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Parma terá que se inspirar em Fiorentina e Napoli e recomeçar na Serie D

A história do Parma é recente na história do futebol italiano, mas deixou uma marca importante. Nos anos 1990 e início de 2000, o time conseguiu conquistas importantes, chegando à decisão de competições europeias, como a Recopa e a Copa da Uefa. Já longe dos holofotes do sucesso há algum tempo, o clube entrou em uma severa crise financeira que o levou à falência, declarada nesta segunda-feira. Rebaixado à Serie B, o clube não terá autorização para jogar a segunda divisão por ter falido.

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O clube terá que ser refundado com outro nome para começar na Serie D, quarta divisão italiana. Havia interessados em comprar o clube, como o consórcio de Mike Piazza (ex-estrela do beisebol americano), mas a proposta não aconteceu. A falta de garantias fez com que o negócio não acontecesse. “Eu estava no telefone até tarde com Mike e seus sócios e eles sentiram que este investimento não era sustentável ou realista”, afirmou Gilberto Gerali, um dos membros do grupo de Piazza, à TV Parma, o canal do clube.

“As dívidas atuais e futuras eram muito grandes. Ele [Piazza] tinha muito entusiasmo, esperou até o último minuto convencer seus investidores. Eu sinto muito pelo Parma e seus funcionários, infelizmente deu errado. As dúvidas eram em relação aos números: custo de operação, contratos futuros ainda fora de série e a FIGC (federação italiana) deu muito poucas garantias”, continuou Gerali. “Se Piazza pode assumir na Serie D? Houve uma conversa para isso e é prematuro falar sobre isso, mas ainda há uma pequena janela de oportunidade.”

O capitão do time, Alessandro Lucarelli, lamentou a falência do clube. “Tudo que nós fizemos foi em vão, e este é minha maior decepção”, disse o zagueiro. “Eu tenho certeza que a Federação sofreu muita pressão de outros times com interesse na falência do Parma. O que Tavecchio nos disse se confirmou, porque os € 5 milhões [do fundo de emergência para garantir o final da temporada do time] não foi incluído no débito esportivo”, comentou o jogador. “Foi uma promessa mantida, eu não estou tentando defender Tavecchio, porque eu não me importo, mas ele falou conosco”.

Lucarelli ainda fez questão de falar sobre as responsabilidades que levaram o Parma, e a liga, à essa situação. “A Lega Calcio foi mais ambígua, e não se esqueçam quem criou tudo isso. Há os que erraram, em má fé, e nós estamos pagando pelos pecados de outros”, declarou o veterano.

Aos 37 anos, Lucarelli não descarta continuar no time, mesmo na quarta divisão italiana. “Não é hora de falar sobre o que eu irei fazer, embora a disponibilidade esteja aqui. Nós temos que conversar sobre o que aconteceu, foi um ano desastroso”, declarou.

O Parma terá que recomeçar de baixo, da Serie D, quarta divisão do país, que já não profissional e é dividida em nove divisões regionais. Repetirá o que outros clubes já viveram, inclusive na própria Itália. Os exemplos mais famosos foram da Fiorentina e do Napoli, ambos clubes tradicionais que conseguiram dar a volta por cima.

Fiorentina, queda e volta com ajuda do tapetão

Foram anos gloriosos da Fiorentina nos anos 1990. Estrelas jogaram pelo time, especialmente Gabriel Batistuta, o grande nome daquela equipe. Os problemas financeiros culminaram com uma temporada terrível em 2001/02, quando o clube acabou rebaixado. Com US$ 50 milhões em dívidas, além de rebaixado, a Fiorentina entrou em concordata. Pouco depois, abriu falência. Assim, não foi aceita na Serie B, divisão para a qual foi rebaixada, exatamente como o Parma. O time, então, deixou de existir oficialmente.

Dois meses depois de fechar as portas, a Fiorentina foi refundada com um nome diferente, Associazione Calcio Fiorentina e Fiorentina Viola. Diego Della Valle assumiu como dono do clube e um dos jogadores do time rebaixado permaneceu para jogar a Serie C2, equivalente à quarta divisão na época: Angelo Di Livio, jogador da seleção italiana na Copa de 1998. O time fez boa campanha e conseguiu o acesso imediato.

A próxima divisão a ser disputada serie a C1, mas uma confusão judicial do Catania fez o time “pular” para a Serie B, segunda divisão do país. Tudo porque o Catania entrou com recurso contra o Siena, que teria entrado em campo com um jogador irregular no empate entre os dois times por 1 a 1. O resultado rebaixou o Catania à Serie C1, mas os dois pontos a mais se o time fosse declarado vencedor o salvariam. Depois de uma batalha nos tribunais, a FIGC (Federazione Italiana Giuoco Calcio, a federação italiana de futebol) decidiu que Catania, Genoa e Salernitana permaneceriam na Serie B, apesar do rebaixamento. A FIGC ainda aumentou o número de times para 24 e subiu a Fiorentina para esta divisão, em um tapetão que gerou boicotes e protestos de outros times.

Foi também em 2003 que a Fiorentina recomprou o seu nome e voltou a se declarar ACF Fiorentina, assim como usar o seu tradicional uniforme. O time, naquela temporada 2003/04, ficou em sexto lugar na Serie B, foi para os playoffs e conseguiu o acesso de volta à Serie A. O time sofreria no seu retorna à primeira divisão, mas conseguiu se reestabelecer com o tempo e voltou inclusive a disputar a Champions League na temporada 2009/10, quando fez excelente campanha e caiu diante do Bayern de Munique.

Napoli e a torcida que o empurrou de volta

Depois do período de bonança com Diego Maradona, o Napoli viveu anos 1990 bastante conturbados. Acabaram com o rebaixamento do time na temporada 1997/98, com uma campanha terrível. Voltou a subir em 1999/2000, escapou do rebaixamento na primeira temporada, mas na seguinte voltou à Serie B. A temporada 2001/02 deu um prejuízo enorme ao clube, que apostava que subiria de volta à Serie A imediatamente. Ficou em quinto e não conseguiu, por uma posição. Foi um passo decisivo rumo ao buraco.

Na temporada seguinte, 2002/03, o time ficou em 16º na Serie B e acabou rebaixado à Serie C1. A dívida do clube era de mais de € 70 milhões e, em agosto de 2004, o clube abriu falência. Parecia o fim de um dos mais tradicionais clubes da Itália, um dos poucos do sul que tinha conseguido o scudetto. Foi quando entrou em cena Aurelio Di Laurentiis, que comprou o clube por € 30 milhões com o objetivo de voltar a coloca-lo na Serie A. Só que precisou ser refundado como Napoli Soccer, porque o antigo nome ainda estava sob júdice. E a história mudaria.

Na temporada seguinte, 2004/05, o Napoli fez uma boa campanha na Serie C1, ficou em terceiro lugar e disputou o playoff pelo acesso. Acabou derrotado pelo Avellino e continuou na terceira divisão. Em 2005/06, o time conquistou a Série C1 e subiu de volta à Serie B. Com a torcida apoiando o time lotando o estádio San Paolo, o clube Na temporada seguinte, o Napoli já chegou à Serie B como uma potência, com a força de uma torcida presente ao estádio. A campanha justificou a expectativa: o time acabou em segundo lugar, atrás apenas da Juventus, que tinha caído pelo escândalo Calciopoli, e subiu para a Serie A. Era a volta à principal divisão italiana, depois de seis anos. Nesta época, o time já tinha voltado a poder usar o seu nome, Società Sportiva Calcio Napoli.

Desde então, o time tem conseguido boas campanhas, voltou a disputar o título, foi para a Champions League e figura entre os principais times italianos atualmente. Uma caminhada longa, mas que foi possível graças à força da torcida, que nunca abandonou o time mesmo nas divisões inferiores.

Os próximos passos do Parma

Rebaixado à Serie D, o Parma terá que jogar a Girone D, que envolve times da Emília-Romanha, Toscana e do Vêneto. O Parma precisará ao menos de quatro anos para voltar à Serie A, se der tudo certo. Subindo de primeira da Serie D, o time irá para a Lega Pro, equivalente à terceira divisão. Subindo desta divisão, chega à Serie B, que já é nacional, assim como a Serie A.

A grande questão para o Parma será montar um elenco do zero, já que o time terá que ser desfeito e todos os jogadores ganharão passe livre com a falência. Para ter sucesso, será importante ter um proprietário que acredite no time, como aconteceu com Fiorentina e Napoli. Também será fundamental que a torcida dos Ducali marquem presença no Enio Tardini para manter o time vivo, pulsando.

A tradição do Parma pode ser recente em termos históricos, mas é suficiente para manter o time vivo, ainda que em divisões inferiores. O Napoli mostrou que é possível.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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