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Alessandro Lucarelli, o filho de sindicalista que se tornou a alma do arruinado Parma

O Parma apenas espera a hora de sua morte. Diante de tantas promessas não cumpridas, a falência parece inescapável aos gialloblù. O clube tinha até esta semana para sanar parte de suas dívidas, cerca de 15 milhões de euros. Não cumpriu. Neste sábado, surgiram rumores de que o time seria automaticamente rebaixado na Serie A, o que não foi oficializado pela liga. O fato é que, neste momento, a salvação do Parma parece impossível. Especialmente porque os jogadores, sem receber desde julho, se cansaram das tantas mentiras que ouviram, ainda que reiterem o seu compromisso com a instituição e com a torcida.

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Quem toma a frente para dar voz ao elenco é o capitão Alessandro Lucarelli. Desde 2008 no Ennio Tardini, o defensor de 37 anos demonstra uma enorme consciência sobre o que acontece no Parma e nos bastidores do futebol italiano. Irmão mais novo de Cristiano Lucarelli, Alessandro possui um posicionamento político parecido com o do ex-atacante do Livorno, fã declarado de Che Guevara, Lenin e Gramsci. Afinal, ambos cresceram vendo o pai, um estivador, militando no Partido Comunista Italiano. De certa forma, influenciou o senso de classe do capitão gialloblù, o que também ajuda demais na briga pelos direitos dos funcionários do clube.

“A falência do Parma significa mandar para casa pelo menos 200 famílias que dependem dos empregos no clube. Eu não estou pensando nos jogadores, mas naqueles que recebem mil euros por mês. Nós sentimos essa responsabilidade sobre os nossos ombros”, contou Lucarelli, em entrevista à Gazzetta dello Sport. “Entretanto, o tempo já passou. A ideia de entrar em concordata ficou para trás. Estamos trabalhando com a associação de jogadores, a federação italiana e a prefeitura. Iremos começar diretamente o processo de bancarrota. Temos que acelerar esse processo para, pelo menos, salvar o nosso status como um clube de futebol”.

Além disso, o capitão fez duras críticas à omissão dos dirigentes italianos sobre o caso: “Eu nunca vi uma história tão horrível como esta no futebol. A Lega Calcio e a federação precisam assumir grande parte dessa responsabilidade, porque eles só vieram a nós nesta sexta. Onde estavam antes disso? Por que não havia controles adequados? Por que o Parma pôde registrar quase 200 jogadores? Por que o clube foi vendido a um euro? Isso é ridículo. As instituições não cuidam de ninguém. Queremos saber se a Lega e a federação estão aqui para salvar o Parma ou sua preciosa Serie A. Tenho a impressão que eles estão aqui mais para garantir que terminemos a temporada sem interferir nos resultados”.

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E o Parma ainda poderá boicotar as partidas, caso os jogadores não tenha assistência da federação. “Ele precisam saber que não garantimos nada a ninguém. Se não nos sentirmos protegidos, estamos preparados para boicotar os jogos. Ficaremos em campo por 10 minutos e sairemos. Eles estão brincando com a vida das pessoas, é preciso mais respeito. Eles nos deixarão morrendo aqui? Bem, então morreremos juntos. Mostramos o quão profissionais nós somos, incluindo no último domingo, quanto tiramos pontos da Roma. Defendemos a nossa dignidade e a dos nossos torcedores. Desde novembro, ninguém tem discutido futebol nos vestiários. Você tenta se preparar a um jogo nessas condições. Queremos provar que somos moralmente irrepreensíveis”.

Neste final de semana, a partida contra a Udinese poderia acontecer com portões fechados, mesmo que o Parma não tivesse dinheiro para pagar a segurança do estádio. No entanto, foram os próprios jogadores que pediram o cancelamento. “Eles não pensaram nos torcedores que gastaram dinheiro para comprar os ingressos no início da temporada? Isso poderia abrir um precedente para futuros jogos em casa e o futebol não é nada sem a presença da torcida”, afirma o defensor.

“O Parma está dentro de mim agora”

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Segundo Lucarelli, a situação no Ennio Tardini piorou substancialmente nos últimos dois anos. “O clube sempre tendeu a pagar os nossos salários no último dia possível, e isso era estranho. Em novembro, o então presidente Tommaso Ghirardi foi aos vestiários e contou que os salários não estavam sendo pagos porque negociava a venda do clube, mas isso não vingou. Eu o disse que era o presidente ainda e que deveria pagar os nossos salários, mas ele respondeu que não colocaria mais um euro no Parma. Neste momento, o encontro ficou tenso. Sentimos que fomos traídos por Ghirardi”.

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Desde dezembro, o Parma teve dois presidentes diferentes: o albanês Rezart Taçi e o italiano Giampietro Manenti, que chegou ao clube há duas semanas. “Nunca vi Taçi. Sempre tínhamos contato com Kodra, o novo presidente. Tenho que admitir que ele foi o único durante este período absurdo que não fez qualquer promessa. Apenas disse que o clube tinha sérios problemas financeiros e que não sabia quando poderia nos pagar. Já Manenti logo colocou grandes promessas na mesa. Ele nos mostrou um extrato bancário para provar que tinha 100 milhões de euros. Era muito dinheiro, então ficamos com um pé atrás. Sempre era o mesmo: tínhamos que esperar um dia ou dois. Não vimos um mísero euro”, complementa Lucarelli.

De qualquer forma, Lucarelli quer que o exemplo do Parma nunca mais se repita na Itália. “Como uma empresa com capital de mil euros e outra com 7,5 mil podem comprar um time da Serie A? Qual a credibilidade que o futebol italiano que passar ao resto do mundo? Temos sido fantoches no Parma, mas agora queremos assegurar que essa situação nunca mais aconteça. As regras precisam mudar. Em qualquer caso, estou preparado para permanecer no Parma mesmo na liga amadora e continuar usando a braçadeira. O Parma está dentro de mim agora”. Um capitão que incorpora a alma de um clube cujo corpo está tão adoecido, e que pode se tornar símbolo diante do apodrecimento evidente das estruturas do futebol italiano.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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