlovic e Dejan Savicevic, a geração dourada eliminaria França (de Desailly e Deschamps), a Bulgária (de Kostadinov e Balakov) e a Itália (de Peruzzi, Costacurta, Fuser, Simone e Casiraghi). Nas finais, realizadas entre setembro e outubro daquele ano, os balcânicos só não seriam páreos à União Soviética. O time treinado por Vladimir Rodionov escalava talentos do porte de Aleksandr Mostovoi, Igor Shalimov, Andrey Kanchelskis, Igor Dobrovolskiy e Igor Kolyanov. Os soviéticos venceram o jogo de ida por 4 a 2 em Sarajevo, antes de levantarem a taça com os 3 a 1 em Simferopol.

Em 1991, Robert Prosinecki seria um dos protagonistas na conquista da Copa dos Campeões com o Estrela Vermelha, compondo um quinteto mágico ao lado de Darko Pancev, Vladimir Jugovic, Sinisa Mihajlovic e Dejan Savicevic. Vendido ao Real Madrid, o Bola de Ouro do Mundial Sub-20 perderia a chance de se reencontrar no Japão com seu antigo comandante, Mirko Jozic. A reputação que o treinador construiu no Chile era tamanha que ele permaneceu em Santiago, convidado para coordenar as categorias de base do Colo-Colo e, logo depois, para treinar a equipe principal. Foi três vezes campeão do Campeonato Chileno e levou o Cacique ao maior título de sua história, faturando a Libertadores em 1991. Até hoje, segue como único técnico de fora da América do Sul a levar a taça. No Mundial Interclubes, porém, Jozic sucumbiu aos seus compatriotas. O Estrela Vermelha conquistou o título com a vitória por 3 a 0.

Por fim, os últimos suspiros daquele time da Iugoslávia aconteceram nas eliminatórias da Euro 1992. Prosinecki, Boban, Jarni e Suker participaram de quase toda a campanha e estiveram em campo na emblemática goleada por 7 a 0 sobre as Ilhas Faroe em Belgrado, na qual Jarni foi o único dos quatro a não balançar as redes. Um mês depois, o quarteto abandonaria a seleção iugoslava, passando a defender a equipe nacional da Croácia, que formalizou a sua independência. Ainda assim, os Plavi consumaram a classificação à fase da Euro, que seria disputada na Suécia. Às vésperas do início da competição, atormentado pelos bombardeios em Sarajevo, sua cidade-natal, o técnico Ivica Osim pediu demissão. E, embora os iugoslavos tenham viajado à Escandinávia, souberam apenas dias antes de sua estreia que não disputariam a Eurocopa, vetados por sanções políticas do Conselho de Segurança da ONU. A substituta Dinamarca ficaria com o título.

Naquele momento, a diáspora dos craques iugoslavos já era enorme. Muitos dos campeões mundiais sub-20 triunfaram em grandes ligas, sobretudo na Espanha e na Itália. Já a chance de voltarem a uma Copa do Mundo aconteceu em 1998, divididos entre seleções distintas. Iugoslávia e Croácia contavam com dois dos elencos mais talentosos daquele Mundial. Equipes que deixam um grande “e se”, sobre como seria maravilhoso aquele timaço se a divisão do país não tivesse acontecido. Talvez 1994 e 1998 guardassem memórias ainda mais pródigas do que as deixadas pelos croatas (de Suker, Boban, Jarni, Stimac e Prosinecki) na França. A única glória mundialista, de qualquer forma, ficou gravada por aquela façanha nos gramados chilenos há 30 anos.

Quem é quem na Iugoslávia Sub-20 de 1987

Dragoje Leković (Goleiro, 19 anos, Buducnost Titogrado) – Titular em todos os jogos, o camisa 1 foi fundamental na campanha, com grandes defesas especialmente nos mata-matas. O montenegrino permaneceu no Buducnost, teve uma rápida passagem pelo Estrela Vermelha e chegou a atuar em outros centros da Europa, especialmente na Escócia, defendendo a meta do Kilmarnock. Somou 14 jogos pela seleção iugoslava, reserva nas Copas de 90 e 98.

Branko Brnovic (Defensor, 18 anos, Buducnost Titogrado) – O lateral direito era essencial por suas subidas ao ataque e foi poupado apenas no fim da fase de grupos. Montenegrino, se transferiu ao Partizan em 1991 e depois jogaria no Espanyol por seis temporadas. Disputou a Copa de 1998 com a Iugoslávia e seria técnico da seleção montenegrina no início desta década.

Robert Jarni (Defensor, 19 anos, Hajduk Split) – Esteio do sistema defensivo, o lateral não perdeu um minuto sequer no Mundial. Logo ascendeu à seleção iugoslava e esteve presente na Copa de 1990. Seguiu para o Bari em 1991, atuando também por Torino e Juventus na Serie A. A carreira de nômade ainda rodaria por Real Madrid, Las Palmas, Panathinaikos e Betis – onde viveu a melhor fase. Foi referência na seleção croata a partir da independência, com 81 jogos, convocado a duas Copas.

Dubravko Pavličić (Defensor, 19 anos, Dinamo Zagreb) – Dando o combate na zaga, era importante na saída de bola e também jogou todos os minutos daquele Mundial. O croata defenderia o Rijeka, antes de fazer carreira na Espanha, jogando por Hércules, Salamanca e Racing Ferrol. Figurou na Euro 1996 com a Croácia. Faleceu em 2012, vítima de um câncer.

Slavoljub Janković (Defensor, 18 anos, Estrela Vermelha) – Líbero, esteve ausente nas semifinais, embora primasse pelo encaixe do sistema – especialmente quando avançava ao meio-campo. Revelado pelo Estrela Vermelha, jogou pouco pelos gigantes de seu país. O sérvio ainda rodou por clubes menores, antes de passar pela Bulgária e pela Grécia após a guerra nos Bálcãs.

Igor Štimac (Meio-campista, 20 anos, Dinamo Vinkovci) – O camisa 6 demonstrava sua versatilidade desde aquela época, atuando tanto na cabeça de área quanto na zaga ao longo do Mundial. Marcou dois gols na campanha e se ausentou na final, suspenso. Emprestado ao Dinamo Vinkovci, voltaria ao Hajduk Split, onde é um dos maiores ídolos. Jogaria também por Cádiz, Derby County e West Ham. Era parte da Croácia semifinalista na Copa de 1998.

Zoran Mijucić (Atacante, 18 anos, Vojvodina) – O ponta ganhou a confiança de Mirko Jozic quando mudou o jogo contra o Brasil, titular nas duas últimas partidas. Sérvio de nascimento, fez sua carreira principalmente no Vojvodina, mas teve sua trajetória no futebol limitada pela guerra. Faleceu em 2009, aos 40 anos.

Zvonimir Boban (Meio-campista, 19 anos, Dinamo Zagreb) – Despontando no Dinamo Zagreb, assumiu o protagonismo naquela seleção sub-20. Gastou a bola por sua qualidade nos passes e por suas infiltrações, titular em todos os jogos. Já na decisão, além do gol com bola rolando, converteu o pênalti decisivo. Depois, transformou-se em personagem da luta pela independência da Croácia, mesmo sem abdicar da seleção iugoslava. O envolvimento na célebre batalha campal do Maksimir o levaria pouco depois ao Milan, onde atuou por de anos. Teria passagens rápidas também por Bari e Celta, emprestado. Já pela seleção croata, brilharia em 1998, capitão dos semifinalistas.

Robert Prosinečki (Meio-campista, 18 anos, Estrela Vermelha) – Grande craque daquele Mundial, aliava potência física e qualidade técnica. O gol de falta contra o Brasil sempre terá um lugar especial na história do futebol da região. Alemão de nascimento, filho de um croata e de uma sérvia, se mudou à Croácia na juventude, atuando pelo Dinamo Zagreb. Levado pelo Estrela Vermelha em transferência impactante, virou um dos astros nos anos áureos do clube. Porém, nunca desequilibrou nos grandes centros, jogando por clubes como Real Madrid, Barcelona e Sevilla. Esteve na Copa de 1990 com a Iugoslávia e era reserva da Croácia em 1998.

Milan Pavlović (Meio-campista, 19 anos, Zeljeznicar) – Camisa 10 daquela equipe, jogava à frente da zaga junto com Stimac, se projetando bastante ao ataque. Nasceu na Bósnia e permaneceu no Zeljeznicar até 1991, quando se mudou para a Grécia. Rodou por diversas equipes médias do país, mas sem grande destaque.

Predrag Mijatović (Atacante, 18 anos, Buducnost Titogrado) – Recém-promovido ao time principal do Buducnost, o atacante foi uma aposta que demorou pouco tempo para se pagar. Ganhou espaço durante o torneio e fez um gol fundamental contra o Brasil, embora tenha se ausentado da final. O Mundial foi seu cartão de visitas antes de ganhar mais destaque, passando pelo Partizan. Empilhou gols no Valencia, até ser levado pelo Real Madrid, responsável por encerrar a seca de 32 anos na Champions, com o gol na final contra a Juventus. Ainda jogaria por Fiorentina e Levante. Acumulou 72 jogos pela seleção iugoslava, presente na Copa de 1998 e na Euro 2000.

Tomislav Piplica (Goleiro, 18 anos, Iskra) – Goleiro reserva, o bósnio rodou principalmente por equipes croatas, até chegar ao Energie Cottbus. Foi símbolo no clube alemão, jogando por lá durante 11 anos. Também defendeu a seleção bósnia em nove partidas entre 2001 e 2002.

Davor Šuker (Atacante, 19 anos, Osijek) – Já acumulava seus gols no futebol local quando atingiu o estrelato durante o Mundial. Homem de referência, arrebentou na fase de grupos e anotou o tento que levou o time à final. O croata passaria pelo Dinamo Zagreb e disputaria a Copa de 1990, antes de seguir ao Sevilla em 1991, ídolo na Andaluzia. Também teria uma passagem relevante pelo Real Madrid, antes de jogar por Arsenal, West Ham e Munique 1860. O ponto alto da carreira veio na Copa de 1998, artilheiro da competição com seis gols, desequilibrando rumo ao terceiro lugar.

Gordan Petrić (Defensor, 18 anos, OFK Belgrado) – Ganhou espaço nas duas últimas partidas da campanha, como peça de reposição. Logo se mudaria ao Partizan Belgrado, convocado pela seleção iugoslava antes da independência. O sérvio depois defenderia Dundee United e Rangers, rodando por outras equipes em seu ocaso.

Pero Škorić (Defensor, 18 anos, Vojvodina) – Titular na final, diante da reconfiguração do time, não viu sua carreira decolar depois disso. Permaneceu no país até 1991, quando se transferiu ao futebol alemão. Jogou por diversas equipes médias e pequenas do país, em especial Karlsruher e Darmstadt.

Dejan Antonić (Meio-campista, 19 anos, Estrela Vermelha) – Titular apenas no jogo que não valia nada da fase de grupos, nunca teve oportunidade no Estrela Vermelha, precisando aceitar a realidade no Spartak Subotica e no Napredak Krusevac. Chegou a passar pela Bélgica, anotando seus gols no Beveren, até se aventurar na Ásia. O sérvio jogou por clubes tradicionais da Indonésia, bem como pela seleção de Hong Kong, ao se naturalizar.

Slaviša Đurković (Meio-campista, 19 anos, Sutjeska) – Titular em apenas um jogo, o montenegrino permaneceu jogando nas divisões inferiores do Campeonato Iugoslavo, por clubes como Jedinstvo Priština Niksic e Leotar.

Ranko Zirojević (Meio-campista, 20 anos, Sutjeska) – Outro montenegrino, era peça costumeira no segundo tempo e converteu um dos pênaltis na final. Rodou por equipes de menor expressão na Iugoslávia, passando também pela Grécia e pela Eslovênia.