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Falece Giuliano Sarti, uma das maiores lendas da escola italiana de goleiros

Não fosse o resultado final da partida, aquela atuação seria para sempre lembrada como uma das melhores de um goleiro em decisões europeias. Acabou eclipsada pela derrota. Giuliano Sarti viveu uma exibição magnífica em 25 de maio de 1967, contra o Celtic. Operou diversos milagres sob as traves, para conter a pressão dos Leões de Lisboa. Todavia, nada pôde fazer na bomba de Tommy Gemmell, nem na bola desviada por Stevie Chalmers. Suas 13 defesas foram em vão, diante da vitória dos escoceses por 2 a 1. O último grande momento de uma carreira esplendorosa, que rendeu dois títulos da Copa dos Campeões e um da Recopa, além de três vice-campeonatos continentais. A memória viva de um dos melhores goleiros da história do futebol italiano, ídolo de Fiorentina e Internazionale, que faleceu nesta segunda, aos 83 anos de idade. O adeus de um revolucionário.

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Sarti contrariou todas as expectativas para se transformar em um goleiro de ponta. Cresceu no interior da Itália, acostumado a pedalar por horas durante o dia para vender alcachofras e limões. No máximo, jogava futebol com os amigos na zona rural, em áreas descampadas em que sequer existiam traves. Só que o acaso ajuda a eclodir gênios. E assim aconteceu com o garoto de 17 anos, que estava no estádio da cidade de Cento para ver um jogo do time local. O goleiro do time da casa se lesionou durante o aquecimento e o jovem, que atuava na meta de seu vilarejo, foi convidado a defender a Centese. Disputou sua primeira partida oficial. Iniciou uma carreira fantástica.

Sem passar por categorias de base, Sarti fazia do instinto o seu grande trunfo sob as traves. E, assim, desenvolveu um estilo bastante particular de defender a sua meta. Nunca foi um goleiro de acrobacias. Prezava pelo ótimo senso de colocação e pela sobriedade. Tinha uma frieza imensa para encarar os atacantes adversários. Quando partiam no mano a mano, esperava até o último momento sobre a linha, para ter mais tempo na reação. Assim, aproveitava a sua agilidade para saltos seguros, em que a bola dormia em suas mãos. Era o que chamava de “escola geométrica” de defender, em contraposição à reativa, de saída nos pés dos avantes. Apesar disso, costumava sair de sua área para antecipar lançamentos dos adversários e também ajudar os seus zagueiros a distribuir o jogo. Ofereceu uma funcionalidade bastante e comum à posição tempos depois.

O jovem goleiro atraiu o interesse do Torino, mas, por seu desenvolvimento tardio, acabou refutado pelos grenás. Deixaria a Centese para defender a Bondenese, seu primeiro clube profissional, nas divisões regionais. Não demoraria a atrair a atenção da Fiorentina. Graças ao presidente de seu time, chegou a Florença. E, na viagem, o rapaz de 20 anos também teve o gosto de ver o mar pela primeira vez. Teria que se redescobrir em uma cidade maior, em uma equipe maior. E não apenas futebolisticamente, mas na própria personalidade. Semi-analfabeto, o jovem se agarrou aos livros para abrir sua mente. Enquanto isso, tinha um grande mestre em Fulvio Bernardini, técnico da Viola, de quem tentava absorver ao máximo o conhecimento em campo.

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O novato não demorou a evoluir na Fiorentina. Sarti conquistou a titularidade em 1955/56, justamente o ano em que o clube conquistou seu primeiro scudetto. Logo se transformou em um dos protagonistas do time, em um dos jogadores favoritos da torcida. Com a Viola, também chegaria a sua primeira final continental em 1957, derrotados pelo dominante Real Madrid na decisão disputada em pleno Estádio Santiago Bernabéu, diante de 124 mil torcedores. Os violetas se refariam da derrota tempos depois. Em 1960/61, a Fiorentina tornou-se a primeira equipe italiana a se sagrar campeã continental, faturando a primeira edição da Recopa Europeia. Sarti não jogou a decisão contra o Rangers, suplantado pelo ascendente Enrico Albertosi. Os toscanos ainda levaram a Copa da Itália em 1961, além de terem sido vices na Recopa de 1962, desta vez derrotados pelo Atlético de Madrid.

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Em 1963, após nove temporadas e mais de 200 jogos pela Fiorentina, Sarti despediu-se do Artemio Franchi. Rumou à Milão, assinando com a Internazionale. E no San Siro também se transformaria em peça-chave de um timaço, sob as ordens de Helenio Herrera. Se o Catenaccio do treinador argentino funcionava tão bem, o arqueiro tem sua parte nisso, mantendo a segurança sob as traves. Pelos nerazzurri, ele conquistou mais dos scudetti e, sobretudo, o bicampeonato europeu. Deu o troco no Real Madrid na decisão de 1964, além de superar o Benfica no ano seguinte. E a terceira taça não veio em 1967 não por culpa de Sarti, na memorável final contra o Celtic. A exaltação aos Leões de Lisboa também parte da atuação magnífica que fez o goleiro adversário, adiando a virada.

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Curiosamente, a história de Sarti na Inter ruiu menos de uma semana depois. Na última rodada da Serie A, os nerazzurri dependiam apenas de si para ficar com a taça. Enfrentavam o Mantova e não deveriam encontrar tantas dificuldades. Contudo, um frango sofrido pelo arqueiro levou os planos por terra. O tropeço dos interistas permitiu que a Juventus ficasse com o título naquele ano. Sem mais clima, diante de um intenso processo de renovação, o camisa 1 jogou somente mais uma temporada em Milão e mudou-se justamente a Turim, vivendo o último ano de sua carreira em 1968/69.

Pela Juventus, Sarti não demonstrava a mesma qualidade de outros anos. Fez poucos jogos e permaneceu grande parte do tempo no banco de reservas. O que, no fim das contas, acabou lhe servindo. Justamente na rodada final do campeonato, a Velha Senhora encarou a Fiorentina. Do banco de reservas, pôde ser um torcedor da Viola sem peso na consciência, assistindo ao antigo clube levar o segundo e último scudetto de sua história, após 13 anos de jejum. Hora de pendurar as luvas, às vésperas de completar 36 anos de idade.

Apesar da enorme carreira por clubes, Sarti não teve vida longa na seleção italiana. Disputou apenas oito partidas, entre 1959 e 1967, permanecendo na sombra de Lorenzo Buffon e Enrico Albertosi, principais convocáveis do período. Nada que tenha atrapalhado o seu reconhecimento. Campeoníssimo pela Inter e considerado por muitos como o melhor goleiro da história da Fiorentina, desfrutou o respeito por sua trajetória até os últimos dias de sua vida. A notícia de seu falecimento foi seguida por diversas mensagens de condolências, de nerazzurri, violetas e até mesmo do Celtic.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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