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O dia em que Mick Jagger foi pé quente e um show dos Stones marcou o tri mundial da Itália

Deixe de lado, por ora, a fama de “pé frio”. Acima de qualquer aura, Mick Jagger é um apaixonado por futebol. Por influência da família, se tornou fanático pelo Arsenal (e por quem mais seria?), acompanhando os Gunners mesmo durante as turnês. Segundo uma de suas biografias, o líder dos Rolling Stones ficou furioso quando, em viagem à França, a TV local cortou a transmissão da mítica final da FA Cup de 1970/71, na qual os londrinos derrotaram o Liverpool por 2 a 1 na prorrogação e faturaram a dobradinha nacional. Além disso, o músico é completamente vidrado por Copas do Mundo. Em 1994, a turnê do álbum ‘Voodoo Lounge’ só começou depois do Mundial dos Estados Unidos. Sua primeira experiência in loco aconteceu em 1998 – quando, obviamente, esteve presente no Argentina x Inglaterra. Voltou à Copa de 2006 e, desde então, sempre bateu cartão no torneio. Apareceu na África do Sul em 2010, assim como virou um espectro nos estádios do Brasil em 2014.

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Dito isto, não dá para negar que Mick Jagger é um baita de um azarado, coitado. Basta o roqueiro falar para quem vai torcer e, voilà, a desgraça se consome. Vestiu a camisa? Piorou. Mas o curioso é que nem sempre o britânico representou um símbolo de maldição. Muito pelo contrário, em 1982 ele surgiu como um profeta do tricampeonato mundial da Itália. Tudo aconteceu em Turim, em show bastante emblemático dos Stones. Vestindo a camisa e prevendo o resultado, o vocalista conseguiu empolgar ainda mais a massa azzurra, diante do título que a população não presenciava desde 1938.

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Os Rolling Stones faziam um amplo tour pela Europa em 1982. Promoviam o álbum ‘Tattoo You’, que eternizou a canção ‘Start Me Up’ e elevou o moral da banda após anos de incertezas – algo explícito pelo disco ao vivo gravado na turnê americana, intitulado ‘Still Life’. Durante aquelas viagens europeias, os monstros sagrados mostraram o quanto estavam vivos, tocando em tantos estádios de futebol míticos. Passaram por palcos em Wembley, St. James’ Park, Olímpico de Berlim, de Kuip, Gerland, Ullevi e Praterstadion. Durante a Copa do Mundo, se apresentaram por duas vezes no Vicente Calderón, dias depois da classificação da França no mesmo gramado. Os dois concertos na capital espanhola haviam sido bancados pela própria organização do Mundial, acontecendo um na véspera das semifinais e outro no dia posterior. E, justamente na data da final, 11 de julho de 1982, os Stones tinham um show marcado para o Estádio Comunale de Turim. A multidão italiana se energizaria com o som poucas horas antes de acompanhar a decisão contra a Alemanha Ocidental.

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O show na Itália era emblemático por si, independentemente das circunstâncias boleiras. Os Rolling Stones não se apresentavam no país desde 1967. Além do mais, ao longo dos anos anteriores, as grandes bandas não incluíam as cidades italianas em suas agendas. O comportamento intempestivo dos jovens locais era um temor comum, com as aglomerações representando um potencial alto de distúrbios. Assim, vários grupos de sucesso se recusavam a tocar na Itália. Algo que não se repetiu com os Stones, desembarcando em Turim e reabrindo o país a uma nova era de grandes shows. As lendas britânicas quebraram paradigmas e marcaram época com um espetáculo de múltiplos significados, especialmente por indicar um período de transição entre o espírito questionador que floresceu na juventude desde o fim dos anos 1960 e a nova realidade oitentista.

Mick Jagger subiu ao palco sob o sol escaldante das três da tarde. O horário do concerto tinha sido antecipado justamente para os que desejavam assistir à final, com pontapé inicial às oito da noite. O som dos Rolling Stones embalou 60 mil pessoas e as pedras rolaram por mais de duas horas. A set list se abriu com ‘Under My Thumb’ e seguiu com vários outros clássicos, especialmente na reta final da apresentação. E o coro não acompanhava apenas as canções, mas também gritava ‘Itália’ de tempos em tempos, com a multidão empolgada por aquilo que poderia acontecer horas depois.

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“Tratava-se de um dia de festa excepcional: eram muitas as bandeiras tricolores que tremulavam sobre as costas, como se a seleção nacional fosse aparecer no mesmo campo depois dos Rolling Stones. Ontem, os Stones ofereceram a maior concentração de torcedores por nossa seleção”, relata o jornal La Stampa. Diante da comoção, Mick Jagger arriscou uma previsão, em péssimo italiano. “A Itália vencerá nesta noite. Ganhará da Alemanha Ocidental por 3 a 1”, profetizou. O suficiente para levar seus fãs ao delírio completo. E o melhor ficou para a última música, ‘Satisfaction’, quando a galera já pedia o bis. O astro preparou uma grande surpresa: surgiu em uma plataforma com a camisa azul da seleção italiana, 20 nas costas, do artilheiro Paolo Rossi. Aterrissou no palco e finalizou o show, em meio a fogos de artifício.

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Sabe-se lá qual a ligação de Mick Jagger com o cosmos naquele dia, mas o fato é que a profecia se cumpriu fielmente. Jogando com uma confiança enorme, de quem vinha crescendo desde as fases anteriores do Mundial, a Itália se impôs sobre a Alemanha Ocidental no Estádio Santiago Bernabéu. Nem mesmo o pênalti desperdiçado por Antonio Cabrini durante o primeiro tempo atrapalhou. Justamente Paolo Rossi abriu o placar, completando de cabeça o cruzamento de Claudio Gentile. Marco Tardelli ampliou a contagem com um chute rasante, gerando uma comemoração emblemática, enquanto Alessandro Altobelli fez o terceiro a partir de um contra-ataque. Faltava alguma coisa? Pois, já nos últimos minutos, Paul Breitner descontou para os alemães e fechou a conta. Como Jagger disse, os azzurri venceram por 3 a 1. A taça acabaria nas mãos de Dino Zoff, consagrando o time de Enzo Bearzot.

Os Rolling Stones voltariam ao Comunale de Turim mais uma vez no dia seguinte. De novo, levaram milhares de pessoas a curtir as suas canções, ainda mais empolgadas pelos festejos do tricampeonato mundial que se estendiam. E, durante o bis, Mick Jagger repetiu o gesto. Aterrissou no palco envolto por bandeiras italianas, assim como vestia a camisa azzurra dos campeões. Era, inclusive, outro uniforme: o número 6 às costas, de Claudio Gentile, não deixava dúvidas. Aquelas apresentações em Turim ainda renderam um disco ao vivo gravado paralelamente, com um nome bastante sugestivo: Mundialito 1982. Na capa, a imagem do cantor com a bandeira tricolor. Cinco dias depois, a turnê ainda incluiria mais um show na Itália, lotando o Estádio San Paolo.

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Curiosamente, a impressão de que os Rolling Stones deram sorte à Itália persistiu também no tetracampeonato mundial, em 2006. A banda pausou sua turnê ‘A Bigger Band’ durante a Copa do Mundo, com alguns jogos acompanhados in loco por Mick Jagger. O retorno aos palcos aconteceu justamente no San Siro, na única apresentação dos britânicos na Itália durante aquele ano, dois dias após a vitória sobre a França na decisão em Berlim. Obviamente que a alegria dos italianos pelo feito já tinha contagiado os dinossauros do rock, presentes no país quando a final aconteceu.

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“Nós assistimos ao jogo todo torcendo pela Itália, mas não saímos para celebrar a vitória”, declarou Mick Jagger, em entrevista à imprensa local. Desta vez, contudo, se recusou a voltar ao palco com a maglia azzurra: “Não sou digno de vestir a camisa da Itália. Isso é uma honra reservada para os jogadores, os deuses do futebol”. Charlie Watts relatou a empolgação do companheiro com a Copa: “Mick é um verdadeiro apaixonado. Ele assistia aos jogos todos os dias e depois lia tudo nos jornais. Eu o acompanhava”. Ron Wood, por sua vez, exaltou o pé quente da banda: “Sou feliz que, como em 1982, trouxemos sorte. É uma bela sensação tocar aqui a cada vez que a Itália vence”. Algo que não se repetiria em 2014. Os Stones se apresentaram em Roma bem no meio da Copa do Mundo, na véspera do jogo contra o Uruguai. Mick Jagger outra vez bancou o profeta e arriscou uma vitória por 2 a 1 – que, segundo suas palavras, embalaria os azzurri rumo ao penta. O final deste filme, porém, todos sabem. Neste momento, a fama de azarado do astro já o precedia. A magia de 35 anos atrás se perdeu.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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