Itália

Há 35 anos morria Meazza, um dos primeiros craques que gostava das noitadas

Em um dicionário sobre futebol, Giuseppe Meazza pode significar o nome de um dos maiores templos do esporte. O estádio de Milão, casa de Internazionale e Milan, palco de partidas memoráveis. Mas o campo do bairro de San Siro só foi batizado assim porque houve um mito inspirador. E o craque Meazza pode ser considerado o protagonista de sua geração. Bicampeão do mundo com a Itália, sendo o Bola de Ouro em 1934 e o capitão em 1938, foi o melhor jogador das Copas antes da Segunda Guerra Mundial. Sobretudo, um dos primeiros astros do futebol.

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Peppino Meazza se tornou famoso pelos muitos gols e pela forma como se portava em campo. Era um jogador reconhecido pela elegância com que tratava a pesada bola de couro. Sabia driblar muito bem e, mais do que isso, tinha prazer em humilhar os adversários. Não à toa, o termo “finta à Meazza” se tornou comum na década de 1930, assim como os gols “ad invito”, em que convidava o goleiro para se arrastar atrás da bola. A sua habilidade era comparável à dos jogadores sul-americanos, reconhecidos na época exatamente por esse talento individual, e ainda era completo na criação de jogadas e nas finalizações. Não por menos, o atacante foi ídolo da Internazionale e também passou por Milan e Juventus.

E poucos jogadores se aproveitaram tão bem da fama quanto Giuseppe Meazza. O italiano é considerado como um dos primeiros “bon vivant” do futebol. Ronaldinho, Adriano e outros craques que adoram a noite poderiam ter aulas com a lenda da Azzurra. Quem o conhecia de perto contava que não era difícil Meazza passar a véspera do jogo em bordéis, saindo de lá apenas de madrugada e dormindo poucas horas antes de entrar em campo. É claro, para resolver com seu talento.

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Tanto fazia extravagâncias que Meazza era o único jogador da seleção italiana a ter permissão do técnico Vittorio Pozzo para fumar – e dois maços por dia. Mesmo moralista, o comandante não conseguia barrar o ídolo, que dizia: “Sou muito feliz, a menos que não jogue pela seleção”. Era o tipo de galanteador que gostava de belos carros e bons vinhos, que não desmanchava o penteado de brilhantina nem mesmo quando arrancava com a bola. Beleza que também o tornou garoto-propaganda de vários produtos. Se dentro de campo o atacante bailava com os zagueiros, fora dele sempre era visto dançando tango com uma gardênia branca na orelha. E ainda não dispensava uma noitada em jogos de azar, em tempos nos quais a Itália vivia sob a sombra do fascismo.

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Talvez fosse o deslumbre do garoto que perdeu o pai quando ainda tinha sete anos, morto na Primeira Guerra Mundial, e que cresceu ajudando a mãe vendendo frutas no mercado. O menino jogava futebol descalço nas ruas e, ainda com 14 anos, foi levado para a Inter após ser visto casualmente em uma pelada por Fulvio Bernardini, jogador nerazzurro. “Este é um fenômeno”, apresentou o prodígio ao técnico Arpad Weisz, para que ele se tornasse protagonista do clube ainda na adolescência. Pela seleção italiana, aos 19 o craque já destruía seleções respeitadas, como Hungria e Suíça. Chegou ao ápice com a Copa do Mundo de 1934 e inspirou ainda mais respeito em novembro daquele ano, na Batalha de Highbury.

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Se a Hungria se tornou tão celebrada em 1953 por ser a primeira seleção de fora da Grã-Bretanha a vencer a Inglaterra em casa, a Itália por pouco não conseguiu isso 19 anos antes. Em uma partida chamada de “a real final da Copa”, pelo fato de os ingleses não disputarem o torneio, os italianos por pouco não se impuseram. Os Three Lions anotaram três gols em 12 minutos, se aproveitando da lesão de Luis Monti nos primeiros lances. Entretanto, Meazza comandou a reação italiana. Marcou dois gols, acertou a trave e ainda exigiu várias defesas do goleiro Frank Moss. A derrota por 3 a 2 não garantiu o Alfa Romeu prometido por Benito Mussolini, mas fez Meazza e a Itália serem respeitados pelos ingleses.

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A aposentadoria de Meazza aconteceu em 1947, com sua carreira entrando em declínio durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, ainda trabalhou como treinador e comentarista, por mais que a sua conduta não fosse tão exemplar assim. Faleceu no dia 21 de agosto de 1979, há exatos 35 anos. Viveu seus últimos anos recluso, por conta de um problema crônico no sistema circulatório e seu enterro contou com poucas pessoas, como ele mesmo desejava. Porém, Giuseppe Meazza deixou como herança boas histórias e a aura de ser cultuado em um dos principais templos do futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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