Serie A

Bonucci é mais que uma contratação: é uma mensagem de força do Milan

Leonardo Bonucci é o protagonista de uma transferência impensável até aqui. Ele deixa a Juventus, hexacampeão italiano, finalista da Champions League, um clube do qual é ídolo, para jogar no Milan. A surpreendente contratação caiu no colo dos rossoneri, que não perderam a chance de levar aquele que é, discutivelmente, o melhor zagueiro do mundo. Mas como aconteceu essa reviravolta de um símbolo da Juventus decidir ir para o Milan?

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O relacionamento de Bonucci e Massimiliano Allegri, técnico da Juventus, teve problemas na última temporada. Depois de uma vitória por 4 a 1 sobre o Palermo, zagueiro e treinador tiveram uma discussão. Allegri é um treinador de personalidade forte e estava cansado de questionamentos da sua autoridade.

A discussão deixou marcas e o técnico exigiu que a diretoria o apoiasse para tirar Bonucci do jogo de ida das oitavas de final da Champions League, dizendo que se demitiria se não fosse atendido. Bonucci não foi para o jogo com o Porto em Portugal e a Juventus venceu fora de casa por 2 a 0. Uma vitória enorme pensando na classificação às quartas, mas ainda maior  para Allegri, que ganhou uma disputa importante. Se o time perdesse, naquele momento, os questionamentos da diretoria poderiam se virar contra ele.

Pelo bem do time, Allegri e Bonucci voltaram a se entender. O técnico inclusive deu a braçadeira de capitão do zagueiro no jogo seguinte. Ele voltou ao time, que seguiu forte até chegar ao título italiano, da Copa da Itália e à final da Champions League. Mas o problema estava ali, só guardado. Ao final da temporada, teria que ser resolvido. Havia esse risco do clube ter que escolher entre um e outro.

Uma outra faísca noticiada pelo jornal La Stampa é do intervalo da final da Champions League, em Cardiff. Bonucci cobrou Paulo Dybala, enquanto Andrea Barzagli questionou o papel do seu companheiro de defesa no primeiro gol do Real Madrid, de Cristiano Ronaldo. A história foi negada pelos envolvidos, mas o jornal manteve a história. Surgiu, pouco depois, a história que Bonucci poderia deixar a Juventus. Giorgio Chiellini negou dizendo à RAI: “Eu aposto que o que Leo quer é ficar na Juve”. Cá estamos, em julho, e ele foi para o Milan.

Bonucci já recusou propostas vantajosas do Manchester City e do Chelsea, as últimas há um ano, após a última temporada, e renovou o contrato com a Juventus até 2021. Ele é o segundo jogador mais bem pago do clube. A Juventus poderia conseguir um preço excelente por Bonucci, se quisesse vender, algo como € 60 milhões. Vende ao Milan por € 40 milhões.

Claro que há fatores que devem ser incluídos nesta conta. Bonucci está mais velho, completou 30 anos em maio e, mais do que isso, está insatisfeito. Um jogador insatisfeito é um problema e a política dos bianconeri não têm sido tentar convencer os jogadores a ficar, mesmo os melhores. Carlos Tevez foi liberado para voltar à sua Argentina, mesmo depois de uma temporada que ele tenha sido não só o melhor da Juventus, mas um dos melhores da Europa. A política também ficou clara quando aceitaram liberar Daniel Alves tão facilmente, sem tentar fazer com que ele ficasse e rendesse mais um ano. A Juventus só quer jogadores que queiram, de fato, estar lá.

Há, porém, outra razão. Bonucci pode não querer sair da Itália e tem um bom motivo para isso. Ele pode querer ficar no país por causa do seu filho, Matteo, que teve um grave problema de saúde em 2016. Ficar na Itália, estando na Juventus e querendo sair, é um problema. A ideia do Milan veio daí. Não veio do clube: veio de Bonucci e do seu empresário, Alessandro Mucci. O empresário estava visitando a Casa Milan muitas vezes neste verão. Mas havia razão para isso: ele é o agente de Andrea Bertolacci e de Juan Cuadrado, que é da Juventus, e foi treinado por Vincenzo Montella, que gosta muito dele. Era possível imaginar que essa fosse uma proposta viável. Não Bonucci. Mas foi o que o empresário e o zagueiro propuseram. Para a Juventus, talvez esta fosse a melhor proposta que receberiam pelo zagueiro, já que ele não deixaria o país.

Foi uma surpresa para o Milan. O clube já tinha se reforçado para o setor e pensava em outras posições. Contratou o zagueiro Mateo Musacchio, do Villarreal, por € 18 milhões; Andrea Conti, lateral promissor da Atalanta, por € 25 milhões; Ricardo Rodríguez, lateral do Wolfsburg, por € 18 milhões. Isso sem falar em renovar o contrato com Gianluigi Donnarumma, depois de uma novela que durou um bom tempo. Já seriam reforços de peso, porque há bons jogadores no clube rossonero, como o zagueiro Alessio Romagnoli, que ainda é jovem. Bonucci não estava nos planos, mas se tornou uma oportunidade que não pode ser perdida.

Se olharmos a história recente da Juventus, o clube não teve pudor em vender ou liberar estrelas. Depois da final da Champions League de 2015, o time perdeu Andrea Pirlo, Carlos Tevez e Arturo Vidal de uma só vez. Se remontou. Na temporada passada, perdeu Álvaro Morata e Paul Pogba. Novamente, criou um time forte. O clube tem feito um ótimo trabalho para repor os jogadores que saem. Desta vez, perde Daniel Alves e Bonucci. Precisará se remontar.

A Juventus mudou de esquema na temporada passada para um 4-2-3-1, o que torna menos necessário ter tantos zagueiros. Tem também Daniele Rugani, um jogador promissor, além de Mattia Caldara, que está na Atalanta emprestado até 2018, mas é da Juventus. Ainda tem Medhi Benatia na reserva, pronto a assumir um posto no time. Se especula até uma proposta pelo zagueiro holandês Stefan De Vrij, da Lazio, que fez ótima temporada.

No lado do Milan, o ganho é gigantesco. Além de ganhar um jogador entre os melhores do mundo na sua posição, ainda ganha um líder, um jogador de muita técnica e fibra. É um líder nato e um jogador com mentalidade vencedora, que pode contribuir para ajudar o time nesse aspecto, ainda mais em um momento de reconstrução. Ele ajuda a saída de bola com ótima qualidade, sabe dar passes e lançamentos longos, é bom pelo alto e traz ao time um nome que não tinha. Pode desenvolver Romagnoli, ainda jovem. A defesa do Milan passa a ser de primeiro nível, com todas as contratações feitas.

É a 10ª contratação do Milan na janela, em um mercado que tem sido muito bom para o clube. Mais do que uma contratação extra, Bonucci é um símbolo. Dá mais força a um projeto de fazer o Milan forte de novo. Dá credibilidade aos dirigentes que estão tentando fazer o clube voltar a ser vencedor como era antes. Ainda tenta contratar um atacante de alto nível, com Andrea Belotti, Nikola Kalinic e Pierre-Emerick Aubameyang entre os mais cotados.

A ida de Bonucci ao Milan lembra a de Andrea Pirlo fazendo o caminho contrário, em 2011. O Milan era então o campeão italiano e Pirlo foi deixado de lado por Allegri. Pirlo ajudou a mudar tudo em favor dos bianconeri, sendo fundamental à Juventus. A ida de Bonucci da Juventus para o Milan tem o poder de fazer o jogo mudar desta mesma forma, ainda com uma diferença: havia quem duvidasse de Pirlo, na época com 32 anos, e ele foi de graça para a Juve. Ninguém duvida da capacidade de Bonucci. Tanto que chega por € 40 milhões.

Bonucci pode ser o símbolo de uma mudança que recoloca o Milan na briga pelo topo. Uma briga que o time esteve fora nos últimos anos. Nem Champions League terá nesta temporada, só mesmo a Liga Europa. Pode ser um começo promissor para os rossoneri. É uma contratação muito maior do que o que ela representa em campo. É uma mensagem de muita força do Milan.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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