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Craques alemães e clubes italianos ajudaram a engrandecer, juntos, o futebol dos dois países

Em 1990, o Estádio Olímpico de Roma aplaudiu o tri mundial da Alemanha (ainda Ocidental) capitaneada por Lothar Matthäus. Dezesseis anos depois, foi a vez do Estádio Olímpico de Berlim retribuir a gentileza e se curvar ao tetra da Itália de Fabio Cannavaro. Apesar da rivalidade fortíssima quando as seleções se enfrentam, há uma admiração recíproca entre o futebol da Itália e da Alemanha. A ponto das histórias cruzadas engrandecerem craques e clubes. A Serie A só teve tanta força na virada dos anos 1980 para os 1990 por contar com alguns dos melhores jogadores alemães. Da mesma forma como a experiência no calcio ajudou a dar tarimba para diversos talentos do Nationalelf ao longo das últimas décadas.

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Desde 1963, quando a Bundesliga foi formada, 25 jogadores com nacionalidade italiana defenderam os clubes alemães. Poucos realmente como protagonistas. Luca Toni é o primeiro nome que vem à mente, e realmente viveu duas grandes temporadas com o Bayern de Munique, embora tenha saído pela porta dos fundos. Andrea Barzagli, por sua vez, foi uma das lideranças no Wolfsburg campeão nacional em 2009. No mais, vários coadjuvantes ou jogadores tarimbados que não vingaram, como Mauro Camoranesi e Ciro Immobile. Por outro lado, é impossível recontar o passado do futebol alemão sem passar pela Itália.

Historicamente, a Serie A quase sempre teve uma postura mais “imperialista” que a Bundesliga quanto à contratação de jogadores estrangeiros – algo que variou conforme as próprias regras da federação no número de forasteiros ou na força econômica de seus clubes. Independente disso, a quantidade de alemães que fizeram sucesso no futebol italiano é bem maior do que se comparada às outras grandes ligas nacionais na Europa. Algo que se explica, principalmente, pelos talentos que brotaram a partir dos 1980 e 1990, na época de ouro do calcio.

haller & schnellinger

A presença marcante dos alemães na Serie A, de qualquer forma, remete a um período anterior. Durante a pujança econômica dos clubes italianos durante os anos 1950 e 1960, alguns talentos germânicos ajudaram a formar grandes equipes. O grande astro era Karl-Heinz Schnellinger. Revelado pelo Colônia, o defensor chegou à Itália através do Mantova, depois de já ter disputado duas Copas com a seleção e ser eleito um dos melhores do Mundial de 1962. Passou ainda uma temporada na Roma, mas se engrandeceu mesmo no Milan. Como jogador rossonero, o líbero estaria em mais duas Copas. E, acima disso, foi parte fundamental dos milanistas na conquista da Copa dos Campeões de 1969, além da Recopa Europeia em 1968 e 1973.

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Sem desfrutar o mesmo sucesso continental, mas igualmente notável, Helmut Haller passou 11 anos no calcio, contratado também depois da Copa de 1962. O armador foi a estrela do Bologna por seis temporadas, incluindo no último Scudetto do clube, em 1963/64. Habilidoso e forte, chegou à Juventus em 1968, para abrilhantar um verdadeiro esquadrão. Faturou a Serie A duas vezes, mas o Ajax de Cruyff impediu um salto maior na decisão da Copa dos Campeões de 1973. Também na década de 1960, outros alemães de destaque na Serie A foram os meio-campistas Albert Brülls e Horst Szymaniak, que chegaram a disputar Copas enquanto estavam no calcio. E a lista poderia ser ainda mais recheada, não fosse a recusa de Uwe Seeler a uma proposta astronômica da Internazionale de Helenio Herrera, em 1961. Na época, o artilheiro chegou a conversar com o técnico Sepp Herberger, que colocou em xeque a sua continuidade na seleção caso fosse a Milão. Por isso, Seeler preferiu permanecer no Hamburgo. Logo o comandante perceberia que não seria possível manter a política de afastar os “estrangeiros” da equipe nacional.

Durante os anos 1970, com as portas do calcio fechadas a novas contratações de forasteiros, a Espanha se tornou o destino de alguns craques alemães. Paul Breitner, Gunter Netzer e Uli Stielike formaram uma tradição germânica no Real Madrid, enquanto Bernd Schuster chegou primeiro ao Barcelona. Na década de 1980, de qualquer maneira, a Itália voltou a ser o Eldorado. O primeiro negócio de impacto veio em 1982, quando a Internazionale buscou o meio-campista Hansi Müller no Stuttgart, após ser o camisa 10 do Nationalelf na Copa de 1982. Mas os nerazzurri realmente quebraram a banca em 1984, quando trouxeram Karl-Heinz Rummenigge, ganhador de duas Bolas de Ouro. Segunda contratação mais cara da história até então (perdia apenas para Maradona no Napoli), de quebra ajudou o Bayern de Munique sanar suas dívidas em um momento de dificuldades econômicas. Faltaram títulos, mas o atacante viveu bons momentos em suas duas primeiras temporadas em Milão.

briegel

O primeiro alemão campeão italiano desde a reabertura foi Hans-Peter Briegel, defensor que foi um dos símbolos do surpreendente Verona de 1985 e que depois ainda auxiliaria na ascensão da Sampdoria. Já após a Copa do Mundo de 1986, o Verona apostaria em Thomas Berthold. E a Roma traria Rudi Völler, ídolo do Werder Bremen e que também se tornaria referência dos giallorossi por cinco temporadas. O atacante conquistou apenas um título, a Copa da Itália de 1991, e deixou como legado 68 gols.

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Pouco depois, a Internazionale se tornaria a casa do Nationalelf na Itália. E, a partir de 1988, os nerazzurri juntaram no San Siro aquela que seria a coluna vertebral da Alemanha Ocidental tricampeã do mundo em Roma. Andreas Brehme e Lothar Matthäus foram os primeiros a chegar, vindos de um grande Bayern de Munique, em seu segundo tricampeonato nacional na história. Ambos foram protagonistas na conquista do Scudetto de 1989, com direito a gol do título marcado por Matthäus no confronto direto contra o Napoli. Já na temporada seguinte, Jürgen Klinsmann completou o trio dourado, adicionando qualidade técnica e faro de gol ao ataque. Juntos, faturariam ainda a Copa da Uefa de 1991, em decisão contra a Roma de Berthold e Völler. Além, é claro, do Mundial de 1990, no qual Brehme fez o gol decisivo contra a Argentina e Matthäus ergueu a taça, também eleito o melhor jogador do torneio.

O sucesso na Copa do Mundo gerou uma invasão germânica na Serie A. Até 1992, outros cinco campeões chegariam ao futebol italiano. Thomas Hässler veio à Juventus, mas viveu os seus melhores momentos com a Roma, referência no meio de campo por três temporadas. Já na Lazio, Karl-Heinz Riedle assumiu o posto de artilheiro. E a Juventus ainda tentou montar a sua república alemã, com outros três grandes nomes. Stefan Reuter ficou apenas uma temporada, antes que Jürgen Kohler e Andreas Möller ajudassem na conquista da Copa da Uefa de 1993 – curiosamente, contra o Borussia Dortmund, com o qual bateriam a própria Juve na final da Champions de 1997. Já a queda do Muro de Berlim possibilitou a vinda de dois dos maiores talentos da antiga Alemanha Oriental. Matthias Sammer não vingou na Inter, enquanto Thomas Doll deixou boa impressão na Lazio. E, ao mesmo tempo, Stefan Effenberg teve curta estadia na Fiorentina, capitão na campanha do acesso em 1994, mas mais lembrado pelas polêmicas.

bierhoff kohler

A partir da segunda metade da década de 1990, o boom de alemães na Serie A se reduziu. Christian Ziege e Jens Lehmann não causaram grande impacto no Milan, enquanto Jörg Heinrich é bem lembrado na Fiorentina. Mas o grande germânico do calcio nesta época foi Oliver Bierhoff. O centroavante chegou ao Ascoli com apenas 23 anos, ganhando destaque na Serie B. O suficiente para ser pinçado pela Udinese, onde formou uma dupla de ataque mortal com Amoroso. Pelos friulani, foi artilheiro da Serie A e chegou à seleção alemã, herói na final da Eurocopa de 1996. Além disso, também passaria com sucesso pelo Milan, goleador da equipe na conquista do Scudetto de 1999.

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Já ao longo deste século, com o enfraquecimento econômico dos clubes italianos, boa parte dos craques alemães seguiu por outros caminhos. Os dois maiores astros foram justamente centroavantes. Miroslav Klose, sem dúvidas, passou a figurar entre os maiores ídolos da história da Lazio após cinco temporadas na capital, marcando 55 gols apenas na Serie A e faturando a Copa da Itália em 2013. Mario Gómez, por sua vez, apesar do bom início, acabou atrapalhado pelas lesões e não cumpriu o esperado com a Fiorentina. Ao lado do centroavante, outros três membros do atual elenco de Joachim Löw passaram pela Serie A: Lukas Podolski, Shkodran Mustafi e Sami Khedira – o único remanescente na Bota, depois de ser parte importante no último Scudetto da Juventus. Talento que, a partir da admiração, os italianos também irão respeitar.

Para complementar a leitura, recomendo o ranking da ótima série feita pelos amigos do Quattro Tratti: Os 10 maiores alemães do futebol italiano

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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