Itália

Na beira do caos

“Basta, non ce la faccio piú”. Chega, não aguento mais. A leitura labial de Gianluigi Buffon, virado contra as próprias redes após ver o Lecce abrir o placar contra a Juventus em pleno Olímpico de Turim, denuncia o clima existente entre os bianconeri nesta reta final do Campeonato Italiano. Nedved ainda virou o jogo – sozinho – no segundo tempo, mas o empate de Castillo nos acréscimos impediu uma vitória que a Vecchia Signora, como equipe, não fazia por merecer.

A Juve completou cinco jogos sem vitória na Serie A. Antes da sequência negativa, era vice-líder, sete pontos à frente do Milan. Agora é a terceira colocada, quatro pontos atrás. E apenas cinco pontos separam o time de Claudio Ranieri da Fiorentina, quarta na classificação, o que deixa um sinal de alerta sobre a vaga direta na fase de grupos da Liga dos Campeões, que parecia garantida. O time tem um ponto a menos do que tinha nas mesmas 34 rodadas da última temporada, acabando com a sensação de evolução lenta, mas gradativa, após o purgatório na Serie B.

Um momento tão negativo pode parecer surpreendente se considerarmos os jogadores que tem a Juventus, mas o retrato do clube hoje é o de um barco onde cada um rema para um lado – e por isso não há como sair do lugar.

O elenco está dividido entre os favoráveis e contrários a Ranieri e aqueles que tentam conciliar a situação. O técnico parece já saber que não ficará no cargo para a próxima temporada, apesar de ter um contrato em vigor, e se sente desprestigiado por atitudes da alta cúpula do clube, como o jantar do diretor Jean-Claude Blanc com Marcello Lippi. Uma diretoria que não ganhou muitos fãs ao recorrer – com sucesso – do fechamento dos portões do estádio pelos atos de racismo da torcida.

A paciência da torcida, que já andava curta, esgotou-se com a notícia do retorno de Fabio Cannavaro, ainda considerado um traidor por ter abandonado o barco após o rebaixamento no tapetão em 2006. Retorno que depende apenas das formalidades, já que os exames médicos foram realizados nos últimos dias – sempre com um segurança acompanhando o capitão da seleção italiana.

Na partida contra o Lecce, as contestações duraram os 90 minutos. Nem mesmo a momentânea vantagem no placar acalmou os ânimos. Até o nefasto nome de Luciano Moggi, o responsável pelas tramoias que levaram o time à segunda divisão, foi entoado. O time sentiu o nervosismo, fez um primeiro tempo indigno de sua camisa, e nos vestiários o clima esquentou de vez.

Ranieri avisou a Camoranesi e Del Piero que eles seriam substituídos por Marchionni e Poulsen. O técnico sentia que a equipe, escalada no 4-3-1-2, havia perdido o meio-campo para o Lecce pela falta de poder de marcação, preferindo assim voltar ao 4-4-2 para a etapa final.

Camoranesi, então, se descontrolou. Já se sentia prejudicado por ser escalado como volante pela direita. Se o time mudaria de esquema, ele poderia render mais como meia externo, sua melhor posição. Sendo substituído daquela forma, com o time jogando mal e perdendo em casa, a indicação de “culpado” não poderia ser mais clara.

O ítalo-argentino levantou a voz para Ranieri e teve início uma áspera discussão. Buffon, irritado, deixou os vestiários e voltou ao campo com o intervalo ainda longe de terminar. Segundo a mídia italiana, o goleiro integra o grupo de jogadores que defendem apoio ao técnico para que o time tenha tranquilidade para trabalhar, enquanto Camoranesi tem o apoio dos franceses Zebina e Trezeguet na cruzada contra Ranieri. Del Piero e Nedved seriam os principais nomes dos “neutros”.

Nos últimos sete jogos, a Juventus levou 13 gols, pelo menos um em cada partida. Para um goleiro como Buffon, a frustração é mais do que natural – tanto quanto a sensação de ser apenas parte de uma engrenagem estragada. No próximo fim de semana, há o Milan pela frente, e uma derrota em San Siro pode colocar a Fiorentina e o Genoa perigosamente nos calcanhares, sugando a Juve para uma briga da qual não deveria fazer parte.

Diante deste cenário, a direção juventina já trabalha com a possibilidade de dispensar Ranieri em caso de mau resultado em Milão, dependendo da maneira em que se desenhar. Ciro Ferrara levaria o time até o fim da temporada, enquanto se intensificam os trabalhos de bastidores para buscar o novo nome.

Antonio Conte, próximo de levar o Bari de volta à Série A, é visto por muitos como o nome capaz de fazer pela Juventus o que Guardiola tem feito pelo Barcelona. O ex-jogador de grande identificação com as cores do clube, que conhece a estrutura por dentro e tem carta branca para apostar em jovens. No campo dos “emergentes”, Gianpiero Gasperini também é um nome de peso, mas seria necessário convencer o Genoa a liberá-lo.

Se a busca foi por um nome mais consolidado, a disputa ficaria entre Cesare Prandelli e Luciano Spalletti. Prandelli parece muito ligado à Fiorentina e seria uma surpresa sua saída. Por outro lado, Spalletti…

Roma, é crise

Parte da curva onde ficam as alas mais radicais da torcida da Roma estava vazia durante a partida contra o Chievo. Os torcedores estavam do lado de fora, protestando. Em seus lugares, dentro do Olímpico de Roma, ficaram faixas com um recado claro à presidente Rosella Sensi: “Vattene” (Vá embora). Com o placar em 0 a 0 e a partida se aproximando do fim, os jogadores passaram a ser os alvos dos protestos: “Vão trabalhar” e “Todos para a concentração”.

No meio da semana, Rosella havia tomado uma decisão polêmica. Os jogadores estavam concentrados desde a goleada de 4 a 1 sofrida para a Fiorentina, mas ela reverteu a decisão a pedido de Totti e De Rossi, as duas principais lideranças do elenco. Uma ação feita à revelia de Spalletti.

Em campo, a Roma teve chances para sair com a vitória – esbarrou no goleiro Sorrentino em algumas oportunidades –, mas não dá para dizer que o empate sem gols foi injusto. Aliás, o Chievo poderia até ter vencido, se o árbitro tivesse visto quando Panucci puxou Bogdani pelo braço dentro da área.

Spalletti vem dando sinais de desgaste há alguns meses, mostrando uma impaciência nas relações com a mídia que até então não era uma característica sua. Habitualmente político ao falar da importância da família Sensi para a Roma, ele já começa a dar suas alfinetadas, citando episódios como o das negociações com o norte-americano George Soros para a venda do clube no ano passado. Ele acusa a direção de deixá-lo no escuro sobre o andamento das negociações, que acabaram fracassando.

Agora, com um consórcio alemão liderado pela família Flick interessado em assumir o controle acionário da Roma, a torcida esfrega as mãos com a possibilidade de ver o time dar um salto de qualidade. Os tifosi da Roma têm a impressão de que o investimento da família Sensi chegou a um limite, sobretudo após a morte de Franco Sensi no ano passado, e que uma nova injeção de capital poderia fazer com que o clube sonhasse de novo em brigar pelo título.

Negociações à parte, há uma temporada a terminar. E a Roma, sexta colocada com 53 pontos, já não pensa mais em chegar à Liga dos Campeões. O perigo agora é não se classificar nem para a Liga Europa (nova Copa Uefa), já que o embalado Palermo, sétimo, está apenas um ponto atrás. O próximo adversário é o perigoso Cagliari, que tem 49 pontos e também sonha com a Europa.

De um jeito ou de outro, as relações de Spalletti com o clube já estão comprometidas, e a hipótese de uma rescisão amigável no fim da temporada é cada vez mais forte.

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Equipe Trivela

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