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Futebol e champanhe

Existe na Itália a expressão “calcio champagne”. Cunhada no fim dos anos 1980, poderia ser literalmente traduzida para futebol-champanhe e trata do futebol que dá gosto de se assistir – o oposto do rude defensivismo do “catenaccio”, portanto. O sabor adocicado e levemente alcoólico do jogo italiano na última Eurocopa animou a torcida do país, que pôde admirar uma seleção que valorizou a posse de bola, conseguiu se projetar eficientemente no ataque e demonstrou velocidade de raciocínio. A novidade também estará presente nos campos do próximo Campeonato Italiano, a partir do próximo 25 de agosto.

É difícil se lembrar de outra temporada do Campeonato Italiano que começou com tantos treinadores adeptos de um futebol ofensivo. Talvez essa época jamais tenha existido, aliás. A Serie A de 2012-13 contará com técnicos que prometem um jogo de dominação, seja baseado em grande volume de posse de bola ou transições rápidas para o ataque ou inversões de papéis entre meias e atacantes ou treinamentos intensivos de jogadas capitais.

Foi jogando para cima dos rivais que os jovens Stramaccioni (Inter) e Stroppa (Pescara) fizeram boa carreira enquanto treinaram nas categorias de base. E assim Montella (Fiorentina) surpreendeu, no ano passado, no comando do Catania. Guidolin (Udinese) tem provado sua maestria em construir triangulações mortais. Depois de trabalhos contidos por elencos fracos, há boa expectativa em ver o que os estudiosos Sannino (Palermo) e De Canio (Genoa) poderão fazer com jogadores mais técnicos em mãos. Sem contar, é claro, com Conte (Juventus), que venceu o último campeonato com um futebol mais “muscular”, mas que pode mudar de estilo graças às novas ótimas adições no elenco da Velha Senhora.

Mesmo que o champanhe esteja longe de ser a bebida mais consumida em Roma, a ideia do futebol vistoso foi importante para que os times da capital escolhessem seus novos treinadores. Parte do trabalho, é claro, acabou facilitado pelos resultados ruins na temporada passada. Assim, a Lazio buscou na Suíça o bósnio Petkovic e a Roma trouxe de volta seu Dom Sebastião particular, o tcheco Zeman. Os dois treinadores que mais espumaram o futebol de suas últimas equipes, coincidentemente, são os únicos estrangeiros entre os 20 comandantes da próxima Serie A.

Uma das bandeiras da história recente futebol italiano, o treinador tcheco tem lugar garantido no folclore do país. Nem bem voltou à Roma, Zeman brincou que os dirigentes não deveriam se preocupar em reforçar a defesa. “Não há necessidade de gastar com zagueiros já que só vamos atacar”, argumentou. O que talvez não seja exagero para um comandante que já encerrou dois campeonatos com o melhor ataque e a pior defesa da competição.

A receita da “Zemanlandia” tem três ingredientes: suor nos treinamentos, obrigação de divertir o público e o 4-3-3. Treze anos após o divórcio romanista, Zeman não mudou. Exigente nos treinos, fez a Roma começar a pré-temporada antes de todos os rivais – é a única equipe italiana que já entrou em campo, um 9 a 0 sobre um combinado amador da cidade de Brunico, no norte do país. Também deverá ser o único treinador da primeira divisão a cobrar diariamente treinos em dois períodos. A ideia de divertir quem assiste aos jogos não sumiu. E a formação tática que raramente muda é aposta antiga de Zeman para que qualquer jogador consiga render aceitavelmente. “É uma questão geométrica”, gosta de dizer, sem se explicar.

Dezessete anos mais novo do que Zeman, o bósnio Petkovic é mais taticamente maleável. Adepto declarado do 3-4-3, o ex-comandante de meia primeira divisão suíça também já jgou no 4-2-3-1 e no 4-3-2-1. Nos últimos clubes pelo qual passou (exceção feita a um péssimo trabalho no Samsunspor, da Turquia), Petkovic conseguiu fazer com que seus times superassem a média de dois gols por jogo. Estudioso, assiste a todos os jogos do campeonato que disputa – o contrário de Zeman, vale ressaltar. Fato é que as eternos rivais da Cidade Eterna dão grandes passos para tentar garantir um sopro de ar fresco ao modorrento futebol italiano. Inter, Fiorentina e Pescara seguem o mesmo caminho. Que sejam felizes.

Pallonetto

– Um levantamento da Gazzetta dello Sport mostrou a participação dos atletas estrangeiros no Campeonato Italiano: 47,8% dos jogadores que atuaram no torneio nasceram fora da Velha Bota. Esse número faz mal à competição, que desvaloriza os jovens italianos para buscar refugos de fora do país.

– A Roma está perto de fechar com o atacante Gian Marco Nesta, de… 11 anos. O sobrinho do zagueiro Alessandro Nesta torce para a Lazio, mas ainda não recebeu uma proposta concreta do time do coração. O Milan também tenta arregimentá-lo.

– O período sem futebol deve fazer mal à cabeça de algumas pessoas. Chegamos ao ponto de ter de ler que o Bayern de Munique estaria prestes a tirar Pirlo e Marchisio da Juventus. Sem contar a insistente novela de uma possível saída de Thiago Silva do Milan. Mas ele não acabou de renovar por cinco anos?

– Por falar em balelas, a Gazzetta dello Sport se superou na semana passada, ao especular uma suposta “aliança” entre Milan e Juventus para contratar El Kadoduri, do Brescia. O jogador ficaria em co-propriedade entre os rivais e o dinheiro serviria para ajudar o Brescia a fechar as contas. Uma falácia sem tamanho.

– Mais capítulos do “mercado fantástico”: a Inter fechará com Del Piero para se vingar da Juventus; o Milan segue oferecendo Ibrahimovic para meia Europa, mas ninguém quer comprá-lo; o Napoli conseguirá contratar Zárate de graça junto à Lazio; Balzaretti esnobou uma sondagem do Milan; e Ranocchia exigiu garantias de titularidade para não deixar a Inter. E tudo é verdade, obviamente.

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Equipe Trivela

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