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Valentino Mazzola: o homem que poderia ter dado a Jules Rimet para a Itália

A Itália esteve perto de conquistar a Jules Rimet. Ficou a uma vitória, no confronto direto contra o Brasil na final da Copa de 1970, em que o vencedor levaria o troféu para sempre (ou até alguém roubar e derreter). Mas a Azzurra poderia ter levado o troféu em 1946, antes mesmo de os brasileiros conquistarem seu primeiro título. E o grande nome dessa equipe histórica provavelmente seria Valentino Mazzola.

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O atacante nasceu em uma família humilde em Cassano d’Adda, cidade na região de Milão. Valentino começou a trabalhar ainda com 11 anos, como ajudante de padeiro. Sem estudos e tendo o futebol como seu passatempo quando não estava trabalhando, o italiano começou a jogar pelo Tresoldi, equipe de seu bairro, chamou a atenção e, aos 18 anos, acabou levado ao Alfa Romeo, time da terceira divisão italiana que representava a montadora de veículos. Sua passagem pelo clube não durou muito, e em 1939, aos 20 anos, precisou se apresentar ao serviço militar.

O que poderia ser o fim de sua carreira foi a grande saída. Mazzola foi designado para trabalhar na Capitania dos Portos em Veneza. Ele rapidamente fez parte do time de futebol da Marinha na cidade, chamando a atenção de observadores do Venezia. Foi chamado para uma peneira, à qual compareceu descalço. Mesmo com equipamento de jogo impróprio (no caso, sem equipamento algum), impressionou o técnico Giuseppe Girani e conseguindo vaga no time do Vêneto.

Em sua primeira temporada no Venezia, em 1940, Mazzola começou a mostrar a polivalência ofensiva que marcou sua carreira. Qualquer canto do ataque em que o jogador fosse colocado virava terreno para jogadas efetivas, perigosas e criativas. Mesmo com apenas 21 anos, o atleta impressionava pela maneira como chamava a responsabilidade para si nas partidas. Em pouco tempo, o jogador foi elevando o patamar do clube, contando com a ajuda de Ezio Loik, que também havia acabado de chegar e que formaria dupla com Mazzola durante toda sua carreira.

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Ao final da temporada 1940/41, Mazzola e Loik levaram o Venezia ao único título de sua história: a Copa da Itália. Considerando que na temporada anterior, a de estreia de Mazzola, o time havia ficado apenas na 10ª colocação da Serie A, o salto havia sido enorme. Mesmo com o título e o protagonismo, a dupla se manteve no Vêneto e levou o time ao inédito terceiro lugar na temporada 1941/42. A campanha despertou em Juventus e Torino o desejo de contar com Mazzola, que certamente faria parte da convocação da Itália para a Copa do Mundo daquele ano se ela fosse realizada. Os Bianconeri chegaram a estar à frente nas negociações com o meia-atacante, tendo um acordo já apalavrado, mas foi mesmo o clube grená que conseguiu fisgar o jogador. De quebra, ainda levaram Loik.

A chegada de Mazzola mudou os rumos do clube grená. Em Turim, a equipe não era nada perto da rival Juventus. Os Bianconeri haviam vencido a Serie A por cinco anos consecutivos na década anterior. A primeira temporada do craque no Torino já foi de título italiano, o primeiro do clube desde 1927/28. No mesmo ano, o Torino também ficou com a Copa da Itália, tornando-se o primeiro time a fazer a dobradinha liga + copa no futebol italiano.

Naquele momento, a Segunda Guerra ainda era ignorada pelo futebol italiano. Crente em uma vitória rápida do Eixo, Benito Mussolini ordenou que as competições não fossem alteradas devido aso combates e que os jogadores seriam mais úteis em campo do que nos batalhões. Mas não foi possível manter essa política quando italianos e alemães começaram a sofrer derrotas pesadas. O Campeonato Italiano foi suspenso nas temporadas 1943/44 e 1944/45 não foram realizadas.

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O hiato causado pela Segunda Grande Guerra não derrubou o Torino. A equipe venceu o quatro Campeonatos Italianos após a guerra, completando um pentacampeonato. O clube grená se sedimentou como a maior potência do país e, embora não houvesse ainda a Copa dos Campeões, havia a certeza de que o time era a grande potência futebolística europeia do momento. Os amistosos internacionais do time apenas confirmavam isso. Em 1946, a Itália venceu a forte Áustria por 3 a 2 usando sete jogadores do Torino. Em 1947, essa base grená foi ainda além: fez 5 a 2 na Suíça com nove torineses, 3 a 2 na Hungria com dez e 3 a 1 na Tchecoslováquia e na França com oito.

Esses resultados credenciavam a Itália como uma das favoritas à Copa do Mundo que nunca foi disputada em 1946. E Mazzola, no auge, era o grande nome desse momento. Em todo esse período, o capitão do Torino fez 123 gols em 195 partidas. A temporada de maior destaque do jogador foi a do tetra (1947/48), quando marcou 25 dos 125 gols (recorde italiano) na Serie A e ficou 16 pontos à frente do Milan, o segundo colocado. Lembrando que, à época, cada vitória valia apenas dois pontos.

Torino 1940s

Já que a guerra não deixou que Mazzola brilhasse nos Mundiais de 1942 e 46, ele teria sua última chance em 1950. O atacante teria 31 anos e o Torino ainda seguia forte, dominando a Serie A e formando a base da Azzurra. Em março de 1949, a Itália enfrentou a Espanha em Madri e, com seis jogadores grenás (Mazzola como capitão, claro), venceu por 3 a 1.

Essa história acabou em 4 de maio de 1949. O Torino voltava de Portugal, onde havia disputado um amistoso com o Benfica, e o avião que trazia a equipe colidiu com a Colina de Superga, perto de Turim. Não houve sobreviventes.

A carreira de Mazzola durou apenas dez anos. Seus números nesse tempo corroboram com a afirmação de Enzo Bearzot, técnico que efeticamente deu o tri mundial para a Itália em 1982, que define Mazzola como o maior jogador italiano de todos os tempos. Maior que Giuseppe Meazza. E, se ele era maior que o craque que deu o bi à Azzurra na década de 1930, imagine o que ele poderia fazer na década de 1940.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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