Itália

Resgatando sua história, Foggia orgulha sua fanática torcida e volta à Serie B após 19 anos

Para quem acompanhou os anos áureos do futebol italiano, o Foggia faz parte da memória afetiva. Durante o início da década de 1990, os rossoneri ascenderam à elite com um estilo de jogo ofensivo e de muitos gols – não só a favor, mas também contra. Consagraram a filosofia de Zdenek Zeman e apresentaram alguns bons talentos ao Calcio. Mas aquelas imagens pareciam apenas relegadas ao passado, diante da decadência tão repentina quanto aquela sua ascensão. Foram três rebaixamentos sofridos entre 1995 e 1999, colocando os Satanelli na quarta divisão. Também enfrentaram seríssimos problemas financeiros, em sequência de acontecimentos que resultaram em falências, cisões e licenciamentos. Até que a casa voltasse a ficar em ordem nos últimos anos, para a fiel torcida vislumbrar um novo futuro honroso pela frente. Neste domingo, o Foggia conquistou o acesso e retorna à Serie B após 19 anos.

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A história recente vivida no Estádio Pino Zaccheria é repleta de percalços. Além do fundo do poço em 1999, com a queda à quarta divisão, os problemas se tornam mais sérios em 2004, com a liquidação do clube, mesmo de volta à terceirona na temporada anterior. Como de praxe com tantas equipes no futebol italiano, o Foggia ressurgiu e seguiu em frente no terceiro nível. Chegou a almejar o acesso algumas vezes, mas sem conseguir maiores sucessos. Até que, em 2012, tivesse a sua concordata declarada novamente. Neste momento, surgiram duas agremiações “herdeiras” do passado rossonero. Uma delas, nas divisões amadoras, fechou as portas em 2014. Quem seguiu em frente é o Foggia Calcio, estabelecido na quarta divisão e que, com a reforma dos níveis inferiores do Campeonato Italiano, foi alçado à ampliada terceirona a partir de 2014/15.

Desde então, os Satanelli se tornaram fortes candidatos no Grupo C da Lega Pro, uma das três chaves com 18 clubes que compõem a terceira divisão. Em sua primeira participação no novo formato, o Foggia terminou na sétima colocação. Na temporada passada, perdeu a chance do acesso em duas oportunidades. Fechou na segunda colocação do Grupo C, cinco pontos atrás do Beneveto, que conseguiu subir. Já nos playoffs, após eliminar Alessandria e Lecce, perdeu a decisão para o Pisa. Como consolação, ao menos conquistou a Coppa Italia Lega Pro, torneio paralelo dedicado aos membros da terceirona. Na decisão, os Satanelli bateram a Cittadella por 8 a 5 no placar agregado – enfiando 4 a 1 no Pino Zaccheria, antes do emocionante empate por 4 a 4 fora de casa.

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Assim, as expectativas para a sequência do trabalho se mantiveram altas. E se cumpriram nesta temporada, com a arrancada do Foggia no Grupo C da Lega Pro. Depois de um primeiro turno instável, acumulando muitos empates, a equipe deslanchou na metade final da campanha. A partir da 18ª rodada, os rossoneri venceram 16 de seus 19 compromissos, só perdendo um. Assumiram a liderança no início de março. Já neste domingo, apesar do empate fora de casa por 2 a 2 contra o Fondi, puderam comemorar o feito graças à vantagem no confronto direto com o Lecce, seu principal concorrente. Aliás, a terceira chave da Lega Pro, que compreende os clubes localizados mais ao sul do território italiano, possui diversas figurinhas carimbadas que disputaram a primeira divisão em um passado não tão distante – incluindo Catania, Messina, Reggina e Catanzaro.

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À frente da conquista do Foggia está o técnico Giovanni Stroppa. Meio-campista de relativo sucesso em sua carreira, era reserva no mítico Milan de Arrigo Sacchi, assim como fez parte de bons times da Lazio e da Udinese. Além disso, também defendeu o próprio Foggia na década de 1990, treinado por Zeman e convocado por Sacchi a quatro partidas pela seleção italiana no período. Ainda voltaria ao Pino Zaccheria no final de carreira, para uma curta passagem em 2004/05. Seu time possui o melhor ataque, a segunda melhor defesa e o maior número de vitórias entre os 54 participantes da Lega Pro. Só não conseguiu mesmo carimbar o acesso com maior antecipação, já que o Venezia de Filippo Inzaghi celebrou na última semana a conquista do Grupo B. No Grupo A, Alessandria e Cremonese disputam ponto a ponto a vaga direta.

Além de Stroppa, o Foggia conta com outros nomes conhecidos em campo. Em um elenco experiente, se destacam o lateral brasileiro Ângelo, formado pelo Corinthians e com passagens pelas seleções de base, mas carreira feita na Itália;  e o lateral Matteo Rubin, rodado em vários clubes da Serie A, especialmente o Torino. Emprestado pela Juventus, o centroavante Stefano Padovan é outro que pode alçar voos maiores. Já a principal referência ofensiva é o atacante Fabio Mazzeo, artilheiro da Lega Pro com 19 gols.

De qualquer maneira, é impossível falar sobre o ótimo momento do Foggia sem exaltar a sua torcida. A média de público se manteve respeitável nas últimas duas temporadas, por volta dos 10 mil espectadores por partida. Atualmente, só aparece abaixo do Lecce entre os 54 clubes da Lega Pro, superando até mesmo o Parma. E a paixão que se vê em vermelho e preto é inegável, com diversos espetáculos nas arquibancadas do Pino Zaccheria ao longo das últimas semanas. Não à toa, uma multidão viajou para acompanhar o time contra o Fondi, fora de casa, enquanto milhares tomaram a praça principal da cidade de 150 mil habitantes com a confirmação do acesso. A partir da próxima temporada, cenas que ganham de novo a Serie B, em sua 28ª participação no segundo nível – quem sabe, para alcançar a 14ª no primeiro em breve.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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